Assédio não pode ser normal, mas é

É assim: assédio não pode ser normal. Mas é. E a gente tem visto isso nesses últimos dias: as denúncias todas geradas pela hashtag #primeiroassédio. O volume. Dá a sensação de que aconteceu com todo mundo que a gente conhece.  Então a gente tem que entender. Não adianta, de novo, dizer que eles são todos pedófilos. Não são. Não são doentes, não são bandidos. São gente como a gente. Os homens que assediam são gente como a gente. criados para serem homens nessa sociedade maluca aí. E é disso que a gente tem que falar. Da porra da sociedade. Do que é chamado de homem nessa porra dessa sociedade. É nisso que a gente tem que mexer. Na cultura, nos hábitos. no “homem não chora”. No “isso é que é coisa de macho”. Ou, e talvez até mais importante, “isso não é”. É dessa porra dessa sociedade que a gente tem que falar.

Não adianta dizer que é “sordidez”, que são “canalhas”. Você não nota, mas quando diz isso está reduzindo o problema. Está desconhecendo que o problema é da sociedade: logo, é de todo mundo.

Acho bem mais inquietante pensar que são pessoas comuns que se sentem no direito de fazer isso. De pegar nas meninas, nas mulheres, de não escutar, de agarrar. Homens que agarram mulheres. E a grave questão é “se sentem no direito de”. Não porque são malucos: porque assim a sociedade lhes ensinou. A cada propaganda de mulher pelada vendendo cerveja ou carro, a cada “prenda suas cabras que meu bode está solto”, a cada “ele tá fazendo isso porque gosta de você”, a sociedade ensina que é assim. Sempre que se espera que as mulheres cuidem da casa, das crianças, e ainda estejam lindas e cheirosas para seu homem, é isso que se ensina. Toda vez que se trata uma mulher como menos, como menor, como sem espaço, toda vez que são os homens que ocupam a sala e relegam as mulheres para a cozinha, toda vez que os assuntos “de mulher” não têm vez na conversa, toda vez que elas não falam… toda vez que se acha que “direitos da mulher” não dizem respeito aos homens. Que, afinal, não abortam. Que, afinal, não engravidam.

Toda vez que se diz que “homem que é homem é que”…. toda vez. Quando às mulheres não se ensina que elas têm querer e voz: também. Quando se lhes pede calma, delicadeza, voz suave, não contrariar, “deixa, ele é assim mesmo”, “é só o jeito dele”….. toda vez que se diz às meninas que elas é que não devem usar saia curta, decote, que são elas que têm que se proteger, que se cuidar, em vez de dizer aos meninos que não, que não pode, que não é pra fazer. 

É de um olhar desassombrado para dentro dessa sociedade que é a nossa que a gente precisa: não de um repúdio horrorizado, como se não tivesse nada a ver com a gente. É da mudança no tratar desde pequenino, desde bebê praticamente: como se tratam os meninos, como se tratam as meninas. O que é ensinado a cada um deles. Isso é que tem que mudar, isso é que cria uma sociedade em que cada menina, cada mulher tem uma história de assédio pra contar. Em que, por trás de cada assédio, há um homem criado “para ser homem”. Desse jeito aí. Achando que pode.

livre

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