Cuidado para não se apaixonar

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“Cuidado para não se apaixonar”. Das frases que se diz por aí com o objetivo de aconselhar uma pessoa que está começando um relacionamento com outra que já tem um compromisso prévio. E pode ser namoro, noivado, casamento, bodas de prata. Enquanto é só o conselho a gente até fica feliz, porque tem gente que manda mesmo é jogar pedra na Geni. Tem gente que diz que não ficar com “homem casado” é questão de feminismo, sororidade e mais um monte de praquêisso. E que se o cara faz “isso” é porque é um sacana a priori e que você não deve se deixar seduzir por esse tipo.

Esse conselho vem seguido de um entendimento de que uma relação que envolve sexo, afeto, troca já não é um apaixonar em si. Estar, no sentido ficando/trepando com uma pessoa em que o sexo é ótimo, a conversa flui, há cuidado entre ambos, já é uma relação e, bom, creio que há paixão ali. Talvez não daquelas hollywoodianas, mas uma paixão sim. Isso não quer dizer que a relação tenha que “ir para algum lugar”. Talvez o lugar dela seja aquele ali mesmo, não precisa caminhar pra canto nenhum. No máximo até o motel mais próximo.

Essa ideia de que as relações devem seguir um rito de evolução – conhecer, transar, ficar, namorar, levar no aniversário de 15 anos da prima, passar Natal juntos e casar – só faz sentido nos filmes água com açúcar, em que o gran finale se dá com o beijo dos pombinhos já no altar. E pode ser que muita gente encare assim, mas também tem outras gentes vivendo e construindo relações de outras maneiras, com interesses outros que não só a tal “estabilidade” e a monogamia.

Fico pensando qual a real preocupação de quem profere esse conselho tão repleto de boas intenções. Porque se apaixonar é da vida, assim como doer na hora que acabar. É preciso saber, claro, que vai acabar quando um dos dois não quiser seguir adiante por qualquer motivo, que não vem ao caso. E vai doer nem que seja um cadinho. Pode ser dor lancinante ou fininha, vai doer.

Não existe garantia de relação duradoura e que nunca termine, nem ficadas de uma semana nem casamentos de 25 anos. Não importa se a outra pessoa é comprometida ou solteira. E se x desimpedidx não estiver disponível emocionalmente? E se elx morar do outro lado do continente? E se a pessoa comprometida for a mais disponível sexual e afetivamente? Insistir em um romance em que x outrx não está afim só porque é solteirx, me parece muito estranho. Porque se fechar para um sexo delícia, uma conversa interessante só porque x outrx é comprometido?

Então, o que nos resta – a nós que não medimos desejo e nem tentamos reprimir o que desejamos – é viver as paixões, conforme elas nos aparecem. Sem querer nos enquadrar com a forminha do outro, sem querer dar conta do que pode vir a ser e que nunca saberemos como será. E compreender que sentir é da vida e também das relações.

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