Da exigência de respeito à monogamia alheia

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De maneira recorrente vejo apelos para que mulheres não fiquem com homens comprometidos porque isso ia trazer sofrimento para outra mulher. Esse apelo feito em nome do feminismo, sororidade e quetais. Acho que há muita, muita coisa complicada nesse tipo de discurso, mas vou falar só de duas (por exemplo, vou passar ao largo da questão: mulher com mulher a fidelidade é automaticamente garantida? Porque não tem um apelo pra mulheres não ficarem com mulheres comprometidas? A homossexualidade feminina e a bissexualidade foram esquecidas ou mulheres são automaticamente fiéis se estão juntas?).

Mas, dizia eu, vou ficar só em dois pontos. O primeiro deles se refere a uma certa noção do desejo como voluntário. Sim, a forma como o desejo é constituído pode e deve ser problematizada. Os discursos mainstream sobre beleza e atratividade, a estrutura machista que supervaloriza a ação como masculina e implica em uma passividade dita feminina, a cultura que legitima que coisas como crime contra a honra ainda existam no imaginário das pessoas, tudo isso pode e deve ser questionado. Mas isso não significa que o desejo constituído possa (ou deva) ser normatizado. O desejo é subversivo. O desejo escapa. O desejo irrompe. A ideia de que se possa definir, a priori, que relações devem existir, como o desejo deve operar, é ingênua. Ou moralista, caso se aceite que o desejo exista mas que se deve reprimi-lo. Devemos ser responsáveis pelo nosso desejo. Essa frase é de uma ambiguidade linda: indica que respondemos por ele mas também implica que é de nossa alçada e de mais ninguém cuidar desse desejo. Inclusive de suas parciais satisfações.

O segundo é o próprio horizonte de relações presente nas entrelinhas: a ideia de que a monogamia é um modelo desejável de relacionamento. Ou, pelo menos, de que é um modelo de relacionamento a ser preservado. Parte-se da ideia, nesse apelo, de que todos compactuam dessa visão e desejo (por exemplo, sempre que ficamos com um homem comprometido ferimos nossa própria vontade e sonho de um relacionamento saudável., sim, eu li algo assim). Sem reparar (espero) lança-se o apelo a partir de uma suposição de moralidade comum. Mas e se a gente não tem o anseio por um “relacionamento saudável” ou não deseja que os “relacionamentos sejam saudáveis”? Ou se, mais longe, a gente não tem modelo e cada relacionamento pode ser do jeito que for? Se a gente levar às últimas consequências a ideia de que ninguém pode nem deve definir como alguém exerce sua afetividade e sua sexualidade, nem Igreja, nem Estado nem os parceiros? E se a gente não compactuar com o direito de posse intrínseco à idéia de monogamia?

Eu não. Não à culpa. Não a religiosidade dogmática do discurso pode ou não pode, fode ou não fode. Não às identificações fraternas e suas implicações. Não à conversão. E não, não, não, uma negativa sistemática à noção de que eu ou alguém saibamos o que é melhor pros outros e outras no que se refere ao usufruto do seu próprio corpo.

PS1, Minha questão não é que não existem pessoas que são comprometidas, ficam com outras pessoas E são escrotas. Minha questão é que elas não são escrotas ou sacanas PORQUE ficam com outras pessoas, não é uma relação causal e sim de concomitância (idem para quem é o “terceiro”, não significa que esse terceiro não possa ser um sacana, mas não é sacana porque é o terceiro).

PS2. Não foi intenção desmerecer os sentimentos pessoais. Somos quem podemos ser. A sociedade nos educou pra entender que se a pessoa com quem estamos estiver com mais alguém é porque fomos insuficientes de alguma forma. E isso dói. Caso não compremos o discurso da insuficiência tem também a idéia de que se a pessoa com quem estamos estiver com mais alguém é porque ela não presta, e isso dói também, como assim escolhemos errado? Então entendo e acolho quem vive como pode viver, se respeitando e ao seu ciúme e tal. Mas entendendo que isso é um jeito próprio e possível de viver bem, não uma bandeira. E que existe a possibilidade de uma vida em sociedade menos dolorida, possível se baseada na separação entre respeito e exclusividade.

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3 ideias sobre “Da exigência de respeito à monogamia alheia

  1. Primeiro quero te parabenizar pelo texto. Você escreve muito bem e articula as ideias de forma bastante inteligente e isso anda meio raro… Bom, sobre o tema do texto, embora eu pense que a não-monogamia é extremamente natural tendo a crer que (no meu caso) deve ser combinada entre os envolvidos. Costumo me tornar naturalmente mais monogâmica com parceiros por quem eu esteja muito apaixonada e como não posso nem quero exigir que o outro sinta-se da mesma forma que eu, costumo ser franca e dizer à outra pessoa que seja honesta comigo, que valha para os dois e que se vai sair com outros que se proteja e me proteja por tabela. Sou hétero e observo que os homens, de maneira geral, por me acharem muito dona da minha sexualidade e do meu nariz e, por causa disso, se sentirem intimidados, desejam que EU seja a monogâmica da relação mas não gostam de conter seus desejos. Mas o que me preocupa de fato quando uma relação só é monogâmica pra um lado é a questão que ninguém toca por parecer básica demais: a segurança da saúde dos envolvidos. Todos sabemos que muita gente transa sem preservativo, seja porque acha que confia no parceiro, seja porque bebe, seja porque não gosta ou sabe-se lá mais o quê e aí temos uma gama de dramas reais e sérios dos quais só se fala quando acontece uma gravidez indesejada ou, pior, uma DST. Já fui monogâmica e não- monogâmica e sempre procuro ser franca, tentando tornar minhas relações horizontais. Como diz um amigo, o combinado não sai caro pra ninguém. E eu acrescento: o combinado protege todo mundo. Pra mim, falar de relações não-monogâmicas é falar de autoconhecimento e responsabilidade. Brinco que é quase o que diz a bandeira da França: liberdade (do meu/seu desejo), igualdade (vale pra mim e pra você com mesmo peso) e fraternidade ( no sentido de cuidar do outro porque objeto do meu desejo, do meu bem-querer).

    • Olá, Daniela,

      obrigada pela leitura, concordo em tantos aspectos com seu comentário. Concordo que o cuidado com a saúde é muito importante, mas – e imagino que você também siga essa ideia – não é o acordo de monogamia ou de não-monogamia que garante a segurança, mas o uso de preservativos, a clareza nas conversas e o autocuidado. Porque por mais acordos que façamos, a vida pode ser maior, não é?

      Um beijinho biscate. comente sempre 🙂

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