De alma, de corpo

É uma ideia que pode parecer a princípio meio inquietante: abandonar a ideia de alma. De essência. Do que está por trás.

A gente fica só com a “casca”. Ou melhor: a casca é o que há.

A casca: o que se faz. Como se age. Não quero saber daquilo que se chama “alma”: das intenções, dos propósitos ocultos, dos sentimentos nos bastidores. De uma suposta essência, enfim. Se a gente abandonar a ideia de alma, o que resta é ação. Atitude. São gestos. E, afinal, esse é que é o ponto mesmo, não? Não quero saber se você ama seus filhos, lá no fundo. Se tem afeto pelos seus amigos. Se você, em pensamento, lá dentro do seu coração, é bacana, bom caráter, bem intencionado. Se tem vontade mesmo de fazer “o bem”.  Não é essa a questão aqui. O propósito não é julgar “o bem”, “o mal”. A questão, de novo, é o que se faz.

Se você chuta lanches dos outros e acha que está certo botar uma arma na cabeça de alguém porque disse algo de que você não gostou, sinto muito: pra mim não serve. Se você manda uma diretora de cinema convidada para debate sentar em outro canto e ocupa o espaço dela, não a deixa falar, desrespeita seu trabalho e seu lugar, também não.

Sou a favor dessa ideia de mundo sem alma. No mundo sem alma, ninguém vai escolher pelas intenções ou pela suposta bondade. Que intenções. Que bondade. É de atitudes que se faz esse mundo, o mundo sem alma. É se disse bom dia, boa tarde, boa noite. Se cumprimentou o porteiro. Se falou com a faxineira. Se não enfiou a mão na cara do primeiro que apareceu por algum motivo muito bem elaborado. Enfiar a mão não pode. Botar arma na cabeça, muito menos, e acho que devia ser evidente: a boa intenção dos justiceiros deveria ser substituída por mecanismos legais, já que não estamos no faroeste e que direitos humanos são para todos os humanos, ao contrário do que alguns querem fazer crer.

Mas, em um nível mais sutil,  também não pode ignorar, desprezar, não ouvir, não dar valor. Também não pode usar termos que desqualificam. Tem que tratar como igual, ora. E realmente não quero saber se você acha, lá no fundo, que a outra pessoa é igual mesmo: não conheço seu fundo. Não sei se você tem fundo. Não é relevante pra questão. O que me atinge é o que você faz, não o que você pensa ou sente. Isso aí é do seu foro íntimo. É da sua conversa com Deus, caso você acredite em Deus. A mim não afeta: se você me tratar como igual, isso sim afeta. Isso sim faz diferença.

Se você gosta muito da mulher em quem você bateu, que você destratou ou deixou de ouvir, isso é algo que deve atormentar você, imagino, e que, sim, faz diferença pro seu futuro: mas se gosta ou se não gosta de verdade, se sofre ou se não sofre: não é a questão aqui. A questão é o que fez ou não fez. Bateu? Destratou? Deixou de considerar? De escutar? Que importa se, no fundo, sua alma está cheia de boas intenções. O que a outra pessoa recebe e percebe são suas atitudes. E isso é que tem que mudar. Um esforço pra mudar as atitudes, é o fundamental: o resto pode vir depois. Ou não vir, sei lá.

Porque, na verdade, sua alma não importa: é de corpo que a gente está falando.

asas011

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