Dedos e línguas

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Gosto de seus braços imensos. Da consciência do encontro fortuito, espremido no horário comercial, com tempo pra acabar. E, mesmo assim, capaz de beijos tão molhados, íntimos e envolventes.

E do Motel de sempre, com a mesma voz mecânica da recepcionista perguntando “o senhor tem nosso cartão fidelidade?”

Sempre rio do cartão. Fidelidade.

Gosto do jeito como você chupa. Gosto desse jeito de desfrutar meu corpo, que você desfruta. Que você, de tão comprido que mal cabe na cama, vai decupando ele todo, enquanto me largo no colchão redondo do quarto.

E de ainda descobrir fetiches.

De você me chupando o dedo do pé enquanto mete. E você me chupando o cu, entretido longamente nessa preliminar que não é só uma preparação pro que virá. É desejo em si. Você gosta disso também. Porque, na verdade, não é mesmo só uma preliminar.

Gosto do barulhinho da camisinha se abrindo. E do movimento que nem vejo, porque estou costas. E me faz piscar. Porque eu sei. Gosto do jeito como você suspira “nossa” enquanto mete. Gosto do suspiro. Gosto do “nos-sa!” longo. Como se fosse a primeira.

E gosto que nunca, jamais, em todos esse tempo, nos chamamos pelo nome. Gosto. Fantasio que mantém o sabor clandestino de nossos encontros. E eu gosto. Um simulacro de anonimato. Que.eu.gosto.

Ainda que saibamos os nomes de nossos filhos, os problemas de nossos irmãos, da saúde de nossos pais, das tretas em nossos trabalhos. Mas, sem a certeza de sermos genuínos. Pode ser tudo uma grande mentira. De verdade mesmo, só nossos corpos no Motel.

A moça de lá sabe mais do nosso RG que nós mesmos! Ainda que perguntemos depois da primeira gozada: “e aí? Novidades?” E a gente ri. E até conta no meio de um cafuné nas costas.

Gosto que não sejamos amigos no Facebook.

Gosto que não falemos de política. Nem da crise. Pra continuar gostando.

E de suas vogais alongadas em nossas conversas no whatsapp. Porque disso precisamos. Pros agendamentos.

Gosto da lembrança da primeira vez, de puro dedos e línguas. Somente dedos e línguas. E foi sexo. E teve gozo. E a gente se quis logo de cara. E logo depois.

Gosto porque não é muito mais do que já é. Porque é o que é. Encontros fugidios durante a semana. Com meses de distância, às vezes. Com tempo certo pra acabar.

Sem drops. Sem sonho de valsa na porta do Motel. Cada um na sua vida. Sem engatar um próximo encontro. Que acaba acontecendo. Porque eu gosto. E você também.

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Uma ideia sobre “Dedos e línguas

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