Outro

Por Vinícius Abdala, Biscate Convidado

Conheço esta pessoa faz, pelo menos, 15 anos da minha vida. Parte da minha infância e adolescência foi ao lado de sua família. Frequentei a sua casa, me tornei amigo de sua mãe, vi o irmão mais novo nascer. Cheguei a visitá-lo no hospital quando ele se acidentou andando de bicicleta, na rua onde morava, anos atrás.

Ser LGBT, no senso comum, é inegavelmente ser promiscuo. Carregamos conosco o estigma da libertinagem e perdemos nossa humanidade para dar espaço a corpos abjetos preparados para servir sexualmente ao outro sem que haja a necessidade de envolvimento. Somos seres desalmados que carregam orifícios que precisam ser preenchidos; penetrados. Mais do que isso, que querem ser penetrados, principalmente por um “homem de verdade”.

Homens héteros que procuram por homens gays para sexo casual não são gays encubados. O sexo aqui perde a sua característica enquanto uma relação de mútuo prazer e passa a ser visto como forma de favor e punição.

Na cabeça da grande maioria heterossexual, o público gay carrega consigo o fetichismo e o desejo pelo proibido do homem hétero pela nossa vontade incensante de se relacionar com um “homem de verdade”. Afinal, são eles quem trazem consigo não somente os estereótipos carregados no tocante à virilidade – um dos signos reconhecidos socialmente da masculinidade, mas também são os únicos legítimos para performá-los. Como se todos os homens gays buscassem por homens viris. Como se a virilidade fosse via de regra para a masculinidade e ao tocante sobre o que é ser homem. E, uma vez que gays procuram por homens, logo, eles serão objetos de nosso desejo e só nos realizaremos completamente quando, enfim, nos relacionarmos com eles.

As demonstrações de interesse sexual pela parte dominadora soam como um favor, uma vez que, ao se rebaixarem, eles reafirmam suas posições de privilégio e se colocam nivelados acima. Quando um homem hétero se vê como objeto de desejo de um homem gay, ele reforça sua posição de superioridade e hierarquização social – que aqui se correlaciona diretamente a uma heteronormatividade dentro de seus vários aspectos. É como se estivessem prestando uma gentileza a nós quando se dispõem a se relacionar com a gente.

A punição, por sua vez, vem no que diz respeito a nossa subversão à masculinidade compulsoriamente imposta pelo gênero identificado: ser homem e “ser submisso sexualmente a outro homem” (sic) é papel da mulher. Ferir o orgulho masculino se submetendo a práticas “performadas pelo gênero feminino” (sic) merece castigo.

O sexo punitivo geralmente acontece numa mão única: desde o prazer até os limites da relação terão somente um sujeito na ordem das regras, e sabemos quem é. Não há preocupação com o bem estar do outro, com os limites do outro, com prazer do outro, tudo vai girar em torno do um pinto. “Não era isso que você queria? Não é de pau que você gosta?”, eles dizem.

Eu já perdi a conta de quantas vezes fui abordado por homens casados e que não são gays, mas héteros que procuram em seres “inferiores” a possibilidade de realização dos seus desejos e fetiches sexuais sem que haja o mínimo de respeito no envolvimento. Outro bloqueado pra lista.

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11944848_10207979992277025_1711212466_nVinícius Abdala é estudante de Psicologia com uma extensão em estudos de gênero e sexualidade. Militante LGBT e profissional do poder público, anseia pelo dia em que o mundo vai descobrir que na verdade, ele é a Beyoncé

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