Professor não é sacerdote

Minha mãe é professora. Já não atua em sala de aula há algum tempo, mas ainda trabalha na biblioteca da mesma escola municipal onde começou sua carreira mais de 30 anos atrás. Minha mãe sofre do mal de muitos professores, que já foi até chamado de LER (Lesão por Esforço Repetitivo). Já há um tempo, não consegue mais levantar o braço pra alcançar o giz no alto no quadro. Passou por várias cirurgias e perícias médicas que a tiraram da sala, até que foi lotada na biblioteca pra poder se aposentar.

Os problemas mais comuns relacionados às doenças ocupacionais dos docentes estão ligados à voz e à audição, ao aparelho respiratório, ao sistema muscular e aos problemas psíquicos relacionados a estresses na sala da aula.

Minha mãe não foi poupada de alguns deles:  os musculares, como já disse, os de voz e os alérgicos. Lembro-me de vários episódios de rouquidão, por exemplo, e de rinites por respirar o pó de giz, ano após ano. Felizmente, não desenvolveu problemas psíquicos, também comuns numa categoria tão desvalorizada, na qual muitos profissionais começam sua carreira com tantas expectativas e vão observando e constatando uma trajetória de desrespeito e quase abandono pelo Poder Público. Incluindo também episódios de assédio moral por parte de alguns gestores ou pais de alunos. Sem falar de situações horríveis com os próprios alunos, em sala de aula.

Do que mais me lembro são dos planos de aula sobre a mesa e que tanto me ajudaram em minha própria alfabetização. Lembro também de um milhão de provas para corrigir e de ajudá-la nisso, com um gabarito do lado fornecido por ela mesma. E das noites viradas com boletins para atualizar, quase todos de capa azul.

Minha mãe, essa linda do canto à direita, em sua formatura no magistério ou Escola Normal (foto do baú da família)

Minha mãe, essa linda do canto à direita, em sua formatura no magistério ou Escola Normal (foto do baú da família)

Mas, o mais emblemático pra mim foi o seu ativismo como presidente do sindicato dos professores em minha cidade, nos anos 80. Sindicato que ela ajudou a fundar, inclusive.

O que era ser professor nos anos 80? Quem beira a minha idade ou um pouco menos deve se lembrar. Vivíamos ainda os suspiros da ditadura, mas já com uma certa abertura, a categoria intensificava mais ainda sua luta pela defesa de uma educação pública de qualidade e de melhorias salariais. Muitas greves eram realizadas pelo país.

Minha mãe participou disso.

Ela saia de Pirapora, pegava um ônibus e andava uns 300 km até Belo Horizonte pra protestar na capital. O risco de apanhar da polícia era real. O medo disso também. E como não? Se o é até hoje?! O risco de ouvir que “professora não é mal paga, é mal casada” também era real. Não foi apenas Maluf quem disse isso. Lá pelas bandas de Minas, minha mãe e suas companheiras ouviram também

Pior é que, assim como acontece com a violência policial, uma frase dessas poderia tranquilamente ser repetida hoje em dia novamente. Vai me dizer que você não consegue enxergar certos políticos despejando uma provocação machista desse nível pra cima de professoras em protesto?!

Foi com ela, da voz dela, que aprendi que educação não é sacerdócio. Foi com ela que ouvi pela primeira vez que professor é profissional, que investe em sua formação e que merece e precisa ser bem remunerado, inclusive para manter-se atualizado. E que ele vive disso. Paga contas, cria filhos. Come.

E fazendo um recorte de gênero, ela sempre repetia que a maioria de suas colegas era as “chefes” de suas famílias. Numa das greves, quando o governo cortou o ponto, elas ficaram meses fazendo mutirão de comida, porque sem os salários de suas mães, crianças não tinham alimentos em casa. Já naquela época.

Aprendi com ela, lá pelos 80s. E sempre fico pasma quando, hoje, mais de 30 anos depois, ainda seja preciso reafirmar tudo isso. O tempo todo. Repetindo os argumentos, o discurso, as demandas.

Minha mãe sempre foi uma inspiração. Sua trajetória, sua paixão, seu comprometimento com a profissão me orgulham enormemente. De um jeito que nem sei se ela sabe tão bem assim. Como talvez ela nem saiba tão bem, embora sei que desconfia, o quanto ela foi fundamental em minha formação como mulher. Em minha identificação com o feminismo. Acho que já lhe disse. Sei que sim. Mas, por via das dúvidas, reafirmo aqui, publicamente.

E sei que ela foi uma inspiração para muitas alunas e alunos também. Volta e meia ela mesma me conta uma história de ex aluno confessando sua importância na vida dele. Ela se envaidece disso. Eu também.

Hoje, em seus perfis nas redes sociais ou posts em blogs, muita gente deve estar contando histórias de professores que fizeram diferença em sua vida. Pois minha mãe, Alice, que nem minha professora foi, fez na minha.

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