Que horas ela volta e o assédio sexual

Assim como muita gente, também achei Que horas ela volta (2015), da Anna Muylaert um baita filme. É provocativo e instigante. Mais que isso, é polifônico. Anuncia vários sentidos, deslocamentos e significados. Daqueles filmes que de tão abertos a interpretações acabam sendo capazes de comportar uma pluralidade de leituras que só enriquece as impressões (individuais e coletivas) e aumenta o diálogo entre espectador e a obra.

Não sei com precisão qual é a realidade das empregadas domésticas fora do nordeste (embora imagine que não muito diferente), mas aqui (resido em São Luís, Maranhão) persiste de modo violento e silencioso o hábito de “trazer meninas” (sim, elas não têm nome) do interior para a capital de modo que estas sejam exploradas em um regime de semi-escravidão. Muitas chegam bem jovens, em média aos 12, 13 e são instadas a viverem em função das necessidades da família que as escravizam em troca de alimentação, roupas, moradia precária, produtos de higiene e as vezes, até permissão para estudarem à noite depois que todo o serviço for feito (é muita caridade, né?). O salário? Algumas famílias pagam (mal) e outras fingem que elas estão ali porque são “da casa” e devem ser gratas de boca fechada pelo sabonete e absorvente comprado. Direitos? Bem, estamos caminhando nesse sentido com a PEC das Empregadas Domésticas, mas no contexto de uma cultura de exploração que de tão enraizada na sociedade, teima muito ainda em mudar.

As personagens emblemáticas de Camila Márdila (Jéssica) e Regina Casé (Val)

Jéssica (Camila Márdila) e Val (Regina Casé)

Quantas pessoas não construíram sua vida de privilégios em cima do apagamento dessas mulheres, que no invisível e desprezado trabalho doméstico, lhes davam condições (pra que eles, os patrões), tivessem tempo e tranquilidade para se dedicarem aos estudos, amigos, família, lazeres, viagens e outras atividades? Quantas pessoas que assistiram ao filme conseguiram fazer esse exame de consciência? Que muita gente só chegou aonde chegou devido a anulação de uma outra pessoa, mais especificamente, de uma empregada doméstica que estava ali como a Val. Fazendo a limpeza da casa, cozinhando e criando os filhos dos patrões. Curioso que a personagem da Regina Casé até recebe o Fabinho em seu quarto minúsculo quando o jovem quer amparo e carinho, mas a mesma Val é proibida, numa regra silenciosa, de sentar com os patrões e comer a mesma comida deles. Ela pode ser uma espécie de ama de leite, mas não está autorizada a desfrutar de igualdade. Ela é menos gente. Profissional de segunda classe que deve agradecer pelo colchãozinho dado pela patroa. Não é à toa que a Val passa boa parte do filme dizendo “agradecida”. Nisso há uma mensagem que estabelece um acordo entre todos: agradeço pela sua generosidade e eu me ponho no meu lugar em reconhecimento disto. E assim, a vida segue. Toda e qualquer esmola dada nesse contexto carrega em si o acordo da submissão, de quem manda e de quem obedece. Serve pra demarcar lugares. Porque, afinal, a ordem natural das coisas é assim. Deve ser assim.

Espero mesmo que essa realidade abusiva esteja mudando.

Outra coisa que me incomodou um tanto, que diz respeito a repercussão da película, foi ver pouquíssimos homens escrevendo sobre o filme. Dos textos que chegaram até mim, acho que 90% eram escritos por mulheres. E fico me perguntando se esse filme também não tocou a todos, de algum modo. Fiquei com a impressão, pela ausência das análises masculinas, que parece que a relação patrões e empregadas só dizem respeito as mulheres. A eles, muito pouco interessa. Mas também lembrei que o privilégio e/ou a descoberta de sua existência, também provoca em muitos um incômodo silêncio. Sim, o filme Que horas ela volta não é somente um filme feito de mulheres para outras mulheres. Ele representa uma realidade que todos, homens e mulheres tomam parte e contribuem para a configuração do quadro de opressão. Que saibamos ver de modo mais amplo que não se trata apenas do jogo simplista de uma mulher oprimindo outra. Dito dessa forma, gostaria de fazer algumas observações sobre, o José Carlos interpretado (com muita naturalidade e honestidade) por Lourenço Mutarelli, que junto com o Fabinho, são os poucos, mas significativos personagens masculinos do filme.

Zé Carlos é um sujeito rico por herança, melancólico por acumular frustrações no campo profissional, ocioso, angustiado e bastante depressivo (condição confirmada ao longo do filme). A chegada de Jéssica e sua alma inquieta, com inclinação pra perturbar os lugares rígidos da casa encantam Zé Carlos que tenta impressioná-la demonstrando pôr tudo que tem aos pés da jovem. Literalmente. Baseado nisto, ele oferece, com muita insistência, seus bens materiais em troca do acesso ao corpo e aos sentimentos de Jéssica. Ela fica visivelmente constrangida com as investidas dele e nas duas ocasiões em que isso ocorre, demonstra grande desconforto que faz com que desista de assediá-la.

mutarelli

Nessas duas cenas percebi uma denúncia da diretora, não sei se consciente ou não. Empregadas domésticas em nosso país também são uma das maiores vítimas de abuso e assédio sexual pelos patrões e seus filhos. No geral conhecemos casos em que isso ocorreu e que na ordem das coisas, acaba sendo diminuído em sua gravidade e até mesmo naturalizado pela nossa cultura (machista). Como se além do direito de explorar o trabalho doméstico, o patrão também tivesse direito a ter acesso livre aos corpos dessas mulheres que moram no quarto dos fundos ou que estão ali como faxineiras e diaristas. O que me incomoda bastante é o silenciamento e a conivência de muita gente com esse tipo de abuso. Já tive oportunidade de ouvir relatos de empregadas abusadas e acuadas pelas visitas sistemáticas dos patrões em seus quartos, de assédio intimidador quando faziam a faxina, entre outros. Nisso tudo, o receio de falar e ser demitida, o baixa-estima de si, a culpa, o pouco acesso a informação e as formas de defesa eram características dominantes da realidade dessas mulheres.

Sim, a Jéssica foi bastante acuada pelo Zé Carlos, que jogava nas entrelinhas com a questão da pobreza material da menina, pedindo-a em casamento em troca de viagens, da mansão que possuía e tudo que mais que ela quisesse. Nessa cena fica muito clara a tentativa de comprar a filha da empregada, que por ser pobre, tem supostamente um preço. A negativa constrangida de Jéssica é mais do que uma reação a um assédio. É uma forma de dizer que o comportamento do patrão da mãe é inadequado, que nenhum abuso é justificável e que a mentalidade senhorial q que tudo submete, deve ter limite. Aliás, nos termos de uma relação respeitosa de trabalho, ela sequer deve existir.

Em tempos de misoginia e desumanidade escancaradas, a grita em torno do tema da redação do ENEM deste ano, “Persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, aponta o quanto precisamos nos educar, politizar e ampliar o debate público acerca da violência contra a mulher. E precisamos também pensar na precariedade de vidas forjadas em diferentes experiências e pertencimentos de classe, raça e gênero, que tornam alguns corpos muito mais vulneráveis do que outros. O filme de Ana Muylaert, dentre muitos aspectos, nos faz refletir também sobre a vulnerabilidade sexual que os corpos de empregadas domésticas estão submetidos no contexto da bisonha cultura de estupro que vivemos.

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2 ideias sobre “Que horas ela volta e o assédio sexual

  1. Moro em São Luís. Minha mãe saiu de um dos povoados mais pobres do Estado com dez anos de idade para “morar” e cuidar de seis criancas. Isso mesmo. Em troca, recebia comida, alguma roupa e muita agressão verbal. Também foi vítima de assédio por uma amigo da família. Ninguém disse nada na época. O cara era “amigo” da família. Assim que pode minha mãe saiu de lá, mas ao vinte anos. Foi casar. Era a única saída. Belo texto, Jeane. Eu vi o filme. E nele, vi minha querida mãe.

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