Sobre o desejo e o amor

Por Maria, Biscate Convidada

Sou monogâmica, tentei não ser e não funcionou comigo. Não sei o motivo de não ser poliamorista,  pode ser que tenha ainda muito que questionar a sensação de posse que relaciono com o amor, entendo que não são coisas que deveriam andar juntas. Na minha vida, consigo diferenciar liberdade dxs outrxs e minha vontade, mas quando é com minhx parceirx tudo muda, tudo dói.

Não sou hipócrita em dizer que não machuca pensar em ver quem eu amo com outra pessoa. Mas, ser monogâmica não faz de mim cega, e, ultimamente, ando mais sensível a essa temática. É muita amiga falando de forma ruim de amantes e pessoas que traem. Dói pra caramba e, todas as vezes que descobri traição, me senti morrendo por dentro. Por muitas vezes odiei x amante, x “traidorx”, ou só x “traidorx”. Hoje, não vejo mais desse jeito. Posso desistir do relacionamento se machucar demais, mas eu desisto porque me machuca, entendo que não há culpa e que o desejo é algo que nos faz tomar decisões que pode machucar x outrx.

Não estou aqui dizendo que a monogamia deve deixar de existir, estou falando que precisamos parar de culpar as pessoas. É difícil, eu faço um exercício diário pra não culpar ninguém, outro dia mesmo, culpei alguéns, primeiro me segurei e pensei “ela não tem culpa, não farei o que tanto digo que é errado”. Culpei a pessoa que estava comigo, perguntei “porque vir atrás de mim, dizer que me ama pra me machucar?”, voltei atrás, depois de pensar muito, não deixou de me amar, não deixou de ser quem eu amo, só fez algo momentaneo, por insegurança, por desejo ou sei lá o motivo. Quem sou eu pra julgar alguém.

Eu tomei a decisão de continuar, mesmo doendo, mesmo sentindo que iria lutar contra minha possessividade todos os dias. Eu decidi amar a pessoa, sem dizer “apesar do que aconteceu”, eu decidi amar e pronto, continuar monogâmica, conversar, querer a pessoa ao meu lado. Mas você pode decidir ir embora também, você pode sair, ou porque te magoa, ou porque você não consegue compreender o que aconteceu. São escolhas, mas não existem culpadxs, existem humanos, existem pessoas que seguiram suas vontades, de “trair”, de continuar após a “traição”, de partir após a “traição”, de conversar e talvez sair da monogamia. As pessoas decidem viver da forma que mais lhe apetecer, da forma que lhe faz mais feliz.

coracao-na-mao

Não posso e nem devo culpar amante, “traidorx”, não sei em qual posição estarei amanhã nessa equação. Quero ser sábia, quero não odiar, quero não xingar, quero tentar ser com as pessoas o que espero que sejam comigo, nessa e em outras ocasiões. E eu já estive em outro lado dessa equação, já “traí”, quis ser compreendida como uma pessoa boa, não quis ser limitada como a “traidora”, a “errada”. Porque sou mais que aquele momento em que “traí”, somos muito complexxs pra nos resumirem em apenas uma característica ou acontecimento.

Não é questão de perdão, é questão de amor e desejo, é questão de não culpar x outrx por nossas dores e seguir adiante como for melhor pra gente. Sem pesquisas de fidelidade, julgamentos, sem textos humilhando amantes ou quem “traiu”, sem ódio. Só seguir a vida e ser feliz sempre que possível.

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