Todas Essas Coisas Sem Nome – 4o Capítulo

Esse é o quarto capítulo do livro de Raquel Stanick intitulado Todas Essas Coisas sem Nome. Sua primeira, única e artesanal edição encontra-se esgotada.

Os capítulos seguintes serão publicados quinzenalmente aqui no Biscate Social Club.
As ilustrações utilizadas nos posts serão da mesma autora, vindas da série Ceci n’est pas un blog.

Boa leitura!

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Estou doente. Falo contigo enquanto engatinho tentando me arrastar de volta pra cama vazia. Ela. Eu também. O vazio é uma espera, poetizo. Mas estar de joelhos não é fácil para ninguém. Nem para pedir, muito menos para apoiar um primeiro pé que sirva de impulso para o corpo inteiro seguir junto com a necessidade de levantar. E continuar sobrevivendo.

Por onde você anda? O que tem feito?

Eu sabia que seria estranho. Você não fode nem trepa – faz amor -, me contou  na primeira noite.

E eu olhando estranho seu jeito estranho de me olhar, como se fosse uma mentira o que te flagrava desvelando entre cervejas e joelhos que se encostavam.

Você pinta e eu abomino suas criações, não quero ser mais uma, falei em tom de brincadeira de artista contemporânea cool. Mas era verdade. Aí teve o beijo, teve a porra do seu beijo.

Teve você me beijando e falando e salivando que verbalizar trepar era vulgar. E eu levantando a mão: presente!

Te mostrei meu sutiã vermelho e rimos. Também seus telefonemas “só para escutar minha voz”, e eu gelada fugindo da sua. Estava trabalhando.

Então teve o dia em que você me recebeu em seu abraço e massageou meus pés e, golpe baixo, você os beijou. Aí eu já estava em suas mãos, homem. Flagrei a adolescente que nunca fui, quando hesitei em ir para o quarto. Porque eu sabia, eu sabia, que você ia me foder. Literal e metaforicamente. Mas o que fez aquela noite foi amor, deixando-me atordoada, tanto que, canalhamente, vesti uma roupa apressada e saí em busca de um cigarro e de um abrigo. Apenas porque eu não podia ficar daquele jeito, tão nua, brega, vermelha e sóbria, sentada no seu banheiro com a cabeça entre os joelhos tentando parar de tremer para, logo depois, ensaiar na frente do espelho meu imbecil ar blasé.

Mas não adiantou. “Eu sou uma farsa” -, pensei enquanto me aconchegava no seu peito e descansava de mim naquela rede tão branca, tão porto, tão firme, tão certa.

“Você tem cara de menina de dezesseis anos com o primeiro namorado.”

“Desde menina que eu não sou mais menina.”

Era a verdade até aquele momento. Você lembra?

Estou triste. Mesmo. As razões são muitas. Mas sei que não é só isso. Ou só por isso.

Não sou de todo imbecil. Mas quem disser que mergulhar em suas próprias motivações, aquelas, escondidas por baixo de todas as confortáveis mentiras que contamos a nós mesmos é fácil, me indique o método. Ou uma anestesia. Porque quero evitar pensar no que me dói de verdade.

Nunca fui muito corajosa. Sei que existe tanta coisa mais importante, tanta gente mais legal… Essas frases tão suas que tentaram escrotamente me consolar. E, sim, eu já sabia que ia dar nisso. Essa neve toda. Que você me deixaria nua e sozinha no frio do Ártico.

Mas não ligue para o que eu digo, você me conhece e sabe que eu sobreviverei.

Sempre existem as possibilidades.

Ontem. Em que era muita gente culta para pouca referência bibliográfica na parte que me cabia naquele latifúndio. E eu que nem com óculos de leitura me enxergo mais nas citações de Clarice, porque parei de chorar e, muito menos encolhida, fiquei foi dançando pequenininho, numa timidez que não estava escrita. Torcendo para que outro avistasse em mim qualquer coisa além das aspas.

Algum dia poderemos nos ver novamente?

(link pro prefácio e primeiro capítulo)

(link pro segundo capítulo)

(link pro terceiro capítulo)

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