Todas Essas Coisas Sem Nome – 5o Capítulo

Esse é o quinto capítulo do livro de Raquel Stanick intitulado Todas Essas Coisas sem Nome. Sua primeira, única e artesanal edição encontra-se esgotada.

Os capítulos seguintes serão publicados quinzenalmente aqui no Biscate Social Club.
As ilustrações utilizadas nos posts serão da mesma autora, vindas da série Ceci n’est pas un blog.

Boa leitura!

8

Não sei se você entende o que me ofereceu. Talvez eu também não. E o que depois me negou quando eu não consegui mais mentir meu desejo, que eu estava tentando aos poucos, nesses últimos meses, que voltasse a desabrochar em alegrias cotidianas.

Cheguei agora do psiquiatra, depois de muito esforço em sair da cama, porque eu tinha que sobreviver. Comer. Parar de fumar um cigarro atrás do outro. Ter horários condizentes com o resto do mundo. Porque tive uma proposta de trabalho que vai pagar meu aluguel do mês que vem, e hoje soube que alguns trabalhos meus não foram aprovados em um festival qualquer. Porque ainda tenho milhões de projetos a serem executados e já gastei o dinheiro que recebi por eles. E não me pergunte como, pois você sabe.

Não quero mais ter que pedir ajuda financeira a minha mãe, como ela me lembra sempre em quase todos os telefonemas que trocamos. Porque eu tive que brigar até para comprar um fogão – que sei, terei preguiça de usar -, preferindo sempre comer fora, logo, gastando mais. Porque eu não tenho número algum nas entradas financeiras do meu caderninho amarelo.

Porque já me sei apenas uma mulher, e dói, dói. Dói ter que me saber também em você. Não quero. Não, obrigada, não quero. Repeti, repeti e repeti. Você não precisava ter que me mostrar novamente o quanto era amargo e doce, para logo depois continuar em sua trilha cega, morrendo de medo de você mesmo. E de mim. Já fui muito bem criada por uma família de loucas. Decorei meu papel, e bem. Não precisava se preocupar tanto.

Claro que você sabe do que eu estou falando, ou você acha que eu também não estava lá?

Acha que não fui eu quem arrumou em perfeita harmonia estética os remédios da minha loucura, e em suas caixas escrevi horários em vermelho para não confundir tudo, junto com uma escova de cabelos, a carteira de cigarros, dois isqueiros (um vermelho e um verde), um cinzeiro com duas piolas dentro, um perfume de frasco lilás, um hidratante com cheiro bom, o celular caro que fotografaria essa cena – mas que tenho que levar na assistência -, um outro aparelho que peguei emprestado, (enquanto não faço isso com meu pai), um pen drive e um fone de ouvido?

Mas tem muito mais coisa aqui nesse móvel que sobreviveu à falência de um bar, que outrora abrigava uma máquina de crepes, e que ficou numa casa que já considerei minha. Mas que nunca o foi, quando de lá fui mandada embora tantas vezes entre gritos e ameaças.

Cores, texturas, projetos, leituras. Não deu para descrever tudo no pouco tempo que nos demos. Ou até daria, mas levaria mais vidas inteiras – que você escolheu tentar viver sem mim.

Penso que você gostaria de ver a tal arrumação, eu achei bonito quando finalmente parei e olhei, logo após guardar a feira feita depois de pagar o aluguel e a conta de energia. Ah, e de ter ido visitar a pessoa que ainda acredito poder me salvar da alienação, junto com as palavras que insistentemente escrevo, mesmo morrendo de medo de pedir e oferecer ajuda em alto bom som.

Depois de fazer essas coisas, finalmente pude gritar sem me importar com os vizinhos: “Pronto, estou louca, louca, louca, louca!”

Tranquilizo-me ao lembrar que tenho meus remédios e os dias que passam. Porque nem tudo é poesia, meu amor. E em toda loucura existe a possibilidade de crueldade. Ou de amor.

Sua condição – a que eu briguei muito para não aceitar -, foi a de me reconhecer doente. E eu achando que era apenas paixão.

(link pro prefácio e primeiro capítulo)

(link pro segundo capítulo)

(link pro terceiro capítulo)

(link pro quarto capítulo)

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