Três historinhas, em um daqueles dias

Aí que hoje é daqueles dias. E, como não tem texto, vou resgatando fiapos de histórias. Todas de verdade. Quem sabe compõem algo.

Lembro daquela vez em que eu, com seis anos, fui chamada de “puta” porque tirava a roupa na frente dos meninos. Eu tomava banho com meus primos, meninas, meninos: não entendia porque teria algum problema em alguém me ver sem roupa. Os meninos do prédio pareciam achar isso legal. Eu tirava, ué, e achava engraçado. Era todo mundo da minha idade, será que eles não tinham primos?
Mas aí a amiga me disse que quem fazia isso era puta. Eu não sabia o que era puta, mas pela cara dela não devia ser nada bom.

Aí teve aquele  cara com quem eu fiquei, já adola: eu podia ter ficado com ele ou com outro, mas aí calhou que foi com ele. E eu contei pra ele. Vocês vão dizer que eu fui meio mané: mas sério, não achava que fosse demérito nenhum. Tava todo mundo ali, a gente tava de férias na praia, e experimentava. Ficava com um, com outro. Era pra fingir que tava apaixonada? Ninguém tinha me explicado isso. Tá, eu devia mesmo ser meio mané. Excesso de sinceridade. Mas, sinceramente, não tinha me ocorrido que o cara pudesse se incomodar. E, menos ainda, que alguém fosse achar que aquele comportamento não era adequado. Pô, a gente tava experimentando. Não é assim que se começa qualquer coisa?

Por fim, teve aquele outro: esse já era namorado. E achava um monte de coisas sobre mim. Eu não sabia que ele achava, ele achava só pra ele. Mas aí um dia a gente conversou. Sobre experiências pregressas. Sobre como, onde, o quê. E a pessoa ficou abalada. Abaladíssima. Tipo precisou se afastar. Refletir. Ficou mal. Eu tinha abalado a imagem que ele tinha de mim. Com a minha vida. A minha vida não cabia na imagem que ele tinha de mim. Dessa vez aí eu entendi melhor: entendi e fiquei furiosa. Ele não tinha o direito. A minha vida era minha. Eu tava só contando pra ele. Ficar abalado, sério? Se eu não cabia na imagem que ele tinha de mim, ele que fosse arranjar alguém que coubesse.
Oras.

Ciranda

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Uma ideia sobre “Três historinhas, em um daqueles dias

  1. Antes do muro cair era ao contrário. Tínhamos de inventar uma história pregressa… intensa! senão não éramos interessantes. Depois da Aids, do muro, do liberalismo e da caretice, passou a ser o inverso. Ai de quem falasse!

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