Alguns dos dias lindos da luta

E num ano que andava tão ruim que eu acordava e vi as notícias e pensava: “Céus, só queria estar morta!”, tivemos dias lindos, da mais louca alegria, dias cor de rosa, púrpura, arco-íris de lindos. As mulheres voltaram às ruas contra aquele PL pavoroso do Cunha. O triste assédio sexual sofrido por uma garota de 12 na TV  mas que resultou numa explosão de 100 mil compartilhamentos de histórias tão ou mais escabrosas sobre assédio na infância e adolescência (não que isso seja bom, mas precisamos mesmo falar sobre isso para que tenha fim, nada que é velado acaba) com a tag #primeiroassédio.

E ainda tivemos o apelidado “Enem Feminista”, com citação de Simone de Beauvoir, tema da redação “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, poesia sobre resistência negra e feminista queer mexicana Gloria Evangelina Anzaldúa. Para finalizar, a imprensa escrita tradicional publicando matérias sobre grupos feministas comandados por garotas adolescentes dentro de suas escola, tanto na periferia quanto nas escolas particulares (sobre isso tem um texto fantástico da Vanessa Rodrigues) .

Tá, eu sei que não tá tudo perfeito, sei que a luta é árdua e longa, sei que várias partes do feminismo interseccional a gente ainda mal alcança (feminismo negro, feminismo trans, feminismo na periferia, e tem gente tentando, sério), mas eu chego a chorar escrevendo isso porque me lembro que até uns 5 anos atrás a palavra feminista mal era ouvida por aí, ainda mais na boca de adolescentes ou era ouvida mal mesmo. As pessoas achavam o feminismo um horror, tendo idéias bem absurdas sobre o que ele significa (tal como supremacia da mulher, sendo pois, o exato oposto do machismo, o que sabemos não ser verdade, feminismo é luta por igualdade de direitos).

E, sim, tem o mainstream se apoderando da palavra pra vender, como faz com tudo no mundo. Mas, sabe, isso não é ruim de todo, pois foi pelo mainstream que eu conheci o feminismo nos anos 80, pirralha, com uns 10 anos, vendo TV Mulher e Malu Mulher, principalmente Malu Mulher. E olha que a palavra mal era usada, nem sei mesmo se era, mas ali aprendi a ser livre e independente, aprendi sobre igualdade de direitos. Óbvio que depois busquei mais, achei a Beauvoir e Rose Marie Muraro lá pelos 15 e 18 anos. Mas tudo começou ali, na TV, na Globo, pasmem.

Essas garotas jovens lutando por nós todas, mulheres, com tanta força e tanta consciência, fazendo o feminismo retornar às pautas e às ruas me dá esperança que um dia a gente seja a Finlândia e façamos nossas greve geral. Que gente como o Cunha e asseclas não permaneçam pra sempre na política.

Vamos nos unir e ir à luta com essa juventude linda que tá pintando aí. A gente tem tanto pra aprender com elas  quanto elas conosco, porque se a gente ficar buscando um purismo que não existe, se concentrando nas mil pequenas dissidências ( não estou falando de passar por cima do que é importante), toda iniciativa que seja bacana vai parecer em vão. O mundo não é perfeito. A militância, consequentemente, também não é.  Criticar é preciso, debater também mas precisa mais. Precisa achar um ponto de união e comemorar as vitórias, mesmo as pequenas.

Porque a direita sempre joga fora divergências e se une por dinheiro e poder, facinho, facinho. E em geral leva o caneco para casa, enquanto a gente fica se debatendo anos pra uma vitória sequer e desdenha depois, porque a vitória não tá boa, ideologicamente pura o suficiente. Vamos aproveitar a alegria desses dias, como bem disse a Bia Cardoso nesse texto lindo e vamos permanecer na luta, nas ruas.

Fora Cunha.

Fora Machistas.

Não Passarão.

 

amigas

Como nota triste a toda alegria provocada por tudo que aconteceu e foi relatado nesse texto, infelizmente vem a revanche e o backlash , e a vítima da vez foi a Lola Aronovich, feminista batalhadora e conhecida que muito acrescenta à nossa luta e que vem sofrendo uma série de ataques, inclusive de celebridades. Manifesto meu apoio a Lola. Machistas, seu medo e sua inveja bate na nossa pomba e gira. Tamo junta, Lola.

 

 

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Uma ideia sobre “Alguns dos dias lindos da luta

  1. Tempos dificeis, mas lindos ao mesmo tempo!!!
    Todo meu apoio a Lola também!!!
    Aqui em São luís haverá um ato dia 12 próximo.
    Abraço!
    Katiuscia

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