“ Já acabou, Jéssica? ” e a insensibilidade que viraliza

Há alguns breves dias, vi em vários espaços na internet o meme “Já acabou Jéssica?” e não entendia de onde havia saído a frase, muito menos, o contexto dela. Também não dei muita importância, e, particularmente, não tenho muito apreço por memes, uma vez que muitos são produzidos com o intuito de rir da dor do outro.

E com esse, o da Jéssica, não foi diferente.

Eis que uma aluna minha me mostrou o afamado vídeo. Em pouco mais que dez segundos, uma briga de duas adolescentes é filmada, na saída de uma escola. Uma delas está no chão e é socada e chutada fortemente. Jovens fazem um círculo pra apreciar melhor o “espetáculo” que ali se desenrola na frente deles. Elas, as meninas, brigam em público, se machucam, se expõem; a cena é de uma tristeza e violência só. As pessoas à volta gritam animadamente e se mostram excitadas diante da ocorrência da agressão. Ninguém separa. Ninguém ampara. Ninguém as acolhe. Apenas filmam, observam de um jeito mórbido e, mais à frente, compartilham o vídeo de quinze segundos com o que consideram uma briga “engraçada e cotidiana” de duas adolescentes.

Daí em diante já conhecemos bem o script: o vídeo viraliza em poucos dias, se torna o assunto mais comentado da internet e a fala de uma das garotas se torna um bordão, executado a torto e a direito com o único objetivo: ridicularizar e rir da dor de outra pessoa.

jessica
Não, pra mim não dá. Não consigo achar que se possa fazer humor diante da desgraça alheia, da violência, de algo que deveríamos firmemente repudiar e combater. Fiquei consternada quando vi o vídeo. Por tantos motivos, porque sou mulher, porque já fui supervisora escolar e já apartei brigas (de meninos e meninas), porque sei o quanto é triste estar no meio do escracho público, porque sei o quanto isso violenta a dignidade de um ser humano.

A adolescente que apanha, tentando ainda mostrar que não foi vencida, querendo não se sentir tão humilhada e violentada por uma plateia sedenta, diz pra se defender: “já acabou?”. Puro mecanismo de defesa da adolescente pra tentar se proteger e resguardar ainda alguma dignidade. E é justamente esse dolorido ato final do qual milhares de pessoas riem. Ninguém se solidariza. Mais importante do que se preocupar com a menina que apanhou, é promover o riso cúmplice.

E isso diz muito sobre nós. De como nossas formas de convívio são pautadas pela violência já banalizada e introjetada como um patrimônio imaterial no DNA brasileiro. De como nos portamos (mal) diante da dor dos outros. De como na iminência de ajudar, socorrer, dar apoio, preferimos com frieza lançar o aparelho de celular e filmar. De como optamos compartilhar e espalhar às expensas o riso obtido do infortúnio alheio.

Impressiona também que a cobertura sobre o caso não tenha desencadeado nenhum tipo de reflexão sobre a cultura violenta a qual vivemos. Ao procurar saber mais da briga das duas adolescentes, li que houve a atuação do Conselho Tutelar e que ambas já “fizeram as pazes”. De acordo com a matéria, a briga foi motivada por ciúmes de um rapaz, namorado de uma das meninas (e sabemos muito bem que somos culturalmente educadas pra odiarmos umas às outras, pra nos vermos como rivais que disputam homens, beleza e juventude). Ao que consta na reportagem, a mãe da adolescente que apanhou não está nada bem devido a forma como a filha foi superexposta e ridicularizada perante, apenas de… todo o mundo cibernético.

Eu entendo a dor dessa mãe, sabe? O que não compreendo e não aceito, é essa falta de alteridade e empatia que se apossa de espectadores sedentos por grandes e pequenas tragédias da vida real. Uma sociedade que se ouriça e que se excita em consumir e compartilhar violência em seu estado puro, é uma sociedade que me deixa desesperançosa por dias melhores.

Daí que ninguém reflete sobre a responsabilidade da pessoa que espalhou o vídeo. Ou das pessoas que compartilharam e estão ainda, bovinamente compartilhando o dito cujo. Ninguém pensa que poderá ter contribuído pra arruinar uma vida com essa atitude, prenhe de violência simbólica.

Afinal de contas, não sou eu que estou no meio daquela briga, não é mesmo? Pra que ter empatia e alteridade? O que significa isso? Não se sabe.

E com a pontinha de otimismo que ainda me resta, espero que um dia nós tenhamos mais pessoas que apartam brigas, pacificam conflitos, resolvam pendências na base do diálogo do que pessoas que saiam por aí dando porradas a esmo e outras filmando, debochando e compartilhando agressões com a insensibilidade e a banalidade de quem ao mesmo tempo come pipoca e consome a dor alheia.

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Uma ideia sobre ““ Já acabou, Jéssica? ” e a insensibilidade que viraliza

  1. Texto brilhante. Absolutamente necessario. So nao concordo que a banalizacao da violencia esteja no “DNA brasileiro”. Infelizmente e’ fenomeno global, e os brasileiros podem ser bem influenciados se expostos a reflexoes como esta.

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