#OcupaEscola: pra periferia, estamos olhando?

Acredito que quem é de mídias sociais deve estar acompanhando, mesmo que de soslaio, a ocupação das escolas estaduais em São Paulo que estão na lista das 94 que serão fechadas pelo governador Geraldo Alckmin. Com isso, já em 2016, ao menos 1 milhão de alunos poderão ser transferidos para outras escolas, espalhadas pela cidade. O caso é que essa decisão foi tomada sem consulta pública, sem conversas com a comunidade, com associações de professores e pais, com os alunos. Tudo é muito nebuloso e pouco transparente e mesmo a publicidade do governo do Estado explica bem pouco.

Em protesto, estudantes se organizaram e resolveram ocupá-las. Até a finalização desse texto, 16 escolas estão ocupadas, espalhadas entre as zonas oeste, sul, leste, Embu e Osasco, estas duas na grande São Paulo. O governador deu entrevista dizendo que há interesses políticos por trás dessas ocupações. Ora, pois, mas não é justamente política o que esses estudantes estão fazendo? E isso não é fantástico?! Realizando coisas realmente lindas por lá, como saraus, shows e muito debate?

Obviamente que um governo como o de Alckmin, pouco acostumado ao diálogo, a reação não poderia ser diferente do que foi. Nesse processo, o estado se fez presente na sua face mais truculenta: pela polícia. O governo enviou a polícia armada contra estudantes munidos apenas com tambores, reivindicações e desejos! Na 4a feira (11), saiu uma liminar de reintegração de posse das escolas Fernão Dias Paes, no bairro de Pinheiros, e Escola Estadual Diadema, que deveria ser cumprida 24h após a notificação na escola, mesmo que de “maneira coercitiva”. Isso deixou o clima mais tenso ainda.

Na 5a (12), durante a Marcha das Mulheres contra o Cunha, gritamos várias palavras de ordem contra essa atitude absurda e tresloucada do governo do estado. O movimento feminista parou em frente à Secretaria de Educação pra denunciar o autoritarismo do governo com o fechamento de escolas e a militarização para reprimir os estudantes. Além disso, um grupo foi em direção à Fernão Dias assim que terminou a Marcha, permanecendo em vigília madrugada adentro.

EE Fernão Dias. Foto: Vanessa Rodrigues

EE Fernão Dias. Foto: Vanessa Rodrigues

Na 6a feira (13), quando seria feita a reintegração na Fernão Dias, fui pra porta da escola. Encontrei PMs postados em frente ao portão, o Choque numa rua lateral, mais “discretos”, e várias pessoas acampadas. Havia também muita imprensa, além das presenças de padre Júlio Lancelotti e do advogado e especialista em Direitos Humanos, Ariel de Castro Alves. Pude ouvir uma fala muito contundente de padre Júlio, que tento reproduzir abaixo:

“A ordem é que o estado não use o Choque conta os estudantes. Mas, quem vê essa escola cercada por PMs e o Choque deve pensar: ‘que país é esse que cerca uma escola contra alunos, contra pessoas que não são criminosas?’ Eles sempre ouviram ‘vão pra escola!’ Agora, estão ouvindo ‘saíam da escola que a polícia vai entrar’. Isso é uma vergonha! Uma vergonha pro país. Uma vergonha pra qualquer educador. Quem devia estar negociando com eles não é a polícia!”

Saí da porta da Fernão ao redor das 21:00. E, ainda na estação do metrô, recebi mensagem de uma amiga que também estava lá contando que a liminar de reintegração tinha sido suspensa e que os estudantes estavam em festa. Fui pra casa um pouco mais aliviada, acreditando que, ao menos naquela noite, as coisas ficariam relativamente tranquilas. No caminho, comecei a pensar mais intensamente nas outras escolas. Naquelas que, ao contrário da Fernão, estão longe das zonas mais nobres.

A EE Fernão Dias se localiza próxima de uma estação de metrô, num bairro de classe média alta de São Paulo. Além de ter sido uma das primeiras a ser ocupada, não se pode negar que sua localização contribui para que seus alunos chamem mais atenção da mídia e causem tanta comoção. Além disso, qualquer atitude mais truculenta contra adolescentes desarmados, muitos deles brancos e de classe média, poderia gerar uma profusão de imagens que, certamente, iria circular bastante. O desgaste que isso poderia causar ao próprio governo, mesmo um tão blindado como o de Alckmin, cobraria um preço, presumo.

Mas, e as outras escolas? As da periferia? Aquelas que, longe dos holofotes e de parte do apoio presencial popular (e nisso me incluo), estão muito mais vulneráveis à violência do estado? O que aconteceria com elas? Obviamente, o que aconteceu.

PMs invadindo a escola José Lins Rego. Publicada originalmente na página "Não fechem minha escola"

PMs invadindo a escola José Lins Rego. Publicada originalmente na página “Não fechem minha escola”

Segundo relatos das páginas que estão acompanhando as ocupações, na EE Ana Rosa, no Butantã (zona Oeste), com a justificativa de verificar a integridade do espaço físico, a polícia entrou junto com a diretoria. Sem violência, felizmente. Entraram e saíram, e os alunos permaneceram.

Foi numa escola do Jardim Ângela, na zona sul, que o meu temor se confirmou. De acordo as mesmas páginas, no domingo (15), a PM invadiu e tentou retirar à força estudantes e apoiadores da ocupação da escola estadual José Lins Rego. Como tem sido lugar comum na gestão de Alckmin, educadores foram brutalmente agredidos. Um professor foi espancado e está com o rosto coberto de hematomas. Em vídeo, uma professora conta aos Jornalistas Livres como foi agredida por PMs.

“Eles abriram minha boca e jogaram spray de pimenta dentro da minha boca.”

O potente é que, mesmo com tudo isso, a escola continua ocupada

Os estudantes resistem e temos notícias de que estão precisando de alimentos de fácil consumo, lanches, água, etc. Entendo que para aqueles que moram em outras regiões da cidade não seja tão fácil se dirigir a essas escolas. Mas, quem puder apoiar, estar lá, levar mantimentos, levar sua presença, acho imprescindível. E que compartilhemos conteúdos, que as visibilizemos. Recomendo as páginas O mal educado e Não fechem minha escola, no Facebook, e o perfil @Ocupaescola, no twitter, que também tem uma hashtag.

Penso que uma unidade de ensino capitalizando tanta visibilidade e amplificando o protesto e os desmandos do governo do estado, como a Fernão pode fazer, é muito importante pra todo o processo de ocupação. Mas, que não deixemos de olhar, de proteger e de apoiar aquelas mais distantes do centro expandido. Que as lideranças e associações de defesa dos direitos humanos também estejam lá. Que a mídia mainstream e alternativa também cubram o que acontece lá. Que nós estejamos lá.

Que a truculência do estado não alcance mais ainda esses adolescentes enquanto a sociedade cochila.

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