Pelo tempo de envelhecer

asilo
Envelhecer é um processo. Bonito. Uma travessia grande de dias e vivências que ficam marcadas na pele. No coração. Nas levezas que vamos acumulando por dentro. Envelhecer nos traz a sabedoria tão importante de que o tempo passa. E que o corpo passa com ele. Que por dentro a gente ganha cores, amores, que a gente se expande na medida em que as rugas aparecem e a gente não tem mais o tempo novo de pele lisa e vida sem marcas.

E que bom. Que bom estar nesse rio que não para de correr pro mar. Esse rio que banha todos nós, todas nós, a todo momento. Mesmo quando não percebemos. Mesmo quando temos medo. Mesmo quando fugimos. O movimento da vida é a sua ordem. Imperativa e generosa, que nos dá o presente da impermanência. A nossa única boia escorregadia de navegar no rio.

Novembro me traz sempre essa reflexão pré-aniversário. De que o tempo. Ele vem. Ele nos cobre como uma onda fresca de mortalidade. E do quanto tentamos esconder o tempo de envelhecer. Esse nosso tempo de voltar para o casulo e ter mais calma para apreciar a vida que corre. Um tempo de mais riso. De mais sabedoria para entender que tudo passa, e que a vida não é assim para ser levada tão à sério. Um tempo de saborear amores sem tanta urgência. Um tempo de ver o pôr-do-sol e se deixar quedar com ele. Um tempo de nos reconhecermos mortais e de nos cobrarmos menos pelas aparências.

Sempre acho triste o quanto tentamos esconder a velhice. Principalmente das mulheres. Escrevi sobre isso aqui, e continuo acreditando que liberdade e beleza não tem idade. Ainda mais. Hoje, às vésperas dos quarenta, sinto-me cada dia mais livre para mostrar que o tempo vem. E que somos todas e todos filhos do tempo. Não escondo as rugas. Não escondo os cabelos brancos que pulam incontidos. Não maqueio a idade, mas abuso daquele batom vermelho que eu gosto e das unhas sempre coloridas. Vou gozando meus anos desimpedida da exigência de uma juventude que não se retém. Gozo meus quarenta, brindando a vida que chega à maturidade de ser colhida, como um fruto pronto para ser saboreado, vivo, suculento, farto. Tiro os sapatos e sento no pé da mangueira. Sinto o fruto escorrer um líquido doce pelos meus lábios. É hora da colheita.

Sorrio para a sociedade que nos esconde com suas belezas de photoshop, sempre ilusórias de juventude. A juventude passa. As mulheres envelhecem. E é tão bonito que não me machuco ao ver que as nossas belezas envelhecidas não cabem no padrão. Porque não tem padrão capaz de encapsular a beleza da vida. Os nossos olhos cheios de vivências, nossos quadris malemolentes de quem já viu e quer mais, de quem já está ali chegando no tutano e ainda tem apetite para saborear um tanto de vida. Não hesito em dizer que me sinto melhor hoje, aos quase 40, do que aos 20. Que os 20 foram fundamentais e muito divertidos, que os 30 foram de muito trabalho e reconstrução, e que os 40 são de mais liberdade.

Nada contra as plásticas, as tinturas, os botox, não. Como cada uma vai envelhecer é uma escolha pessoal. O problema essa fuga constante da morte, esse medo excessivo de ver as marcas do tempo, esse ocultamento da velhice, esse desvio do processo de envelhecer em busca de uma eterna juventude que nos machuca a medida que nos aproximamos dela. Ela, que nunca mais será a mesma. E que bom. Eu pretendo gozar esse envelhecimento olhando de frente pra ele, entendendo as transformações como parte desse rio que me banha por dentro. E eu quero toda essa vida. A de antes, a de hoje e a de depois. Com a beleza livre para poder envelhecer sem máscaras e sem medo de olhar para o tempo que não se retém. Porque a pele envelhece, mas a beleza é livre para crescer com o tempo. E como já disse a poeta, eu só quero saúde para gozar no final.

idosas2

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Uma ideia sobre “Pelo tempo de envelhecer

  1. Silvia, eu fiz cinquenta esse ano, e tenho pensado tanto sobre isso. Achava que estava mais em paz com o tema do que me percebo hoje, na verdade. Estou começando o processo de menopausa. Sinto calores extraordinários que me deixam transpirando mesmo em ambientes onde tá todo mundo confortável e me sinto estranha e deslocada, sempre implorando para ligar o ar condicionado ou abrirem-se as janelas. Sinto oscilações de humor, ressecamentos da pele, unhas, cabelos, mucosas. O metabolismo bem mais lento, as curvas mais fartas e redondas. Sinto mais sono e cansaço, mais inseguranças em relação ao meu corpo e aparência. Estou tendo que lidar com isso com um arcabouço de expectativas e emoções que tem raiz lá atrás, e que me faz sentir perdendo valor e beleza, que me faz olhar pras mulheres mais jovens como se eu estivesse indo embora da festa e odiando cada uma que fica. Mas também tenho ferramentas novas, fruto de vivências e aprendizados, que me trazem reflexões como essas, que você escreveu, e que me ajudam a construir novos sentidos e perceber que minha festa sou eu e ela vai onde eu estiver. Conciliar esses sentimentos é confuso e difícil muitas vezes, a gente vai tentando e escorregando e aprendendo e colhendo pequenos confortos e alegrias aqui e ali.
    Muito obrigada por ser uma das lindas mulheres que me ajudam a pensar, que andam comigo de mãos dadas, que mudam a minha vida todo dia.

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