Um rio que chora a sua morte

rio5Tentei escrever um texto que não saiu. Nada poderia dizer a respeito de tudo que vi, em sangue e lama, nas semanas que seguiram por cima de mim. Afoguei-me. Tentei dar nome as coisas que me assaltavam os olhos. Mas as lágrimas engoliram-me a voz. Tenho os olhos duros de quem não consegue ver. E as mãos em prece de espanto.
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Um crime ambiental de proporções inigualáveis. Tantas mortes. Um rio que não existe mais. Pessoas que não existem mais. Peixes boiando na água que virou lama. Cavalos, cachorros, pescadores sem barco nem sustento. Esperanças em preto carvão. Uma terra que não é mais. Mulheres, crianças, árvores, toda aquela vida que sumiu nos excessos e dejetos da ganância dos homens. As casas que se cobriram pela lama dos tantos dinheiros de alguém que nunca aparece. Uma Vale que não é verde. Uma empresa que devora nossos bens comuns com sede de poder. Uma água que não se bebe mais. Um rio que carrega a sua morte, cortejando a devastação até conseguir chorar no mar.
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Choramos. Não tem acalento nem música para embalar a tristeza. O som que se ouve é o grito do Rio. Deito minha cabeça no leito imaginário de uma cidade que se transformou em lama. Sinto a covardia. Sinto suas entranhas reviradas e o gosto de morte nos lábios. Sinto que não tem justiça que seja capaz de reparar a perda que não foi evitada por quem podia. Negligência é uma palavra dura demais para se ouvir quando ela mata mais do que nossos lábios conseguem dizer. Não digo. Calo. Repito para mim mesma um mantra que não tem letra. Sinto-me pequena diante da estupidez humana.

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Subo no lombo do meu cavalo. É preciso seguir. É preciso ajudar, é preciso poder gritar. É preciso ter voz para poder gritar as injustiças e a dor desse mundo que nos massacra com seus dinheiros sujos de lama e seus homens com tantas mortes acumuladas nos ombros.

Eu ainda quero poder sonhar um mundo melhor.
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