A decisão mais sensata

Tinha tomado a decisão mais sensata e sentia um certo orgulho disso. Não sabia bem o que isso queria dizer nem no que consistia ser sensata, mas tinha decidido. Pensou, refletiu, pesou. Botou na balança, fumou maconha, foi pro mar. Riu, chorou, pensou em outros caminhos, mas decidiu por aquele. Não tinha como voltar atrás.

Tomou coragem e colocou o coração numa bandeja. Mostrou para o moço das mãos grandes o corte que abrira no peito. Nunca havia se rasgado tanto, não tinha muita ideia de como se fazia isso, foi pela intuição. Cada incisão trazia um paradoxo: era dor e alívio ao mesmo tempo. Deixou que ele visse o peito aberto, as lacerações, o coração palpitando em cima da mesa. Doeu abrir aquele buraco, mas sentiu-se leve depois.

O que o moço pensava sobre o peito aberto, o coração, o sangue nas suas mãos e o sorriso no rosto já não interessava tanto. Estava feliz por ele ter apenas visto, conhecido a matéria da qual era feita. A exposição das suas entranhas não era para convencê-lo a ficar, a acolher e nem mesmo gostar, até porque nem era espetáculo tão bonito assim de se ver. Decidiu mostrar-se porque era uma forma de também se olhar, enxergar o que passou muito tempo escondido, camuflado.

Permitir que alguém a visse tão intimamente, fez com que também se tornasse íntima da sua dor, das suas angústias, seus anseios e desejos. Ao se mostrar, revelava para si mesma sentimentos que nunca pôde manusear e, apesar de assustada se deleitava com as novas descobertas sobre o mar que levava dentro do peito.

Apaixonou-se pelo moço da boca macia por muitas razões. A principal delas é que ele lhe mostrava coisas que ela já não vislumbrava mais em si. Coragem, doçura, beleza já não faziam parte do que via no espelho. O homem barbudo – que deixou a barba crescer a pedido dela – despertava umas coisas adormecidas ali dentro e que foram parar tão fundo que já não imaginava ser possível resgatá-las. Queria agradecer o feito de trazê-la à tona para mais perto de quem queria ser.

Foi uma dor aguda anunciar que não podia mais continuar navegando com ele naquelas águas macias. Decidiu sair daquele barco que nunca iria atracar no porto que agora desejava. No início da travessia tinham acordado seguir juntos, sem norte, sem destino, sem futuro. Mas com o tempo foi aparecendo uma vontade de parar num lugar, sentir terra firme, caminhar distâncias, ver o sol nascer do outro lado. E sabia que isso não teria com ele, o moço da tatuagem de âncora.

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A decisão sensata não se referia somente a voltar ao seu barco e seguir seu caminho sozinha, ou na companhia de outros que fossem aparecendo. Sentia estima por si mesma por ter compreendido que não havia escolha sem perdas, sem faltas. Sair do barco do moço bronzeado doeu um tanto que nem imaginava que existia; porém continuar a jornada sem bússola já não lhe fazia tão mais feliz.

Ia voltar ao mar sem o sorriso do moço, com o peito remendado e um coração exposto. Coisas que a aterrorizavam há algum tempo e agora lhe traziam serenidade, uma certeza de que não podia ter feito diferente. E gostava de pensar que essa nova mulher em que se transformava era mais inteira e gostava de se ver assim: cheia de coragem, doçura e beleza.

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