Bowie, feminismo e um pouquinho de historicidade

Por Maíra Nunes*, Biscate Convidada

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Logo que li sobre a morte de David Bowie comecei a chorar – estou numa fase difícil – e enquanto chorava lia os comentários de amigas e amigos que lamentavam comigo. Foi lindo ver que tanta gente também estava na mesma vibe. Gente comentando sobre suas músicas, suas atitudes, suas vestimentas, personas e performances. Bowie foi rock, foi pop, foi indie, foi mainstream, foi underground. Foi masculino, feminino, andrógino, sex symbol, um mix de tudo o que rolava na época. Foi vanguarda, tendência, criou e transformou um monte de coisas. E todo mundo celebrava hoje a sua vida.

Mas aí apareceu a primeira menção ao fato de Bowie ser estuprador, pedófilo, racista, o combo todo (um pouco de esclarecimento aqui). Não li nada sobre isso (ah, a maravilhosa bolha), mas outras feministas comentaram. Doeu. E comecei a remoer. Não quero fazer uma defesa de algo que desconheço, mas quero aproveitar pra falar sobre uma coisa que me incomoda há muito tempo nessa vida nas redes sociais. A falta de historicidade das reflexões e críticas que fazemos.

Precisamos nos lembrar constantemente de que o mundo não começou com o FB, nem com o Orkut e muito menos com a internet. A vida no século XX era outra. Nós erramos muito. Todo mundo errou muito. Bowie provavelmente errou muito, da mesma forma que um monte de outras celebridades.

Mas parece que nos tornamos entidades desconectadas do real, vidas perfeitas que devem seguir um script prévio imaculado. É quase um fundamentalismo religioso, calcado na superioridade moral de quem nunca vacila, nunca tem dúvidas e incertezas. Nesta guerra, o combate está dado previamente. De um lado as feministas, mulheres com M maiúsculo montadas na sororidade vaginal que lhes garante, de antemão, o lugar de salvação. De outro, o macho, esse sujeito ignóbil, criminoso, cujo falo estuprador representa a encarnação do mal na Terra.

Não há escapatória, não há possibilidade de construir outras narrativas que escapem da relação vítima-violentador. Nessa linearidade vão surgindo mártires – as Solanas primordiais que vieram ao mundo para nos salvar da síndrome de Estocolmo que nos impede de viver em mundo matriarcal idílico e santo.

Às mulheres tudo, ao piroco a morte.

Eu, que só tenho dúvidas e nenhuma certeza, acho esse discurso desonesto e perigoso. Acho que precisamos ir além. Principalmente, precisamos superar a matriz sagrada que transforma a existência numa grande Cruzada.

O feminismo não é uma religião. A vida não é um sacramento a ser seguido de maneira dogmática. Bowie trouxe o glitter, o salto plataforma, a make e a desconstrução pra vida de muita gente. Que a gente possa construir um feminismo mais camaleão e menos bíblico, por favor.

923276_592588400760146_965108052_n*Máira Nunes é 8 ou 80. Feminista, mãe, professora e aspirante a artesã. Aguarda ansiosamente o apocalipse queer.

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18 ideias sobre “Bowie, feminismo e um pouquinho de historicidade

  1. Texto simplesmente fantástico!!! Parabéns, Maíra Nunes! Como historiador, fã de Bowie e aliado das lutas feministas, só tenho a comemorar sua reflexão. Aprendo muito com feministas como você, que defendem um feminismo menos bíblico e mais camaleônico. Vou ler e reler várias vezes!

  2. Excelente texto. Acredito que as ativistas estão atacando o Bowie pelo fato dele ter feito sexo com menores de idade nas décadas de 60/70 (ao menos foi o que uma delas alegou no Twitter). Só que ele viveu numa época e num meio em que isso era comum. Por sinal, as rockstars mulheres também faziam sexo com rapazes menores de idade, rockstars homens homossexuais também faziam sexo com rapazes menores de idade e rockstars mulheres homossexuais também faziam sexo com moças menores de idade. Os códigos morais mudaram, hoje isso é inaceitável, mas não podemos ignorar a historicidade de tudo. Como você bem definiu, o mundo não começou com o Facebook. Por outro lado, o legado que o Bowie deixou na desconstrução de gêneros e da sexualidade é grande o bastante para que ele seja simplesmente relegado a um “macho branco opressor”.

    Abraços!

  3. Parabéns pelo texto! Ontem eu fui silenciada por duas meninas que não aceitavam qualquer defesa ao Bowie e, olha, eu só estava tentando entender as circunstâncias das acusações. É triste ser silenciada por outras mulheres que não aceitam serem contestadas. Eu fico triste porque isso realmente beira o fanatismo quando deseja que a gente baixe a cabeça e aceite quem grite e acuse mais alto.

  4. Me apaixonei por você, lendo cada linha. Falo coisas nesse sentido todo santo dia. Mas, se perderam o bom senso. E parece que quando você demonstra um pouco as pessoas já querem te acusar de estar do outro lado.

  5. Obrigada! Obrigada por dizer oque já estava preso na minha garganta! Obrigados por celebrar todo o amor glamuroso do Bowie. Me fez tão bem ler seu texto hoje depois de coisas que eu li ontem. Coisas que tive que desistir e recuar, porque as pessoas apenas escolheram não escutar. Me deixou muito muito mal a falta de bom senso e história desse povo. Mas você me deu esse consolo hoje, então novamente, obrigada!

  6. Escreveu o texto que eu queria ler! Hoje em dia as pessoas pensam que uma atitude ruim anula todo o resto de atitudes boas de um indivíduo. E não é bem assim, sabemos que Bowie trouxe grandes feitos com sua arte, e mesmo que seja verdade a relação dele com mulheres mais novas isso não tira o seu mérito pelas contribuições que fez. Somos seres humanos, e o velho clichê já diz “ninguém é perfeito” e nem temos que ser. Essa discussão sobre o Bowie me lembrou os argumentos contra a frase de Simone de Beauvoir no Enem, que por ela ser “pedófila”, “nazista” e etc não deveria ser ensinada. Isso tira o mérito de todo o resto de acertos da vida dela? Errar faz com que a gente perda todos os direitos por nossos acertos? Isso vale para o contrário também, exaltar uma pessoa pelas coisas boas e passar por cima das ruins é certo? O ser humano está acostumado a dualizar as coisas, não somos bem e mal, não somos mocinhos e vilões. Existem vários lados e todos têm que ser vistos, pensados, expostos e discutidos sem nenhuma vergonha ou omissão.

  7. Eu já acho que o feminismo radical está negando a sexualidade dessas meninas e que isso não é bom. As groupies dessa epoca , famosas, celebridades como a mãe da Liv Tyler por exemplo , queriam, gostavam e muitas vezes armavam pra poder dormir com seu ídolo. Eu achava bacana. Negar a sexualidade adolescente sempre foi uma bomba relógio.Precisa cuidar? precisa! mas sem exagero…e se for preciso entregar meu crachá de feminista pra gostar do Bowie, tá entregue….

  8. Que texto ótimo! Breve e direto! Também acredito nesse feminismo camaleônico, entretanto, algumas irmãs acham isso comodismo, como me falaram certa vez. Seja no âmbito feminista ou outro qualquer, jamais irei aplaudir aqueles textões ou bafões por causa de um fato isolado sem considerar o contexto como um todo. Não vejo sentido em causar por causar. Bacana mesmo é quando tem uma reflexão ou uma crítica embasa por trás.
    Adorei te ler!

  9. Um dos textos feministas mais lúcidos que já li…e leio muito sobre o assunto. Sou editor, escritor, e pesquisador na área de história. Cada época tem sua moral e TODOS nós cometemos erros…e não, não precisamos de mais fundamentalistas no mundo, detentores da verdade última e do caminho perfeito, como os terroristas do ESTADO ISLÂMICO por exemplo. Precisamos de diálogo, amor, compaixão, tolerância…e, principalmente, cooperação entre gêneros.

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