O Herói Homossexual

Por Vinícius Abdala, Biscate Convidado

Existe uma ideia equivocada quanto às pessoas pertencentes a alguns grupos minoritários no que se adentra à resiliência (principalmente) em sua forma mais complexa.

Não há estudos que comprovem nenhuma característica ligada ao DNA de pessoas homossexuais que define, por exemplo, alguns traços do que, mais tardar, formarão sua personalidade – modelada pelos meios sociais, claro – como paciência, compreensão, resiliência, frieza, racionalidade, didática e empatia. As leis da física quântica se aplicam aqui em sua forma mais simples e, neste caso, desonesta: pra toda ação, existe uma reação. E, desde cedo, somos colocados a teste.

Uma vez que me assumo como homossexual publicamente, pago pelo preço por tal. Pago o preço de um valor incontável e subjetivo [a cada um]. A sensação de que devo é constante: tenho que pagar pelas consequências (negativas) da escolha pela vivência da minha homossexualidade. Devo e sempre deverei explicações de quem sou, do por quê sou (e do por quê não sou). Pago, também, nas humilhações diárias, nos silenciamentos, nas violências, nos direitos negados, nos acessos restritos, na humanidade irreconhecida.

Quando se faz parte de grupos discriminados (e nesse caso, falando somente dos gays), a justificativa do ser e de ser não se corrobora à lógica cartesiana de pensamento claro e de distinção – uma evidência ingênua da epistemologia tradicional. Nesta análise, eu não posso somente ser. Eu vou ser por que (insira aqui qualquer merda). Razão. Qual razão?

Desde que minha homossexualidade se tornou pública a algumas pessoas próximas da família, o discurso vem sempre em um tom que atravessa, entre linhas, a ideia de causa-consequência: “mas você precisa entender o lado dele também”; “você precisa dar tempo a ele”; “você tem que ser paciente, uma hora tudo vai se ajeitar”; “você vai aguentar isso tudo, você é forte”. E isso não se resume as instituições familiares. E quem entende o meu lado?

Eu sou culpado por ser como sou e devo, agora, assumir as responsabilidades por ser quem sou. Neste nível, mais uma vez, as atenções se voltam ao agressor e, como se não bastasse a empatia do mundo para aquele que “lida” com a homossexualidade de um ente (ou qualquer outro tipo de relação), cabe a nós, também, exercitar nossa empatia para com o próximo que nos agride. Não sabemos, quase que diariamente, o que é sofrer violências? Empatia está no nosso sangue, em algum par de cromossomos. Risos irônicos.

A esperança depositada em nós quanto à resiliência também é angustiante. Diariamente, eu preciso ser forte sem que haja sequelas desse enfrentamento e nem uso de outros dispositivos que me mantenham de pé. Faz parte do processo de desconstrução do outro e, com a dignidade já manchada, é dever nosso se manter intacto. Mas e quanto a mim, mesmo? Se eu fraquejar, perco a razão.

A didática no que diz respeito à educação e desconstrução ao que toca nossas vidas também é esperada com ansiedade: temos que explicar, quantas vezes for necessário, a quem quer que seja, que – veja bem – eu também sou gente. Também amo, odeio, fico triste, feliz, tenho dias bons e ruins, como e durmo (e que nada disso se manifesta em função da minha sexualidade), ainda que para os mais tradicionais eu seja um cu a ser preenchido pela maior quantidade de pinto que ali couber.

A minha humanidade, neste ponto já pouco lembrada, é colocada de lado de vez quando, este sujeito estratégico, equipado com características em níveis destoantes do resto mundo, tem que tomar o lugar de quem sou de verdade. Realidade constante.

Acontece que eu já não aguento mais.

Dos sorrisos amarelos que enfeitam o meu rosto e divide seu público entre aqueles que nada têm a ver com meu sofrimento psíquico e psicológico – dado as circunstâncias atuais -, e aqueles que, mesmo ao meu lado, não fazem ideia da dimensão do que a minha realidade significa tão e somente pra mim, me entristeço ao saber que internalizei, depois de anos vividos na prática, a responsabilidade individual pela minha sanidade. “Para de drama, Abdala!”, é o que dizem.

Não demonstro fraqueza, não porque não acredito que não possa ser fraco, mas porque fraqueza se materializou por mais de uma vez durante minha jornada e ninguém se importou. Não quero demonstrar tristeza, não porque não me permito (eu diria que muito pelo contrário, inclusive), mas porque tristeza pontual se trata com ações pontuais, o que não é o meu caso. Não quero me fragilizar mais porque fragilizado eu já estou. Não atravessem a barreira da auto-suficiência e auto-proteção que construí ao longo dos anos; por lá, quero estar só.

Entre perder um pai (simbolicamente), uma casa, uma ceia de Natal e até um sobrenome em nome daquilo que deveria ser somente mais uma característica que me torna um sujeito como qualquer outro, a maior dor fica por conta daquilo que já não consigo mais transformar: a mim mesmo. E com as seqüelas de uma infância conturbada, de um mundo às avessas e uma mente inquieta, internalizei também algo pior: a responsabilidade de fazer o outro ver em mim aquilo que só eu posso enxergar. Paradoxal, portanto, contraditório, eu sei. Mas a este nível, a lógica já nem se faz mais tão necessária.

Eu estou doente. Eu já não consigo lidar, de maneira harmoniosa, com o que a vida tem colocado de obstáculos a serem superados que se corroboram a homofobia destroçada diariamente. Tenho perdido, com o tempo, a capacidade básica de convivência; tornando-me cada vez menos tolerante aos que reproduzem discursos vazios e preconceituosos contra mim ou os iguais a mim, ao passo que também afasto de mim, de certa forma inconscientemente, aqueles que demonstram algum nível maior de simpatia e afeto afinal, enquanto puro processo de construção para um fim, como qualquer outra obra, eu posso ser abruptamente interrompido.

Ergo-me dolorosamente, dia após dia, na certeza de que, para além da materialidade melancólica que minha existência consigo traz, sigo sem o direito à subjetividade, tão importante no meu processo identitário; sobretudo humano.

Termino fazendo das palavras da Daniela Andrade as minhas: “Viver, neste sentido, é preparar-se para estarmos sós, é despedir-se, a cada etapa, de quem muito admirávamos e os quais não poderão permanecer, ou de quem muito pensávamos que admirávamos e se demonstraram independentes da personagem que lhes criamos. […] Vivo no automático, até que por automático saibamos que também é preciso dizer adeus às pessoas com quem cruzamos, com quem convivemos, aos nossos erros e aos erros dos demais. Dizer adeus, inclusive, a nós mesmos, nos permitindo nascer e renascer em uma nova etapa, em uma nova vida, ou quem sabe, para o grande finale. O dia em que, finalmente, saímos de cena”.

Sintomático que isso recaia, em grande parte das vezes, sobre nós.

11944848_10207979992277025_1711212466_nVinícius Abdala é estudante de Psicologia com uma extensão em estudos de gênero e sexualidade. Militante LGBT e profissional do poder público, anseia pelo dia em que o mundo vai descobrir que na verdade, ele é a Beyoncé

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