Por duas: sobre mulheres e nós

dança

Dia dessas ela me ligou. E como sempre faz quando nos falamos ao telefone, me disse que me ama muito e que eu sou ela amanhã, multiplicada por duas ou três. Ser como ela, em dobro ainda por cima, significa mais que tudo “sacanagem”.

Ela tem esse dom delicioso de colocar duplo sentido nas coisas. E demonstrar desejo. Que eu imito, como não?! Ela abaixa até o chão na boquinha da garrafa. Já eu, nunca. Mas, ela. Ah, ela consegue. Ela canta em qualquer idioma, porque é boa de prosódia, mesmo que tenha que inventar palavras pra caber na métrica. E quem se importa com a letra quando se sabe o ritmo?! E compõe proibidões, que, olha. Ela compõe proibidões, até em cima de proibidões já feitos.

E cantou no rádio, quase foi famosa, quando preferiu casar. Foi até mesmo pressionada. Que saída tinha ela na época?

E vejo que se posso ser ela multiplicada por duas é porque posso ir mais além, quando ela não pôde. Porque não tive que escolher entre cantar e casar. Nem canto. Mas, se me fosse possível, não haveria escolha. Haveria soma. E, se houvesse, casar não seria a alternativa correta default.

E me conta de dores da vida em comum. E sei que somente sou eu ela em dobro porque calhei de nascer uns anos depois. Quando permanecer não é sempre uma obrigação. Aguentar não é imperioso. Que sair não é desamparo. Não sempre. Não o tempo todo.

E come pimenta malagueta pura enquanto passa roupa e toma cerveja. E dança, riscando o salão. Vai de bolero, vai de forró, a hora que for.

Ah, quem me dera ser nisso como ela. Ainda mais em dobro!

Mas, se ela diz, vou seguindo uma parte dos seus passos. Pensando que essa alegria e gulodice não são ingênuas. Têm amarguras também. E sublimação. E vontades e também frustração. E o que nos parece apenas uma história curiosa das reminiscências da tia divertida, tem tantos sonhos interrompidos pelo meio.

E desejos de voltar atrás, num tempo que a alegria era por si. Ao mesmo tempo, de seguir em frente, quando cantar, casar e dançar até o chão são coisas que mulher pode fazer, afinal.

E ela enche os encontros de humor e riso. E invejas e ciúmes quando diz que eu, euzinha aqui, sou como ela em dobro. E um pouco de aflição também. E no churrasco de família ensina a irmã mais nova a “chupar um pau”.  Diz que é pra agradar o homem. Mas, ela se agrada também. Ela tem isso. O riso que contradiz o discurso. Ela gosta de ensinar. E gosta do resto todo. Porque ela gosta disso tudo. Me disse. “Eu gosto!”

E vou me lembrando que eu sou ela. Em progressão geométrica. E gosto também.

Mas, ela também anda triste. E, às vezes, o riso vacila. Também me disse ao telefone “que levaram a outra banda do colchete”. A banda que a completava. Que se encaixava. Com quem ela formava um todo de amor e cumplicidade e festa. E choro.

De longe, fico pensando se ela se recupera mais dessa. E são tantas. Têm sido tantas! Aquele momento na existência quando passamos a contabilizar perdas e esperar a próxima. De amores. De parentes. De irmãs. O encaixe do colchete, o amor da sua vida, a companheira, a irmã.

Ela repete que me ama ao telefone. Que somos iguais. E, fico ali, pensando se teremos a mesma intensidade no sentir. Assim, em dobro.

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