Que Horas ela Volta? pelo olhar da classe média nas redes sociais

Segunda-feira, o programa Tela Quente que tradicionalmente exibe algum blockbuster do cinema norteamericano com muito tempo de atraso ou no máximo uma comédia brasileira, passou o recém lançado e premiado “Que Horas Ela Volta?”, filme brasileiro de Anna Muylaert, com Regina Casé e Camila Márdila nos papeis principais. Não vou me demorar explicando do que se trata, porque a essa altura vocês já devem saber. Por via das dúvidas, pros desavisados, vejam mais aqui .

Quando o filme chegou aos cinemas provocou uma enxurrada de textões, textinhos e bastante dissenso, aqui no blog também teve texto. ( aqui e aqui)  A luta de classes estava passando também nas nossa redes sociais. Cada um fazia sua leitura. É inegável que o filme toca num pilar não muito analisado e bem pouco admitido da nossa sociedade: a exploração do trabalho doméstico, quase sempre exercido por mulheres, em geral de baixa escolaridade, quase todas negras, muitas delas nordestina. Uma herança escravagista.

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Na exibição da Globo, na segunda-feira, dia 11,  o ibope foi excelente e o filme bombou nas redes sociais, como se fosse estreia, e mexeu com estruturas, de novo. Para mim, foi um experimento e tanto assistir o filme (no meu caso pela quarta vez), dessa vez com os comentários do twitter. Por óbvio que minha TL é minha bolha particular.  Ali estava gente de classe média como eu: ou éramos Fabinhos ou Bárbaras ou José Carlos ou todos eles ou no mínimo os convidados da festa de aniversário da Bárbara, que nem se dignaram a olhar para Val enquanto ela lhes servia.

Sim, estou colocando eu e vocês no mesmo patamar daquela família por vezes odienta, por vezes desprezível, mas tão como nós, porque a gente explora nossa empregadas, pede pra pegar uma água ao invés de levantar e ir lá buscar,  elas deixam de cuidar de seus filhos pra cuidar dos nossos, e no final o máximo que a gente faz é olhar pra elas e a vida delas com uma certa condescendência, porque a gente diz que é da família mas elas nunca partilharão da herança.

Enfim, são pequenas coisas que a gente já fez sem querer ou perceber ou já viu fazerem e se acostumou, simplesmente porque é assim. E em parte é isso que o filme é: um grande tapa na cara. Porque a gente precisa se reconhecer nas nossa falhas, nos nossos privilégios para poder melhorar. Ficar varrendo isso para debaixo do tapete e se achando muito legal só porque é de esquerda não resolve nada, não muda nada. A mudança começa dentro da sua casa mesmo. Tratando as pessoas com dignidade, respeito e profissionalismo.

E aí tem a Jéssica. Nossa, como amo a Jéssica! não é a toa que a frase que mais adoro no filme é da Jéssica: “Eu não me acho melhor do que ninguém. Eu só não me acho pior.” A Jéssica é essa nova geração que está aí no Movimento Passe Livre, na Ocupação das Escolas ou que passou na UNB – Universidade de Brasília-  sendo aluna de colégio público. E a classe média não perdoa isso. Olha com preconceito, desdém e .. raiva.

Óbvio que também teve muita gente que refletiu com o filme, analisou as relações de mães e filhos estabelecidas nele, mas a enxurrada de reclamações , principalmente sobre a Jéssica, não pude deixar de notar. Quantos tuítes eu vi reclamando da folga da Jéssica porque abriu a geladeira, porque tomou sorvete, afinal era visita?! Ué, mas não disseram pra ela se sentir em casa? Ao menos aqui em casa quando vem visita eu deixo à vontade. Mas é que Jéssica não era visita, né? Era a filha da empregada, e aí não merece ser tratada como “visita de verdade”. Não merece o quarto de visitas, merece um colchão novo, olha que bondade, no chão. Já tá até demais, né?

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E assim é. Sempre que se debate sobre o filme, ele toma essa proporção imensa, desse fosso social gigantesco que temos, dessa exploração e divisão de classes no Brasil que nunca é falada com clareza e, assim como o racismo, varrida para debaixo do tapete. O brasileiro é avesso a determinados conflitos, aos que mexem com as estruturas que lhe favorecem.  Mas é preciso, sim, falar disso, cada vez mais e esse é o maior mérito do filme. 

Uma sociedade mais igualitária passa pelo reconhecimento de privilégios e pelo abandono desses para uma diminuição do fosso social, sem isso não há como ter um país melhor em futuro algum. 

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