Comunitariamente Cuidar

Sim, a gente tá bem ali no zóio do furacão da História. Dessa com H maiúsculo, que falaremos em breve nas escolas, que em breve ficará no passado, que em breve falaremos “naquele tempo, eu vivi naquele tempo!”. E daí? Me parece e posso estar bem enganada disso, que há por um lado uma necessidade de se falar sobre tudo, haja vista o imediatismo e a relação em tempo real que nos apresenta as redes sociais, por outro muitas vezes um discurso que reivindica a todo momento que tomemos posição. E aí muitas vezes agimos por impulso, por ausência de reflexão. Isso não é em si necessariamente ruim, mas permite que muitas vezes deixemos passar coisas e reproduzimos situações que precisam ser criticadas.

Recentemente uma foto circulou nas redes sociais expondo um casal, dois cachorros, uma babá que empurrava dois bebês  num carrinho indo para uma manifestação. Não entrarei nas críticas à marcha X, Y, Z e tals. Não é sobre isso. Também quero deixar que critico toda forma de exposição não consentida, havia ali uma mulher negra trabalhadora que foi chamada a falar publicamente, que se sentiu violada e exposta. Haviam ali crianças, cuja proteção é dever de toda sociedade. Se queremos criticar formas de vida, escolhas, privilégios, é perigoso que nos valhamos de recursos que expõem mulheres negras trabalhadoras e crianças. Se mulheres negras que realizam trabalho doméstico são exploradas no Brasil, muito em razão de uma herança escravocrata, cabe a nós lutar para que essas mulheres tenham trabalho digno, defender a regulamentação, formalização, garantia de direitos, e não reproduzirmos discursos paternalistas. Como se mulheres fossem incapaz de se organizar politicamente, como se domésticas fossem desprovidas de conteúdo político, como se fossem incapazes de lutar por vida digna. A PEC das Domésticas é resultado da militância de mulheres negras trabalhadoras domésticas organizadas, elas não precisam de nosso discurso paroquial, elas precisam que respeitemos sua luta, sua autonomia, e sua força. Isso não quer dizer que não reconheço que há desigualdade, abusos, violações relativas ao trabalho doméstico, mas apenas que não é pela via pater/maternalista que travaremos um enfrentamento à tudo isso.

Bom, dito isso, tomo o rumo do que quero escrever. Sim, to atrasadinha no debate, sou dessas. Voltando a foto, e apesar de lamentar a exposição, quer eu goste quer não, isso promoveu um debate, li e ouvi muitas pessoas criticando o casal sob o argumento de que “Se não quer cuidar nem no domingo porquê tiveram filhos?”. E acho esse argumento bem temerário, tão temerário quanto culpabilizar a mulher que aborta porque não se preveniu antes de engravidar.

A maternidade, ainda que seja uma escolha nem sempre é simples de se sustentar. Existe um ideal de maternidade, e existe a maternidade que se apresenta na sua vida, muitas vezes diametralmente oposta daquilo que se idealizou. A maternidade ainda que uma escolha nem sempre é feita com liberdade e autonomia, existe um sem fim de mecanismos discursivos de controle sobre o corpo da mulher que operam o desejo, são um sem fim de familiares perguntando quando vem o bebê, é um circulo de amizades de baby boom, é o companheiro, é a ginecologista, amigos e amigas, vizinhos. A maternidade compulsória é algo presente e sistemático na nossa sociedade. Ai me parece perverso colocar a questão nesses termos “se não quer cuidar porque teve”. Conheço muitas mulheres que ingressaram em profunda depressão tão logo foram mães, e cuidar muitas vezes exige energia da qual não dispomos, ainda que essa maternidade tenha sido desejada, e habite amor nela. Eu mesma tenho uma dificuldade imensa em cuidar, acolho essa dificuldade, ela diz muito de mim, reconheço essa minha limitação. É nesse exercício que consigo elaborar o cuidado.

Cuidar requer abertura, requer estar à merce, requer diálogo, requer um olhar para o outro que diz muito de nós, e muitas vezes não queremos saber sobre esse dizer. Muitas vezes cuidar é um processo dolorido. Cuidar é comunicação, não à toa encaminhamos ofícios, cartas, encomendas, etc., aos cuidados de Fulano. Cuidar também é pensamento “Ela cuidou do que iria dizer”. Cuidar é de uma grande complexidade, e é para além do trocar fralda, dar banho, ver lição de casa e realizar a manutenção da vida. Reduzir o debate ao “se não quer cuidar porque teve” é uma grande falha.

Muitos pais e mães ricos e pais e mães pobres não dão conta de cuidar de seus filhos, o que nem sempre é indiferença e rejeição. Aos ricos há a possibilidade de ter uma babá, a criança é amparada de alguma forma, ainda que boa parte das babás deixem seus filhos muitas vezes desamparados. Aos pobres o caminho é mais perverso, basta pesquisar acerca dos abrigos e a quantidade de crianças inadotáveis abandonadas. E isso não quer dizer que todo mundo que tem babá não cuida, rejeita e é indiferente, muito menos que o casal da foto abandonou os filhos.

Porque eu falei tudo isso, porque o fenômeno de não suportar a insustentável leveza do cuidado não é algo do casal x ou y, coxinha ou esquerda, marchante ou não marchante, do Pinheiros ou Pinheirinho, é algo presente em todas as classes, ideologias, religiões. Abandonamos crianças a todo momento, escolas particulares de renome estão abarrotadas delas, abrigos também, nas casas, em todos os lugares.  Acredito que a possibilidade de mudança e a responsabilidade pelas crianças precisa caminhar para relações comunitárias de cuidado, esvaziar o conteúdo dos papeis de pai e mãe, esvaziar a idealização e a cristalização desses papéis. Não olhar os filhos dos outros nem aos seus como propriedade, para que a responsabilidade não se limite e se reduza aos pais, e seja sobretudo de todos nós. Para que todas as crianças sejam acolhidas e amadas, independente de quem as gerou, de quem as pariu. Eu gosto muito de uma estrofe de uma poesia que se chama Amor do Maiacoviski:

Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.”

xênia

 

*Xênia Mello é arretada e não tem papas na língua. Apaixonada, combate com o coração exposto. Advogada, corajosa, meiga e persistente. Não perde a oportunidade de sensualizar no feminismo, biscate burocrática, rata no Chinês, capricórnio quando teimam. Insustentavelmente leve e de mansinho.

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