Elevador

15650991_sZsI2Reparou no moço sentado esperando o elevador. Olhou para baixo e viu suas havaianas indignas de propaganda de tv e cada um dos seis grampos usados para segurar o cabelo beliscavam o couro cabeludo. Ele parecia não morar ali, ou teria reparado nele há muito mais tempo. Há muito mais tempo. Além do mais ele dizia ao telefone que estava no bairro. Se morasse ali diria: “Tô em casa”. Né? E seis meses de moradia já dá pra saber os vizinhos. Ou não?

Chegou o elevador. Malditas construtoras que constroem prédios de 22 andares. Além de enfearem a cidade, ainda te obrigam àquele silêncio constrangedor típico dos elevadores. E pra quê morar no último andar? Ela entrou com suas havaianas e o short rasgado na barra. Porra, por quê foi usar justo a bermuda mais velha que tem? Caralho. Entrou de cabeça baixo, ficou olhando pro teto – um dia essas lâmpadas caem – e viu o moço de soslaio. Bonito, barba, bronzeado, cabelo grande. Bonito.

Apertou o 22. Ele entrou e seu dedo tocou o 21. Puta que pariu! Custava visitar alguém no 3? Primeiro. Segundo. – Silêncio

Terceiro. Boa tarde, ele disse. Ela respondeu de maneira inaudível, que nem conseguiu entender as próprias palavras. Quarto.

Quinto. “Você é gringa?”. Com um riso débil respondeu “não”. Ele riu também. Abaixou a cabeça. Não conseguia olhar para o rosto dele. Que resposta imbecil, ele só queria puxar assunto, claro que sabe que você não é gringa. Você respondeu o boa tarde e não tem cara de gringa. Sexto. Brinco na orelha. Mãos grandes. Quando chegasse em casa ia se desfazer daquele short rasgado. Sétimo.

Oitavo. Nono. Décimo. “Já deve ter ouvido isso muito né?”. Com um terço de sorriso e muito rubor, mentiu que sim. Odiava interações espontâneas assim, nunca sabia o que dizer. Décimo primeiro.

Décimo Segundo. Décimo Terceiro. Décimo Quarto. Por que não se encontraram em algum aplicativo desses de paquera? Perdeu o tato para paqueras ao vivo. Continuava vermelha. Décimo Quinto. Construtoras dos infernos. Destroem as cidades, arrasam a política e ainda te botam numa situação constrangedora dessas. Décimo Sexto. Décimo Sétimo.

Décimo Sétimo. Décimo Oitavo. E como foi sair sem celular? Não tem nem como fingir que está fazendo alguma coisa. Décimo Nono.

Vigésimo. “E seu nome é brasileiro?”, insistiu o moço. Soltou uma gargalhada nervosa. Ficou ainda mais vermelha, sentia o rosto e o colo em chamas. Balbuciou, gaguejou e no fim só respondeu um idiota de um “não”.

Vigésimo Primeiro. A porta se abriu. Ele desceu, deu um tchau e um até mais. Ainda espreitou pra ver o apartamento onde ele entraria. A porta quase bate no seu nariz. Gargalhou com o inusitado da paquera no elevador do prédio.

Vigésimo Segundo. Saiu com a certeza de que sua cidade não precisa de mais prédios, precisa é de mais sexo.

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Uma ideia sobre “Elevador

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