Um Beijo do Asfalto

Por Patrícia Valim*, Biscate Convidada

Texto publicado originalmente na Revista Artigo 5o

8 de março de 2016: durante os idos de 2006-2008, um grupo de delegados da polícia federal, ligados ao Protógenes, me convidou para escrever sobre feminismos na revista cultural deles: Artigo 5º. Um dos textos publicados me rendeu alguma apurrinhação dos machistas de plantão e um telefonema da prostituta Gabriela Leite. Conversamos durante um tempo e no final ela me agradeceu pela resenha que publiquei do livro dela e por não ter perguntado o que ela faria se suas filhas decidissem ser prostitutas. Dois anos depois ela faleceu. Aos que tiverem tempo e paciência:

Um Beijo do Asfalto

Jean-Paul Sartre escreveu, em A Náusea, que para o acontecimento mais banal virar uma aventura, é preciso começar a contá-lo: é o que faz Gabriela Leite em seu livro de memórias Filha, Mãe, Avó e Puta: a história de uma mulher que decidiu ser prostituta, lançado recentemente pela editora Objetiva. Não que sua trajetória seja banal. Muito pelo contrário, pois Gabriela Leite, 57 anos, fundadora da ONG Davida, de onde saiu a simpática e badalada grife Daspu, dedica-se há mais de duas décadas à causa da profissão que ela decidiu exercer desde os idos finais da década de 60, quando trabalhava em uma grande empresa e à noite cursava Ciências Sociais na USP. Escolheu ser prostituta não porque precisasse. Filha de uma dona de casa interiorana e conservadora, e de um crupiê afetuoso de família aristocrática, após a separação de seus pais, Gabriela mudou-se com sua mãe e irmãs para a periferia de São Paulo e foi criada para casar-se virgem, ter filhos, uma cozinha planejada e ser feliz para sempre. Destino reservado para a maioria das boas moças de sua geração, que Gabriela decidiu subverter porque queria fazer a sua revolução pessoal, lutando contra o conservadorismo da família e da sociedade paulista através da grande obsessão da contracultura: o sexo.

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Em um momento vertiginoso e caótico dos anos difíceis da ditadura militar no Brasil, após as aulas na universidade, Gabriela freqüentava o bar Redondo, na Praça Roosevelt, porque se sentia deslocada tanto entre os que pegavam em armas para lutar contra a ditadura, militantes da esquerda, como entre os que radicalizavam na ponta inversa desse processo: os CCC (Comando de Caça aos Comunistas) e os militantes da TFP (Tradição, Família e Propriedade), em sua maioria estudantes do Mackenzie na Maria Antônia. Foi em busca de sua identidade no reduto dos que teorizavam a revolução sexual, que Gabriela conheceu um diretor teatral engajado com quem ela deixou de sentir o fardo de “ser virgem no meio dos modernos”. Gabriela perdeu o fardo, a virgindade e ganhou uma enorme frustração ao constatar o limite da modernidade possível de seu primeiro parceiro sexual, que além de desdenhar de sua virgindade, contou o episódio para todos os convivas do Redondo.

A frustração dessa experiência, no entanto, foi decisiva para que Gabriela procurasse outros caminhos e outras possibilidades de fazer a sua revolução pessoal. Mudou de ares. Passou a freqüentar o reduto do samba em São Paulo. Apaixonou-se por um sambista – “o primeiro homem que a tratou como uma verdadeira mulher” -, engravidou quando a pílula já significava liberdade feminina e decidiu que seria mãe solteira. Depois de quase um ano do nascimento de sua primeira filha, trabalhando no ABC paulista e morando com a mãe cada vez mais repressora, Gabriela largou tudo para dedicar-se à prostituição na boca do lixo de São Paulo. A partir desse momento, Gabriela Leite nos brinda como uma narrativa generosa, inteligente e extremamente esclarecedora sobre o cotidiano da vida de uma prostituta do baixo meretrício em algumas capitais do Brasil.

Diferentemente do que se costuma imaginar, o cotidiano dessas mulheres retratado no livro é muito mais complexo do que os dois pólos opostos com os quais até hoje se enxergam as prostitutas: a romantização, como no filme Uma linda mulher, no qual a prostituta espera pelo príncipe encantado que irá redimi-la de seu passado por suposto obscuro, e o discurso da vitimização, cuja relação de dominação lhe é subjacente.

Como diria Caetano Veloso: nem uma coisa, nem outra, ou muito pelo contrário, pois Gabriela Leite quebra tabus ao nos mostrar sem pudor que a profissão pode ser sim alegre, divertida e prazerosa. Trata-se, no entanto, de uma profissão que embora não seja regulamentada, tem um código de ética cujo ponto de partida é o “não se apaixonarás por seu cliente”. Gabriela Leite hoje em dia é uma prostituta aposentada, casada com o jornalista Flávio Lenz, irmão da poeta precocemente falecida Ana Cristina César.

A relação do casal começou em uma ONG onde ele trabalhava desenvolvendo parcerias ligadas aos direitos das prostitutas; causa que Gabriela milita desde os anos oitenta. Flávio nunca foi um cliente. Tampouco o pai de sua segunda filha, que é fruto de uma outra paixão, quando Gabriela ainda estava em São Paulo. Flávio foi o amigo que se transformou no companheiro de vida e de militância porque nunca demonstrou preconceito com as escolhas de Gabriela.

No entanto, o casal sofreu com a reação de algumas pessoas próximas, que militavam com eles na ONG. Como diz Pedro Juan Gutiérrez, a realidade não tem obrigação de ser convincente, ela pode ser dar a certos luxos, como, por exemplo, o relacionamento entre uma prostituta do baixo meretrício e um intelectual do baixo Gávea, que à época era casado com Regina, amiga de ambos até hoje.

A esse respeito Gabriela afirma “é claro que eu estava de novo quebrando um tabu. Estava namorando o ex-marido da minha amiga, sem brigar com ela e tampouco a traindo. Isso incomodava muita gente, especialmente as mulheres”. Nesse ponto da narrativa Gabriela trata do preconceito das mulheres com as próprias mulheres, que às vezes são tão ou mais conservadoras que certos homens ao lidar com a sexualidade e o clássico fetiche em torno das prostitutas.

Esse é um livro que vale quanto pesa, porque Gabriela Leite quebra outros tantos tabus ao mostrar que não é e nem nunca quis ser a Júlia Roberts. Também não é a Gabriela de Jorge Amado, eternizada nos versos de Caymmi “eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim … Gabriela”. Gabriela Leite é única, porque subverteu seu destino manifesto e fez sua revolução pessoal fazendo sexo e militando na causa da prostituição para que muitas outras mulheres possam cantar seus nomes próprios em alto e bom som: Alessandras, Luizas, Terezas, Marinas, Mathildes, Júlias, Reginas, Fernandas, Simones, Ritas, Cidas, Veras, Patrícias, Marias, Anas, Amélias … Pode-se até discordar dos métodos com os quais ela fez sua revolução pessoal, mas é preciso respeitá-la por sua trajetória. Afinal, o Brasil já pode dizer que a Gabriela Leite também é mulher de verdade.

12346530_10208354620448331_192542302382295802_nPatrícia Valim, mãe de Ana, Maria e Bento e avó de Maria Antônia. Professora de História da UFBA

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