Voltando

Ô abre alas que eu quero passar, ô abre ala que eu quero passar. Voltamos. Estamos voltando. Arejando o club, abrindo portas e janelas, espanando os móveis, varrendo os cantos. Põe meia dúzia de brahma pra gelar, muda a roupa de cama, estamos voltando.

Voltamos outros, as vidas que vivemos nos aperta daqui, nos pede dali, revolve por dentro. Mas voltamos com a mesma vontade de biscatear. Ainda buscando a liberdade – emancipatória – através de diálogos, dicotomias e leveza. Estamos no mundo das redes sociais, mas da forma subversiva que nos apetece, não temos pressa nem respostas. Em um tempo/espaço em que a obrigação é militar (no sentido de militância, mas, inexorável constatar que no sentido bélico também) porque o mundo é muito cruel e as lutas são para ontem, reafirmamos o prazer como baliza, horizonte e caminho. O prazer da escrita, do acolhimento, do verso, do convívio e do contato.  O prazer do encontro.

Acreditamos no prazer. Acreditamos na putaria. Na liberdade. Acreditamos em escrever livre, viver livre, lutar livre, amar livre. Acreditamos na possibilidade do bom. Acreditamos no construir um mundo melhor de uma forma melhor. Com quem está. Com quem é. Acreditamos na insuficiência das pessoas. Na incompletude. Acreditamos na nossa humanidade como fraqueza, possibilidade e beleza. Acreditamos que é justamente nossa humanidade que possibilita sonhar e fazer um mundo outro. Melhor. Mas que só será melhor não pelo que miramos, mas pela forma como o fazemos.

Acreditamos na letra. E estamos dispostos a continuar escrevendo e convidando a escrever desse nosso jeito, evitando julgamentos, procurando a reflexão, a abertura (ui) para o outro. Temos incertezas, vacilos, dúvidas. A gente reconhece, como Vinícius, que o operário faz a coisa e a coisa faz o operário. Fazemos o clube como queremos vir a ser. Reafirmamos nosso Editorial, ele é nosso mar, barco, porto e horizonte. É o que nos desafia, o que nos comporta, onde repousamos e pra onde seguimos.

Escolhemos o dia de hoje para voltar não por acaso. Esse é um dia de tantos e tão reveladores equívocos. Um dia em que as pessoas parabenizam as mulheres por serem mulheres, como se houvesse alguma essência merecedora de mérito. Um dia em que aprisionam mulheres em estereótipos de cuidadadora, mãe, paciente, esposa, resignada e outros afins que garantem a continuidade de uma referência de papel subserviente para a mulher. Um dia, também, em que pessoas erram pensando que estão acertando e a forma como lidamos com elas diz muito do quanto ainda somos impregnados dos mesmos equívocos – talvez não de conteúdo, mas de forma. Escolhemos esse dia pra voltar porque biscatear é justamente buscar um jeito único, próprio, desvinculado de estereótipos e de imposições essencialistas, sejam elas louvatórias ou não.

12806171_964149760344671_5683152271043855323_n

8 de março é o Dia Internacional da Mulher e voltamos hoje pra nos somar às vozes que falam de igualdade para as mulheres, que clamam pelo fim da violência de gênero, que apontam as desigualdades, o machismo, a misoginia. Voltamos, também, nesse dia, pra lembrar a diversidade – dessas mulheres e das vozes. Todos os dias quando dizemos: “as mulheres” estamos encobrindo a diversidade de relações e experiências. Porque há mulheres negras, mulheres índias, mulheres trans, mulheres lésbicas, mulheres em situação de rua, (entre outros grupos marginalizados) e cada uma nestes grupos sofre de forma estruturalmente mais violenta todos os preconceitos. Mulheres que por sua etnia, orientação sexual, poder aquisitivo ou por se inserirem de forma contestatória à lógica machista são invisibilizadas e têm minimizadas ou mesmo negadas sua condição humana e de identidade. Diversidade de mulheres, diversidade de vozes. Nossas vozes marcadas pelo riso, pelo gozo, pelas perdas, pelo engolir em seco, pelo engolir o sapo, pelo grito de protesto… Nós somos sujeitos, fazemos escolhas, pensamos e decidimos, mesmo limitadas pela conjuntura, cultura e história. Nós temos vontades: seja de consumir, de amar, de trepar, de pertencer. Temos desejos: de ser feliz, amadas, livres, o que for. Temos possibilidade de autonomia, mesmo quando reconhecemos os obstáculos estruturais.(um fragmento de memória, daqui) É esse o som que produzimos com nossas vozes biscates: gritos, gargalhadas, gemidos, palavras de ordem e de afeto e que aqui, blogando, fazemos letra e sonho.

Voltamos. Acenda o refletor, apure o tamborim…

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *