Além do que se pode ver

Nós temos cinco sentidos. Aprendi na escola, cantando uma musiquinha com coreografia sobre nariz, boca, etc. Claro que não lembro mais da musiquinha e muito menos da coreografia. Sei dos sentidos. Cinco. Mas vivemos em uma era da imagem e, a reboque, o domínio da visão. Uma vez passei uns meses sem nenhum espelho (nem no banheiro, nem na bolsa, nenhunzinho mesmo) e as pessoas ficavam muito impressionadas. Como eu conseguia viver sem me ver?

Ser visto faz parte da construção de nossa subjetividade. É importante. Estrutura. Conseguir se ver também é mais que uma metáfora poderosa. Mas ficar limitado ao que pode ser visto costuma imobilizar. Essa situação se agrava, a meu ver, para as mulheres, a quem se imputa o lugar de enfeite, a demanda de beleza e perfeição estética.

Grande parte das mulheres cresce e vive insatisfeita com seu próprio corpo. Não porque ele lhe prive de alguma experiência específica, mas porque ele nunca parece bom e belo o bastante.  Aprende-se a espreitar com lupa as supostas imperfeições: olha lá a celulite; menina, engravidei agora o peito vai ficar cheio de estrias; gente e essa barriga? essa papada?; não posso mais acenar que balança tudo; olha só estou com cara de velha; alguém sabe um creme pra esconder olheiras? Eu poderia continuar indefinidamente, o corpo feminino parece inesgotável na sua capacidade de estar errado, isso porque nem cheguei em coisas como cor das axilas e plástica na vagina.

E é cada vez mais acessível a fixação desses supostos erros. Bem à mão estão cada vez mais máquinas que nos permitem captar e reproduzir imagens e espaços para cristalizar essas imagens. Filmadoras, máquinas fotográficas, câmeras nos celulares, televisão, youtube, outdoor, favorecendo o escrutínio público e a insatisfação particular.

Como resposta a esse desassossego sobre como nosso corpo (a)parece o que surge é a possibilidade de escamoteamento: sutiãs com enchimento, bundas complementares, cremes que disfarçam, cirurgias plásticas, photoshop. Dicas para tirar fotografias: deixa o braço longe do corpo pra afinar, tira foto de cima pra baixo (ou é de baixo pra cima?) pra não evidenciar o queixo, inclina o tronco não sei pra onde, estica a perna sei lá em que direção.

Eu não estou imune a isso e não é com superioridade que escrevo esse texto. Mas por uma série de fatores que nem vale a pena tentar re-conhecer, eu aprendi algumas coisas sobre meu corpo e a relação com ele que me fazem  bem e decidi partilhar.

Meu convite é pra gente de vez em quando fechar os olhos. Literalmente. Não é um convite do tipo “seja seu próprio padrão de beleza” ou “ame seu corpo” nem nada assim. Sei bem demais que viver é relacional. Que a estrutura garante que quem não se enquadra fique à margem. Que não haja roupa nas lojas, cadeiras nos aviões ou catracas que não constranjam. Que os empregos, os romances, os passeios, tudo pareça um pouquinho mais distante e difícil quando o que vêem de nós é algo que não se submete nem se limita ao que foi definido como aceitável.

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Meu convite é um pequeno convite à subversão. Tomar um banho se ensaboando lentamente, longe do espelho, deixando as mãos descobrirem curvas, veredas, permitindo-se sentir o prazer do toque. Cheirar o próprio pulso, o sovaco, a calcinha. Lamber os dedos. Sentir o gosto do próprio suor. Deitar nua na cama e rolar pra lá e pra cá. Sussurrar seu próprio nome muitas e muitas vezes e usufruir da sua própria voz. Gemer. Gente, gemer é ótimo. Massagear o pé. Comprar um daqueles ganchinhos e coçar suas costas. Passar o dia sem calcinha nem sutiã. Dançar pelada, deixar tudo balançar. Usar os outros sentidos e aprender sobre nós mesmos além do que aparentamos.

Meu convite é que a gente se permita ser conhecida também em braile. Que a gente se permita ser ouvida, lambida, tocada, esfregada, cheirada. Que com esse corpo que é sentido, não só visto, só então, com esse corpo fresco, redescoberto pelos outros sentidos, encostar no outro, esfregar-se no outro, entregar-se pro outro, pros sentidos do outro. E aí, quando estivermos em espelhos, vitrines, fotografias, possamos perceber o corpo não apenas no que ele falha, mas no que ele oferece e proporciona. Em todos os sentidos.

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