Profundidade

Eu sempre cutuco meus irmãos dizendo que meus pais gostam mais de mim. E explico: ora, se os pais gostam igualmente dos filhos como dizem, então eu nasci, eles amavam a mim, dois anos depois minha irmã nasceu, eles passaram a amar igualmente as duas, logo eu tenho dois anos de folga de amor de vantagem, irrecuperáveis, inalcançáveis, já que eles vão amar sempre igualzinho (e ainda mais ampla vantagem sobre o que nasceram 5 e 9 anos depois).

Eu sempre lembro disso quando converso com alguém que me diz: eu queria tanto biscatear, mas só consigo ter relações profundas, namorar muito tempo e tal. Como se calendário fosse critério para entrega, afeto, cumplicidade, tesão, cuidado. E não é uma pessoa ou duas que vai por esse caminho. É como somos ensinados a pensar (especialmente as mulheres): só vale a pena se for com um “felizes para sempre” carimbado. Que não importa o quão gostoso foi o rala e rola, quão intenso foi o fim de semana, quão delícia foram aqueles encontros de feriado-uma-vez-por-ano (assistam, assistam), só valeu de verdade, só foi profundo, só é amor se tiver a medida (e a garantia) do tempo como fiadora. Os relacionamentos tem que dar certo e dar certo means durar muito tempo, de preferência a vida toda, e incluir papel passado e patê de camarão na festinha do enlace.

Mas, luciana, quando se passa mais tempo junto a gente pode se conhecer mais. A gente pode passar por mais coisa, morte de familiar, novos amigos, nascimento da sobrinha. Quando se passa mais tempo junto a gente pode descobrir que lamber aquele vão entre o dedão do pé e o dedinho seguinte deixa a outra pessoa subindo pelas paredes. A gente pode ficar sabendo dos medos, das vontades, dos limites, das perdas. Pode, e é bom. São aqueles dois anos ali do começo do texto, que eu tenho de folga sobre minha irmã. Mas isso não é garantido nem determina a profundidade de um lance. Não tem balança pro sentimento. Nem para vivências. Não tem régua. Afeto não é açude, pra gente medir a profundidade da coisa em centímetro cúbico vivido. Penso eu (mas eu penso muita coisa boba, vai saber).

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Quando os pais (ou qualquer pessoa, estou falando dos pais por ser o exemplo mais clássico) dizem que amam igualmente a gente meneia a cabeça. A gente ri por dentro sabendo que se tem mais intimidade com um, confia mais no outro, ri mais com esse, liga no aperreio mais para aquele. E eles meneiam e riem de volta, porque sabem além, sabem que não é disso que esse “amar igual” trata. É da especificidade de cada relação. Do fato de cada vínculo ser em si mesmo, satisfatório, dolorido, bonito, gostoso, especial. E como justamente a diferença absoluta impede qualquer tipo de comparação ou hierarquia, é nesse igual, alicerçado no impossível de classificar, que se constroem os afetos.

A profundidade do lance – seja o vuco-vuco descontraído e apressado no banco de trás do carro na saída da boite, seja o casamento de 37 anos – se concretiza, acho eu, na forma como lidamos com ele. Não, não sou das abstrações, não prescindo das materialidades. Na minha história, eu sei, eu lembro: tem aquele com quem a cumplicidade foi imediata, o outro a quem confiaria a vida, aquele com quem ri fácil (opa), um pra quem até hoje posso telefonar no aperreio. E por aí vai. Mas sei também que cada envolvimento desse me fez quem sou. E me recebeu inteira (ou melhor, me recebeu faltante, desejante, porque não-ser-toda é característica fundante da humanidade). Sei que cada vínculo é, pra mim, especial, gostoso, bonito, dolorido, satisfatório. Único. Que a profundidade vem do quanto me deixo penetrar. No quão aberta estou. Em como recebo. E, em pêndulo, entrego ao receber.

Não há garantia pro viver. Acho eu que a gente perde um bocado quando não vive alguma coisa porque não vai durar. Há um gozo em não saber. Sabe o gostosinho que era brincar de rodar com os olhos fechados, de braços bem esticados, de mãos dadas com alguém? Tira o fôlego. Como um mergulho. A profundidade não vem de quantas vezes a gente se banhou naquelas águas, mas de quanto tempo a gente consegue ficar sem respirar*.

mergulho_livre_OVD* “Tomás compreendeu então que as metáforas são perigosas. Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metáfora” (Milan Kundera).

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