Não Há Resgate

Por Tarsila Mercer de Souza*, Biscate Convidada

Quando a gente tem 17 anos, ou quando a gente está apaixonado, nos ocorrem algumas ideias estúpidas, como prometer algo impossível de se cumprir.

Coisas como o amor eterno, a amizade infinita, a fidelidade incondicional, a lua e todo tipo de patifarias que poderiam servir pra comprar mais alguns minutos com a pessoa que a gente deseja.

Nesse mesmo contexto, as pessoas fazem outro tipo de coisa estúpida que é justamente comprar essas promessas.

A consequência lógica é a história de Ícaro. As asas de cera que foram inventadas pra chegar ao sol começam a se derreter com a própria presença do sol. Soa familiar?

Não temos asas, é claro. E seguimos, aos tropeços, apesar do tombo. Eventualmente, vamos sacando outros esquemas menos toscos pra voar: mais seguros, ou mais inovadores, ou mais complexos ou mais atrapalhados – alguma ideia maluca, algum plano futuro, alguma fantasia delirante pra ajudar a empurrar o nosso tempo interno adiante.

Eu ia dizendo que não há resgate.

É que esses tombos amorosos, essas promessas furadas, derrubam pessoas, literalmente. Ainda que as ‘asas’ sejam metafóricas. Quem nunca se trancou num quarto pra chorar e perdeu um dia de sol? Quem nunca esmurrou uma parede? Quem nunca atirou um celular no chão? Quem nunca lambeu o meio fio?

Depois de tentar voar no rabo dum relacionamento platônico que se desmanchou com a concretude. Ou depois de tentar se pendurar num amor eterno que se mostrou inteiramente dependente de uma contingência pra lá de específica.

Pois então. A gente derruba, e se derruba.

Quando a gente está na creche e a gente derruba o coleguinha, a professor nos faz pedir: Des-culpa.

Ora:

Como se desculpar pela ignorância? Ou pior, por uma ignorância que se escolheu livremente?

Como presumir culpa desta situação toda, para que se possa des-culpar?

Como lidar com a morte de um sonho? Como viver e conviver depois do sonho, olhando ainda pras caras de quem participou dele?

Não há resgate. Mas há o resgate de não haver resgate; saber que a matéria transformada jamais será novamente a mesma – mesmo que se retransforme, será uma nova história, um novo contexto. E isso faz dos caminhos dessa matéria – que são os nossos afetos, nesse caso – tão aleatórios, tão contingentes, tão acidentais quanto qualquer outra bela invenção que fazemos. Tão neutros, o que quer dizer: tão potencialmente bons.

Uma amiga, a Renata Correa, me disse esses dias: desromantizar para poder amar, para poder sentir direito. Resgatar o fato de que não há resgate pode, no fim das contas, ser uma boa notícia.

Um pedido de desculpas não des-culpa, não resgata, não redime, não desfaz a queda, não restitui um sonho.

Mas pode ser qualquer tipo de re-começo. Um jeito de não adoecer mais pela falta da redenção. Uma forma de aprender a reutilizar os pés.

foto perfil*Tarsila Mercer de Souza é escritora, pesquisadora qualitativa, gosta de inventar passos de dança.

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