“Como Homem”

Por Vevê Mambrini*, Biscate Convidada

sorte-no-amor-7

Hoje eu tinha que trocar as lâmpadas do farol do carro, e trocar o óleo – na verdade, já tinha passado do tempo. Cheguei no Mercado Car, fui direto pedir ajuda, e o atendente identificou em segundos as lâmpadas queimadas. Eu tinha reparado como ele é bonito e atraente. De costas, debruçado no carro de capô aberto, ele se vira e me fala: “Você não se assusta com o que vou falar? Mas você é a Hermione”. Não tinha como eu não me assustar. “Emma Watson, né? Você é igualzinha a ela.” Eu já tinha achado ele tão simpático, tão atraente. E de repente ele era também divertido – então só conseguia pensar em como deixar meu telefone, como chamar para uma cerveja, perguntar se ele queria bater um papo, se ele queria e podia sair comigo.

Subi no mercado para comprar as lâmpadas e o óleo de motor, pensando em atalhos para chegar no moço (por que não ser direta?) e me pareceu tanto com como quase sempre os moços se aproximam, como se precisasse de um grande pretexto, de uma história. Como se houvesse um “pensar como homem”. Fiquei pensando em como ele se virou de uma forma espontânea e despreocupada, e no fim, eu não sei se ele não olhou mais nos meus olhos longamente por desinteresse ou por vergonha. E eu fiquei com a cabeça nisso: outro dia, um outro moço “se comportou como homem” comigo: contou mentirinhas de amor para chegar num apaixonamento que ele nem queria, e sem querer, descobri que na mesma semana ele tinha feito o mesmo com outra pessoa. Problema nenhum com a piriguetagem, quanto mais melhor. Só me ressenti com a falta de fair play. Não precisava: a gente ia dar de qualquer jeito. Flertar de qualquer jeito. Tremer de qualquer jeito. Mas acho que o interesse, posto assim na mesa, fez perder a graça para ele, especulo. Me pergunto se para todo mundo é assim: se o jogo de enredamento precisa ou prescinde de mentirinhas.

 Mentiras de amor, como o Tom cantaria para a Lígia. Os desencontros de interesses fingidos para chegar a algum lugar. Os papeis esperados para as pessoas ficarem menos confusas diante do mistério do outro. Me peguei na fila, com quatro litros de óleo de motor nos braços, pensando no que lubrifica as relações, no que impede que nossa engrenagem não pare. No meu combustível, na manutenção que falta em algumas relações: uma educação emocional, que ensine a ler o outro, a improvisar um pouco mais fora dos scripts, a ceder com gosto e avançar ao ler com segurança o desejo alheio. Em que uma isca rende uma fisgada, em que onde um lança, o outro caça, e onde o silêncio também é uma resposta.

Esses dias andei pensando em reler O amante de Lady Chatterley. O livro é lindo e livre, mas preciso saber se as mil leituras da minha adolescência vão resistir às pensaduras dos últimos anos. O que ficou são imagens de escolhas muito livres e corajosas, muito além de quadrantes de gênero, ou classe. Escrito em 1928, chega a doer pensar que em 2016, ele seja tão progressista quanto eu me lembro. Arrisco dizer que foi grande parte da minha educação emocional: da escolha de ser transparente com quem desejo, de abrir o peito e mergulhar no vendaval. De gostar de jogar, mas no fair play. De querer curtir as regras iguais para meninos e meninas, nas infinitas combinações. De combinar os combinados, e experimentar o que se apresenta, maduro e doce.

Aí eu penso no moço das mentiras, e no moço para o qual eu não consegui falar a verdade. E penso se tem segunda chance para todos nós. Penso no tempo que estamos perdendo.

vevê* Verônica Mambrini é jornalista, fotógrafa e feminista, uma gata de rodas circulando por São Paulo e você pode acompanhá-la pelos seus perfis no Facebook ou pelo twitter @vmambrini ou ainda no seu blog. Boa viagem!
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Uma ideia sobre ““Como Homem”

  1. Marmenina, que texto incrível! Nossa, tô de cara, além de muito bem escrito me reconheci em vários parágrafos, cruzes. :- ) Só acho que, na idade em que estou (aparecem os tiques, as manias – não, péra, essa é a música) minha inabilidade já foi estabelecida e o melhor a fazer é simplesmente parar de jogar.
    Mas você bate um bolão, keep writting.
    Bj,
    Helê

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *