Frio na barriga

Por Juliana Lins*, Biscate Convidada

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Lembro da primeira viagem que fiz sozinha depois do fim do casamento de dez anos. Nas férias, peguei um avião pra Fernando de Noronha. Levava na mala uma dor de cotovelo tão grande que eu não conseguia nem sentir – e a vontade de grandes aventuras. O tempo fechou (literalmente), o avião não pôde descer e teve que voltar pro Recife. Eu e mais cem pessoas fomos levadas pro hotel onde passaríamos a noite pra embarcar no dia seguinte. Pense numa reversão de expectativa.

No saguão, a moça da recepção, atordoada, chamava cada um pra ir alojando nos quartos. Na minha vez gritou meu nome e, antes que eu conseguisse ultrapassar a montanha de gente amontoada no balcão, berrou ainda mais alto: É single, né? Eu demorei a entender a pergunta. Ela repetiu, com uma voz estridente: Tu é single, né? Só um? Tá sozinha? Todos os olhares se viraram pra mim. E eu, com um sorriso amarelo, confirmei as três coisas: single, só um, sozinha.

Ali caiu a ficha e de lá pra cá foi uma longa jornada. Daria um seriado, com temporadas e trilhas sonoras bem diferentes uma da outra.

Mas tem um sentimento que é constante de lá até aqui. Ser ou estar solteira é sentir um friozinho na barriga. Não é que a vida seja emocionante e esteja sempre acontecendo alguma coisa. Muitas vezes é como barriga de novela, não acontece porra nenhuma. Mas aí a gente liga o som, sozinha no carro, naquela altura que chega a vibrar no coração e canta aos berros a música do Arnaldo: “Socorro, eu não estou sentindo nada…”. E chora. E já fica melhor, sabendo que em algum momento algo vai acontecer, e que o frio na barriga vai voltar imediatamente.

Além das coisas que realmente acontecem, ou que quase acontecem, tem a cabeça que taí pra gente inventar coisa. E quem disse que coisa inventada não dá frio na barriga? O nosso amor a gente inventa pra se distrair. E quando acaba… peço licença pra mudar o resto da música… a gente guarda no caderninho de histórias que poderiam ter sido, mas não foram. Há que se ter histórias nessa vida, inventadas ou vividas. Cada uma ensina uma coisinha pra gente, ou várias. Histórias eu tenho. E tenho carinho por cada beijo na boca. Ah…. os beijos. A esta altura podia fazer um tratado sobre beijos (nota mental para um próximo post).

Além das coisas que a gente inventa de querer, assim, de uma hora pra outra e que podem crescer numa velocidade exponencial, tem o que os outros querem. Os outros às vezes inventam de querer a gente. Há muito desencontro nesse caminho, como já dizia o mano Vinicius: A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. Mas nos desencontros também há poesia. Um ser humano olhar pra você e dizer que tá a fim não é pouca coisa não. Não dá pra desprezar um gostar. E ser gostada dá frio na barriga também, como não? Sabe-se lá se o gostar do outro vai acabar te conquistando? Como boa biscate, você vai lá e vê se rola da invenção da pessoa virar a sua invenção por algum tempo. Se não rolar, você sai fora. Tem gente que tem mais dificuldade de sair. Mas sair quando não interessa, acho que já aprendi. Meu método é meio abrupto. Não indico pra ninguém, mas funciona pra mim. O método é… sair sem explicar mesmo. Eu sumo. Com sorte, depois de algum tempo, passados os efeitos colaterais do desencontro, a gente pode virar (ou voltar a ser) amigo. Há quem diga que é falta de respeito tomar um doril. Talvez seja mesmo, mas é o que sei fazer. A minha desculpa é que não tenho uma explicação boa em palavras pra dizer que não tô a fim de alguém. Nada me parece bom, claro e respeitoso o bastante pra eu conseguir falar. Daí prefiro o não-dito. Meu não dizer já diz tudo – sem o constrangimento.

Mas além dos desencontros e das invenções, tem também aquele momento em que você percebe que determinado frio na barriga é recíproco. Que a sua vontade é a vontade do outro. E calhou de ser na mesma hora. Se, ainda por cima, vocês dois estiverem na pista e querendo sentir coisas… Bom, se isso tudo acontecer o frio na barriga é giga.

Aí, alminhas, é soltar o corpo, que não tem muito pra quê freio. Soltar o corpo sabendo que pode se estabacar ali na frente. Sabendo que pode não ser. Sabendo que o frio da barriga pode virar medo. E que o medo pode virar história.

A vida, feito novela, é uma obra em aberto.

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*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

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4 ideias sobre “Frio na barriga

    • Ai, que lindo Memélia. Gostei mais ainda desse comentário aqui. Porque sempre fico na dúvida, sabe, se é bom mesmo ser tão desabrida. Mas aí quando algo tão meu toca os outros é ótimo. 🙂

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