Sonhos sonhos são

Desde o 11 de maio eu não durmo. Perco o sono. Viro, me reviro pensando no caos do meu país. E em você. Você é água mansa por onde meu pensamento desliza quando se esquece do que nos fizeram: a mim, a você e a toda as pessoas. As pessoas que lutam, trabalham, constroem esse país de que tanto me orgulhava de ir me tornando adulta nele. Com todos os problemas, sem reforma agrária, política ou fim do monopólio dos meios de comunicação. Ainda assim era possível ver um horizonte, havia brechas, lutávamos e acreditávamos mais na vitória do que na derrota.

Penso nas mulheres desempregadas com que conversei durante aquela semana. Uma me disse: “vi um trabalho que parecia muito esquisito. Não queriam pagar nem o salário mínimo. Eu tô precisando, mas não tô passando fome, né?”. Fiquei tão feliz de ouvi-la dizer isso, que não precisava se submeter a um trabalho degradante e mostrei a elas porque muitas não precisavam mais. Aí penso que esse pouco que conquistamos pode se acabar. Meu peito se enche de raiva. Balanço a cabeça pra sumir essa angústia e vir só você à mente.

Em meio a esse temor que se abateu sobre nós, pensar em você é o que me aquece o peito. O que me conforta nessas noites insones. Mas penso que o MinC acabou, golpearam também o presidente da EBC, acham que temos direitos demais. Lembro quem é Mendoncinha e o seu DEM-Elite que odeia pobre, negro, trabalhador sem-terra. E lembro que você, assim como eu e o restante estamos em perigo.

Penso nos adolescentes de São Paulo agredidos pelo Estado por quererem saber onde foi parar a comida a que eles têm direito. COMIDA. Aquele item básico da sobrevivência. O que nos bota de pé, firmes pra luta, que nos sustenta, que nos faz fortes. COMIDA. E esse pensamento puxa outro da tramitação do projeto de redução da maioridade penal e tudo se encaixa. Criminalizar nossos jovens cada vez mais cedo. Enjaulá-los, contê-los, lucrar com o fim de suas vidas. E me lembro da Bolsa-Estupro, da Cura Gay, da CPI da UNE. Claro. Foi pra isso – também – que eles nos golpearam.

O dia já está quase amanhecendo e continuo pensando nisso tudo. É hora de me acalmar e tentar dormir. Mudo a lógica das coisas e me lembro de que em breve você estará aqui. Que talvez eu siga em noites insones, mas porque faremos samba e amor até mais tarde. Ou finalmente poderei dormir aninhada no seu corpo que me traz uma paz do tamanho do mundo. O mundo precisa de mais encontros como os nossos, ele não sabe o quanto perde quando não estamos juntos.

sonho

Durmo e sonho agonias. Uma praça escura, muita lama e você que está para chegar, mas não chega nunca. A plenária vai começar, querem sentar no lugar que reservei pra ti. Você não chega. Um homem engravatado dá entrevista ao meu lado e quando tento xingá-lo perco a voz. Consigo falar, mas na hora de gritar a voz desaparece. Você não veio. Tento gritar pra outro engravatado, mas a voz falha de novo. Acordo ofegante, é dia, e falta pouco pra você passar o inverno comigo.

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