Um chapéu rosa e uma escova de princesa

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A verdade é que não era nem rosa, o chapéu. Ele apenas tinha uma fita rosa. Mas o menino abriu no choro quando a mãe tentou colocá-lo em sua cabeça. Não queria, aquele chapéu não, de jeito nenhum. A mãe foi tentar entender o que estava acontecendo e depois de muita conversa conseguiu uma resposta: o menino, tão pequenino ainda, tinha sido alvo de piadinhas dos colegas porque usava um apontador cor-de-rosa.

A outra história envolve outro menino: esse estava recebendo um amiguinho em casa, e ganhou do pai uma escova de dentes nova. O pai tinha prestado atenção ao tamanho da escova, e não atentou para o desenho no cabo: pois bem, de novo. O choro, a recusa enfática. De jeito nenhum, essa não. Escova de princesa. Ainda mais com o amigo em casa: uma vergonha dupla.

Ser menino: aprender, desde muito pequeno, que existe “a linha de demarcação”. Que certas roupas não pode, que certas brincadeiras não pode, que sentar assim não pode, falar daquele jeito, nem pensar, mexer a mão, balançar o quadril, dançar muito solto…. Não pode usar apontador rosa, chapéu com fita rosa, escova de princesa. Não pode. Não é de menino.

Vejam bem: contrariando o senso comum, menina até que pode. Um dia não pôde: hoje pode. Pode usar calça, pode brincar de carrinho, pode jogar bola. Tudo por conquista das meninas, das mulheres que um dia foram meninas. Nada foi dado, é certo: precisou de muita briga e ainda há muito caminho a ser feito. Mas a força do oprimido é saber que é oprimido. E quanto aos meninos? Aí a gente entra em terreno delicado, porque, justamente, aos meninos cabe ocupar o lugar de opressores. Há, nas entrelinhas, a insinuação de que ser menino é, de alguma forma, “melhor”. Se é supostamente melhor, como reclamar de tantos “não pode”? Os “não pode”, dizem as vozes que não dizem, mas insinuam, são necessários para obter a titulação do seleto grupo, o dos vencedores, dos bacanas: o grupo dos homens hétero. Dos homens-que-são-homens. Ser mulher seria “meio menos”. E gostar de fazer “coisa de mulher” é querer ser meio menos: quase um pecado, pois. Não pode. O que significa que, no fim das contas, sob o pretexto de que é para “ser mais”, ser “melhor”, sacrifica-se, sem dó nem piedade, o que se é e o que se pode ser.

É desde muito pequenos que eles aprendem isso. Aprendem por que se lhes ensina. Tem sempre alguém dizendo, repetindo, mostrando: o pai, a mãe, os avós, os professores, os colegas. Sempre alguém afirmando que aquele menino não está sendo menino do jeito certo.

E tantas dores. E tantas repressões. E tanto choro contido, porque afinal, “menino não chora”. E tantas vontades deixadas de lado, porque isso não é coisa de menino. A linha de demarcação é violenta e é o tempo todo. Nas grandes como nas pequenas coisas.

Um parêntesis necessário: não é de orientação sexual que a gente está falando ainda, não é mesmo? Apenas da possibilidade de ser como se é ou como se quer. Porque afinal nada impede que alguém sinta tesão por meninas e vontade de usar um boá violeta. O que uma coisa teria a ver com a outra? Não consigo nem começar a perceber.

Ah, mas se gosta de “coisa de menina” deve gostar de fazer sexo com meninos, não é mesmo? E tome violência vinda do preconceito. Em cima de meninos que, no mais das vezes, nem pensaram nisso ainda. Sexo? Pegar na mão e dar beijinho, correr junto e abraçar, abrir um sorrisão quando vê o outro, sentir o coração bater… assim é o mundo sentimental dos meninos. E pode ser com meninos. Com meninas. Assim é também o mundo sentimental das meninas. Mas menina acaba podendo, né? Pegar na mão, deitar no colo, fazer carinho no cabelo, dormir na mesma cama… tomar banho juntas, andar de braço dado. Menina pode. Não deixa de ser menina. Afinal, ser menina é a base, o ponto mais baixo da escala: aquele lugar em que quem não está lá não deveria querer estar. Os outros, os que estão em cima, é que precisam se cuidar, sob o risco de… se aproximarem do jeito de ser das meninas. Que horror. Como alguém que recebe ao nascer a graça e a glória de nascer menino poderia desejar tamanha queda no abismo.

Então, desde muito pequeno, veste-se a criança com a armadura fechada, restrita ao espaço estreito concedido ao “ser menino”. Não vá ele passar dos limites, pintar fora do pontilhado, dançar fora de esquadro, virar a mão, rebolar, puxar as vogais, inclinar a cabeça…. Alguns pequeninos espaços já foram conquistados, deve-se dizer. Já que um dia, não podia brinco. Um dia, não podia cabelo comprido. Isso já pode, embora não em qualquer canto: mas na cidade grande, na classe média descolada, já pode usar brinco e cabelo comprido sem que haja perguntas, sem que isso seja reprimido. Aos homens héteros, no ano da graça de 2016, já é permitido usar cabelo comprido e brinco.

Mas é tão pouquinho. Uma migalha, diante de todo o universo de engessamento. Diante das possibilidades. Se vestir como quiser. Afrouxar, se soltar. O corpo. O jeito. Sem precisar se perguntar. Ser doce, ser delicado, brincar de boneca, pular corda. Abraçar, beijar. Ter medo e chorar e pedir arrego. Se permitir ser frágil. Sem ter sua sexualidade questionada. Sexualidade? Orientação sexual? Isso é outro assunto, não? Que tem a ver com quem lhe causa frisson, arrepios, que tem a ver com quem você quer na sua cama e no seu corpo. Isso a gente só vai sabendo ao longo, à medida em que vai crescendo e os desejos vão brotando. Aqui, não é disso que se fala: é anterior. É do lugar do “ser menino-macho”, independente do que virá mais adiante. E, mais adiante, você poderá inclusive descobrir que, apesar de corresponder ao estereótipo do menino-menino, gosta mesmo é de meninos. Não é verdade?

Vou encerrar esse começo de conversa, que não pretende ser mais do que um começo, com uma terceira historinha que deixo aqui, pra gente continuar a pensar.  Esta não está mencionada no título e  envolve uma calça de malha lilás. Me foi contada por um homem já adulto, que explicava – a sério – o motivo de ter  desistido de fazer ioga na juventude. Tinha entrado na academia para pedir informações e a moça detalhara: para a turma de iniciantes, a roupa era lilás. Pronto. Ali se encerrou a carreira de iogue do meu amigo. Aí não, dizia ele. Eu com vinte anos, vestindo roupa lilás? Como é que eu ia explicar pro pessoal lá do bairro?

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12 ideias sobre “Um chapéu rosa e uma escova de princesa

  1. Foi assim com os cachos do leãozinho. Professoras, ajudantes e coleguinhas começaram a falar que o cabelo dele era de menina. E que ele era menino. E meninos não usam cabelo de menina.

    Aí começou a pedir pra cortar e não tive como dizer não. Não tinha argumentos, era a vontade dele, no fim das contas.

    Uma tristeza profunda isso.

    Mas continuo fazendo o trabalho de formiguinha, chamando-o para brincar de boneca, para fazer a comidinha na cozinha rosa da Peppa que ele tem, fazendo questão de comprar roupas rosas, roxas, coloridas… não é fácil enfrentar o mundo lá fora, mas eu preciso sentir que estou fazendo a minha parte. Ciente que nem sempre é o bastante.

    • acho, Dri, que educar crianças tem a ver essencialmente com respeito e escuta. Aí o resto vem, né? Se o menininho é mais yang, que seja yang. Se é mais doce, mais suave, mais delicado, que seja. Se gosta de cabelo comprido, de cabelo curto? O fundamental é não reprimir o que se é. Beijo pra você e pro Leon!

  2. Então o menino abraça o amigo e diz “eu te amo”. O pai do amigo pula imediatamente na frente dos dois: “não é assim que se fala”. O pai do menino diz ao pai do amigo: “e por que não?”. O pai do amigo fica sem palavras.

    • É isso. O “por que não?” deixa as pessoas sem resposta. Mas elas continuam pulando. E as crianças sem entender muito….
      Vida difícil.
      Beijo, querida! Obrigada pela visita.

  3. Acho que os meninos vão precisar romper com isso tudo, como nós também rompemos, questionando nossos papéis, o que nos foi atribuído, qual seria ‘um jeito de menina’. Vai questionar este papel, mesmo quando todos ao seu redor pensam diferente. Passamos por isso.

    • Verdade, Denise. Não tem outro caminho. Mas eu queria, mesmo, chamar a atenção pra isso. Pras mães, pros pais. Porque nisso não se fala. As meninas estão aí, quebrando tudo e rompendo barreiras. Os meninos ainda têm que comer muito feijão com arroz, porque a mística do masculino é muito forte….

  4. Renata, vi um doc no netflix sobre isso que achei bacana, chama-se “The mask we live in”. É bem americano na obsessão por números e pesquisas, mas fala bem disso que você colocou. Fiquei achando que todo mundo deveria ver.
    Beijo e parabéns, belo texto.

  5. está acontecendo exatamente isso com o meu neto, de 4 anos. ele só tem irmãs e na outra semana pintou as unhas de vermelho e preto, acompanhando a irmã mais velha.
    e veio mostrar, todo feliz. ‘unha do flamengo’, ele dizia.
    os pais precisaram quase quebrar pau com algumas mães dos amiguinhos por causa disso, acredita?
    um amigo gostou e também quis pintar, mas a mãe não deixou…
    os pais do meu neto lidam bem com isso, mas não sei como vai terminar…
    estou aguardando os proximos capitulos…

  6. E se depara eu, com meu filho ainda recém-nascido: “Essa roupa? É tão… Sei lá… Parece de menina.” Sem mais… Não há o que se falar. Ou há, e muito ainda. – Meu filho, não ligue pra isso. O gosto é seu. Vista-se como quiseres.

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