Eu queria, eu não posso: eu sou casado

A Helô compartilhou esse texto chamado “Eu queria, mas sou casado”, e me deu logo vontade de comentar. Porque né. Quem não conhece essa fala? Um chope depois do trabalho? Uma oportunidade inesperada de assistir àquele show de que tanto se falou? Um jantar com amigos de faculdade? Ah, queria muito. Mas sou casado.

Comassim, meu povo? 2016 e isso é algo que se diga? Me lembra aquela do meu livro de inglês que ensejou uma aula inteira de explicações: “não vou poder sair com você hoje, porque vou lavar o cabelo”. “Sou casado” é um “vou lavar o cabelo”. Quer dizer, vocês deviam ter vergonha de dizer um troço desses.

Digo isso e me lembro de uma historinha: de um amigo que não tinha podido ir ao meu aniversário, e queria compensar. Vamos, disse eu animadamente. Um chope depois do trabalho? Ele sugeriu que, em vez do chope, a gente fosse almoçar. Aceitei sem problemas e não pensei a respeito. No almoço é que ele me esclareceu que chope não podia. Podia, quer dizer: mas com amigos homens. Ou com turma. Comigo, uma mulher? Não podia. Afinal, ele era casado. É ainda, até onde sei. E nem comentei. Fiquei com pena… quer dizer que casamento é assim? Que tipo de aliança é essa que impede chope com amigas? Sério? Me lembra a camiseta do pessoal do Casseta e Planeta, sobre a bandeira de Minas: “Liberdade, ainda que à tardinha”.

Até porque todo mundo sabe: não adianta. Sabem as adolescentes cujos pais exigem que estejam em casa logo depois da aula: ora, e durante a aula? E durante o resto do dia? E na hora do curso de inglês? Basta alguma criatividade… se quando um não quer dois não brigam, quando os dois querem, jeitos se ajeitam. Se encontram. Se inventam. Imagina alguém casado. Se for pra querer, meu amigo, minha amiga: não adianta marcar hora. Vai ter hora, e vai ser outra. Proibir, trancar, fazer cara feia? Afeta o relacionamento em si. Não as supostas oportunidades de “traição” (aspas, aspas).

Por outro lado, também tem aquela outra história: a do cara casado que fica com uma moça. Se encanta, se apaixona, daria tudo por ela. Mas, infelizmente, é casado. Adoraria largar tudo e ir viver aquele grande amor, mas não vai largar assim a companheira de tantos anos, a mãe dos filhos, aquela que esteve ao seu lado nos tempos difíceis… se seguisse seu coração, não há dúvida: iria, largaria, faria. Tudo no futuro do pretérito. No presente cru, é casado.

Aí que me parece um reverso da mesma coisa, não? O uso do outro (da outra) para justificar suas próprias atitudes. Sua própria falta de atitude. Para fingir que sua escolha é uma não-escolha. Sério. É escolha. No caso do Mr. Rochester de Jane Eyre, a questão era que ele tinha uma mulher insana e dela não podia se separar. Certo, bom argumento. Para a época. O livro foi lançado, me informa a wiki, em 1847. Quase dois séculos atrás. Agora não tá valendo mais. Quem quer se separar, se separa. Quem não se separa, não quer. Certo, não é assim preto no branco e consigo conceber algumas situações em que isso não seja evidente. Em boa parte delas, porém, é isso mesmo. O cara tem filhos, tem mulher, tem casa montada, tem hábitos: isso vale também, como não? Não estou julgando ninguém. Nem os que são casados e ficam com outras pessoas, nem os que se separam, nem os que não. Apenas ressalto que tudo isso são decisões próprias. Ficar, não ficar, partir, voltar. A corda bamba existe, mas a gente é que está nela. Respeito tudo, mas há que se assumir responsabilidade pelas próprias decisões. O que não dá é ficar usando essa balela de “eu queria, mas sou casado”.

Fácil? Provavelmente não, mas quem disse que seria? Romper, quebrar, mudar, desfazer, recomeçar: tudo verbo de dificuldade, me parece. Permanecer, fortificar, manter, solidificar: mais dificuldade. Nada aí é fácil. Nem ir, nem ficar. A vida é cheia de encantos e, se a gente tá na vida, tende a se encantar. A partir daí, é decisão.

o-pequeno-principe-raposa

Lembrei do Pequeno Príncipe e da sua fala sobre responsabilidade: sempre achei que era vilipendiada demais. Você pode não ter feito de propósito de encantar alguém; afinal o encantar-se ainda guarda boa parte de mistério. Mas depois que sabe que aconteceu, passa a ter alguma responsabilidade. Ao dizer “fica”. Ao dizer “não quero”. Ao silenciar. Ao fugir – que, em alguns casos, tá valendo. Ao alimentar, estimular, retribuir. É certo que a outra pessoa também. A cada passo tem que saber que a vida é dela, os passos são dela. O caminho, os abismos, os mergulhos, os volteios. A dor. Que, em algum momento, certamente virá. A pergunta de cada momento é: tá valendo? Tá valendo pra você?

(E, com o ponto de interrogação, fecham-se as cortinas. Entre parêntesis. Aplausos. Se couber.)

JaneEyre

Jane Eyre e o Sr.Rochester

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18 ideias sobre “Eu queria, eu não posso: eu sou casado

  1. *Meu namorado não deixa*
    *Minha mulher não gosta*
    *Manda por dm senão minha noiva vai encher o saco*
    Se eu não soubesse que no fundo as pessoas que dizem esse tipo de coisa estão é se gabando porque acharam o encaixe perfeito para a sua loucura, eu ficaria com pena da infelicidade. Mas já aprendi que esta, em geral, é merecidíssima. Ainda assim, dá uma certa tristeza/preguiça/desesperança.

  2. imagino que deve ser tão insuportável um casamento assim… é assumir um jugo, um grilhão. colocou aquela aliança no dedo, aquelas algemas, acabou. ‘sou casada’, ‘sou casado’. ‘ela é minha dona’ e vice versa. mesmo que na intimidade o comum seja desrespeito, desprezo, violência, poder.
    as aparencias muitas vezes enganam.

    claro que tem exceções, claro. mas as regras do jogo são essas, e os jogadores são cada vez mais jovens. por exemplo, o irmão mais novo de meus meninos, filho do pai deles, que é um menino querido, que sempre tá preocupado em ser um homem melhor.
    pois ele namorou uma menina, noivou, semana que vem tá casando. casando, de papel passado, padre, véu e grinalda!! gente, ainda existe isso. e ela já manda nele. e ele nela. não pode sequer olhar pra outra(o)s pessoas…

    não sei se eles estão bem, devem estar apaixonados, trepando muito… não sei, não encontrei com ele, que mora longe. mas com certeza estão cumprindo o papel que os pais cafonas e tradicionais (dela) esperam.
    tomara que sejam felizes. mas duvido muito.

    no meu caso, já tive três maridos, renata, e continuo solteira.
    em todos eles estivemos juntos por amor e vontade, as tentações de perder eram muitas, todos os dias. então a confiança também era muita, todos os dias.
    sem casamento, a relação fica preciosa (se for o caso), a gente batalha por ela em todos os níveis, todos os dias. acho bem mais verdadeira.
    enfim…
    beijos!

    • Beth, depois que eu descobri que chorava em casamentos (!!!) não me atrevo a reclamar deles… 😉
      E não acho que seja assim violento sempre não. Acho que pode ser sutil, pode ser de parte a parte… mas sempre dá uma desbotada na pessoa. Na hora em que ela precisa dizer algo assim. Na hora em que precisa ligar, não pra avisar, mas meio que pra pedir permissão. Na hora em que a pessoa já recusa porque sabe que “vai dar problema em casa”. E tome desqualificação da outra: “a patroa”, “dona Encrenca”…. como se eles não fossem donos dos seus narizes. Como se não estivessem compactuando com isso.

    • Claudinho, vou te dizer que me ocorreu inclusive fazer outra vertente do “não posso, sou casado”, mas aí achei que ia ficar longo demais.
      Beijo!

  3. Outro dia um sujeito com quem eu fiquei uma única vez há muitos anos me chamou no chat do Facebook e começou a conversar comigo.
    Em uma certa altura, questionou se eu não tinha problema em conversar com ele. Eu disse que não e perguntei o por quê? Ele respondeu: eu sou casado.
    Eu completei: Mas isso é um problema seu e não meu.
    Ele me deletou do Facebook. rs

  4. Outro dia achei parte de um conselho dado a um amigo que jogava na namorada as responsabilidades por ele se privar de certas coisas: “Volta e meia você se compara com o cara-que-trai, aquele machinho bocó, então me sinto à vontade pra fazer a analogia também… Sabe o cara que vive responsabilizando a PATROA por prender ele, cercar, proibir de fazer as coisas? Na ilusão de que *se não fosse ela* ele ia fazer e acontecer, comer todo mundo, ser muito mais fodão e feliz… Os caras que são assim procuram mulheres assim, pra ter a desculpa, pra ter alguém em quem jogar a decisão ou a inação.”

    • Ótimo comentário! 🙂 Só acrescentaria que não é sempre a mulher que é assim (como acho q está implícito no seu comentário). Às vezes, o cara inventa a mulher mesmo.

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