Sobre morder a língua

Por Juliana Lins*, Biscate Convidada

Ju_Mordi a lingua_Foto

Meninas e meninos, moças e moços, amigas e amigos: mordi a língua. Esse texto vai pras minhas vocês sabem quem. Aquelas que me ouviram madrugadas adentro desfilar o meu banquete de certezinhas entre um e outro gole de chope. Vai para aqueles e aquelas que sabem o quão crítica eu sou nesta vida. Vai pra vocês que já perderam horas a fio me ouvindo reclamar em altíssimo e bom som – apesar da voz cada vez mais rouca – do modus operandis dos casamentos e relações caretas que assolam o planeta. Vocês que já me ouviram questionar zil vezes o fato de tudo neste mundo evoluir, mudar , acabar e ser recriado menos o sistema educacional e as relações estáveis. Enfim, repito pra não pairar nenhuma dúvida, eu mordi a língua.

E pra começar a explicar o inexplicável, reproduzo aqui um parágrafo-desabafo escrito num rascunho qualquer em 07 de Junho de 2016, apenas um mês e pouco antes de encontrar aquele que me faria morder a língua várias vezes em algumas semanas. Segue o parágrafo sem filtro e sem edição.

“Daí eu olho pros casais e volta. E na maioria dos casos, com honrosas exceções, não gosto muito do que vejo. Difícil esse troço de generalizar, mas é tão comum ver por aí umas duplas que nem fazem mais sentido. Ou que fazem sentido de uma forma meio automática de ser.  Que não deixam o outro ser, sei lá, o que ele quiser. Tem o inominável ciúme. Tem a vontade de ver tv enquanto o outro quer ir pra rua. Tem as crias, o quem faz o quê. Tem as famílias de um e de outro. Tem uma sensação pairante de uma certa amarração que dá uma agonia profunda…”

Pois bem, foi em meio a essa agonia, a esse tom professoral, distante e crítico, em meio à quase certeza de que eu não queria mais ser um casal que eu esbarrei nele. Não foi amor à primeira vista, nem à segunda, nem à terceira. Na verdade eu nem lembro a primeira vez que a gente se viu na vida, a gente já se conhecia há um tempão. E agora é tão estranho lembrar de todos esses anos em que eu nem imaginava o tamanho dessa alguma coisa que a gente ia inventar junto. Eu casada com outra pessoa. Ele casado com outra pessoa. Depois, mais adiante, eu separada e ele ainda casado. Recentemente, os dois solteiros, mas até bem pouco tempo sem fazer nenhuma ideia disso tudo.

Pois bem, como diria Chicó, só sei que foi assim. Um dia eu olhei com curiosidade pela primeira vez. E logo ele olhou de volta. Aí mantive o olhar. E ele também manteve acoplado a um sorriso. Pensei, assim como o criador de Chicó já disse certa vez: “Essa alminha quer reza…”. Alguns segundos, nenhuma palavra, frio na barriga mode on. Daí pra isso tudo aqui foi um pulo. Jump cut.

E agora, José? O que a pessoa que nunca mais queria ser um casal na vida faz com as certezas elaboradas e repetidas por anos a fio na hora que vira um casal? Como encarar as amigas parças, confidentes e cúmplices? Como reaprender esse negócio de ser com o outro? Cursinho rápido online alguém?

Das coisas que achei que não eram mais possíveis de ser vividas estão:

  • Vontade de ver todo dia.
  • Falar no tel à la anos 80, por horas a fio (sem a parte do fio) e fazer vozinha (!!!!!!) como bem reparou a amiga fono.
  • Vontade incontrolável de contar pro mundo que isso tudo está acontecendo (o que, vejam bem, estou fazendo agora usando esse texto como desculpa).

Pronto. Só essas três coisinhas já abalam certezas estruturais tais como:

  • Um saco essa obrigação de se ver todo dia.
  • Odeio falar no telefone.
  • Prefiro mil vezes não contar do que contar.

Qualquer um que me conheça um pouco sabe dessas certezas. Só que agora aquelas 3 coisinhas bem clichês lá de cima já destroem a moral de uma alma com tantas convicções. Já viram a vida de cabeça pra baixo. Já remexem de um jeito o avesso da gente que a gente nem sabe mais ser aquela pessoa que moldou e cultivou por anos de sozinhez.

O jeito é reconhecer que não se tem mais certezas. O jeito é rir. E gozar. E tentar aprender. Tentar fazer diferente do que já se fez. Errar erros melhores, como diz o meme. Tentar ser um par sem deixar de ser dois single, únicos, inteiros (ô coisa difícil). Prestar atenção no outro e em si mesma. E, apesar da vontade de se atirar de olhos fechados, tentar ir se segurando, olhando o caminho, pisando devagarinho, ensaiando se misturar sem se perder no meio disso tudo. O jeito é descobrir como encaixar a pessoa, a relação e esse tanto de sentimento que brotou aqui dentro no resto da vida. Ou o resto da vida dentro disso tudo. E saber que a língua será mordida mil vezes mais.

O jeito é escrever uma história nova com trilha sonora original. Simbora.

Morde-se a língua sozinho. E mordisca-se junto.

P.S. Esse texto foi levemente inspirado no incrível Enquanto, da bisca-diva Luciana Nepomuceno. E a foto é uma copiagem descarada mesmo.

Ju_foto*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

4 ideias sobre “Sobre morder a língua

    • Ah… Beth, tenho pensado tanto nisso… Nessa questão do tempo e da hora em que as coisas acontecem ou que a gente faz elas acontecerem. Tem uma magia muito misteriosa nisso tudo, né? Beijo enorme e que bom que você gostou!

  1. Uma bisca apaixonada… ah, que beleza!
    Sabes Ju, a gente fica falando, acreditando, pensando, um monte de regras, certezas e na verdade, cada momento é tão único. Tão singular. Claro que existem coisas que a gente aprende, ou melhor seria que aprendesse: não se abandonar na relação, não perder o foco na vida, etc. etc. Mas o mistério de cada encontro é… sempre surpresa. Novas águas por onde não passamos. beijoka

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *