“Um público feminino tão grande” – Mulheres nas Olimpíadas

Por Cynthia Semíramis*, Biscate Convidada

“A gente não esperava um público feminino tão grande”, disse o organizador da fila pras mulheres passarem pelo detector de metais. Ouvi isso ontem enquanto tentava entrar no Mineirão para o jogo de futebol feminino entre Brasil e Austrália.

Eu estava com todas as mulheres e crianças num espaço pequeno e cercado. Ouvimos hino nacional, ouvimos o início do jogo e não saíamos do lugar. A multidão só aumentava. Começaram os empurrões, tanto pra ir em direção à entrada quanto para voltar: quem chegou na frente descobriu que não havia gente para revistar e liberar a entrada, e aí queria voltar e achar outro caminho (a alternativa era ser esmagada na grade). Do outro lado, os homens gritavam pra nos liberarem. Todo mundo desesperado. Foi tão tenso que pensei que seria pisoteada ou esmagada.

Finalmente perceberam os riscos e abriram várias grades para entrada das mulheres. Não conferiram ingressos, não passaram detector de metais. Não sei se eu, que comprei ingressos para este jogo em junho, fui computada como uma das 52 mil pessoas pagantes no estádio. Só cheguei ao meu lugar no estádio às 22:25, depois de perguntar várias vezes e não conseguir informação correta de localização.

Foi um jogo memorável, mesmo tendo perdido parte dele por conta da desorganização. As filas anteriores também foram ruins. Não havia placas, não sabiam informar nada, só apontavam pra multidão: vai andando, segue o fluxo que uma hora você encontra o início da fila.

O que sei é que, num ano em que tanto se fala do bom desempenho das mulheres nos esportes, fica nítido o descaso com as mulheres, sejam elas atletas ou público. Como assim não esperam público feminino no jogo de futebol feminino da seleção brasileira? Como assim não têm um plano B para dar conta do público “inesperado”? Por que submeter crianças a aglomerações perigosas até para adultos? Por que dificultar a entrada das mulheres que querem assistir a um jogo?

Mulheres frequentam estádios, e cada vez em maior número. Nós sempre vamos aos jogos masculinos. Queremos ir também aos jogos femininos. Não somos “inesperadas”. Seria bom se a organização dos jogos percebesse o óbvio e nos tratasse com respeito.

CynthiaSemiramisCynthia Semíramis pesquisa história dos direitos das mulheres e tem blog em hibernação. Quando não está escrevendo tese vai dançar forró e correr. Só gosta de assistir futebol em estádio.

 

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