Diferenças Irreconciliáveis

Por Tâmara Freire*, Biscate Convidada

Eu fui casada por três anos.

E me separei pelas tais diferenças irreconciliáveis, ou qualquer nome que a gente dá para quando não houve nada além da vida, encaminhando um dos dois, ou ambos pra uma direção diferente.

E hoje voltando do trabalho eu estava cantarolando essa música e lembrando de quando eu fui morar com o Bruno.

A gente alugou uma casa toda engraçada, que não tinha sala (!), não tinha nada. Era um puxadinho, por um preço módico, numa localização nem tão razoável e que vivia uma zona, porque nenhum de nós era muito afeito a trabalhos domésticos.

Os móveis eram simplérrimos, comprados numa loja generalista, passavam longe de qualquer acepção de design. Tínhamos quatro pratos, quatro garfos, quatro colheres… E um único objeto de decoração: três baianinhas que a gente trouxe de uma viagem à Salvador.

Nessa casa ficamos seis meses. Nessa casa, eu enfrentei as crises de terror noturno de uma criança de um ano e meio. Nessa casa, eu flagrei um flerte na internet e dela saí prometendo nunca voltar. Nessa casa, Miguel firmou seu andar. Nessa casa, eu mudei de emprego, acordava cinco e meia, viajava duas horas pra ir, duas pra voltar, e só voltava nove da noite. Nessa casa, eu me deitava todas as noites dividindo as agruras com um outro alguém. Nessa casa, a gente também brigava, é claro.

E dessa casa, eu saía todos os dias pro trabalho, com essa música tocando a todo volume no carro, “pra energizar”, porque os dias eram sempre foda.

Faz dois anos que eu não sou mais casada e eu não me arrependo nem um minuto por ter tido essa casa, e as outras duas que tivemos, e todas as outras coisas, incluindo a separação.

A vida é feita de ciclos. Só mesmo quem nunca foi casado pra acreditar nessa visão catastrófica de que o fim de um casamento é a decretação de seu fracasso.

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Tâmara Freire é blogueira, feminista, jornalista e mãe. Gosta de filmes, livros, séries, café, campari, Almodóvar, Caetano, Clarice e conversa de bar. E também de internet e do vermelho nos seus cabelos e no dos outros. Gosta do vermelho em tudo, na verdade.

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