O “homem que é homem” e uma comemoração

bowiestardust

David Bowie


Ando com dificuldade de compartilhar certas coisas, muito por conta de certos termos generalizantes.Não quero dizer “todos os homens”, porque não são. Não quero dizer “epidemia” de violência contra a mulher, porque não é doença, não é vírus que se pega no ar.

Tenho certo pé atrás com essa questão de que é “cultura”, porque a gente vê dia sim outro também o funk, por exemplo, ser criminalizado por conta dessa questão, e não acho que seja por aí.

Lembro também que a nossa sociedade em que os horrores contra a mulher são comuns é violentíssima também com os homens, justamente no processo de tornarem-se homens. O famigerado “homem que é homem”. Por isso gostei muito de um comentário de amigo, que dizia “temos é que acabar com os homens”. Acredito que seja meio por aí. Não é inerente, não é intrínseco, não é natural: ninguém nasce “homem que é homem”. Torna-se, à base de porrada.

Vi recentemente um documentário muito interessante que se chama “The Mask You Live In” – “A Máscara Em Que Você Vive” – , sobre exatamente isso: a construção do homem a partir da infância. Muito à base da porrada, mas não só. Também à base da desqualificação, da chacota, das ironias, de tudo o que você descobre que é “coisa de mulherzinha”. Cores, gostos, jeitos, trejeitos. Nada disso pode, se você for ser um “homem que é homem”. Se quiser ter o respeito do seu pai, e tantas vezes da sua mãe também.

Dor, sofrimento, caixinhas.

E uma longa estrada a percorrer se a gente quiser desmontar isso, feita de muitos passos. A cada dia. Golpe a golpe, verso a verso, como dizia o poeta.

“Se a gente quiser” não: a gente há de querer. Porque é preciso, é inevitável, é premente. Não dá pra viver com essa máscara mais. Não dá pra aceitar o “homem que é homem”, esse aí a quem ensinam a não chorar, a não ser frágil, a não mostrar medo, insegurança, tristeza.

Coitado do “homem que é homem”.

Longo, longo trajeto. Ainda mais numa sociedade tão entranhadamente machista como é a nossa, em que dizer “coisa de viado” ainda faz tanto parte do dia-a-dia.

Então, há que se aplaudir cada um dos pequenos passos. E por isso aproveito para  comemorar aqui a iniciativa do Colégio Pedro II do Rio de Janeiro, abolindo os uniformes definidos por gênero. Um passo pequeno? Uma festa. Meninos, meninas: calças, saias. Do jeito que quiserem. Usar saia não te faz mais ou menos menino, como usar calça não te faz mais ou menos menina. O que é ser menino? O que é ser menina? O que te define?

Um pequeno passo. Uma fresta. Um espaço aberto. Viva.

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A galera do Pedro II, antes de ser permitido.

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