O sonho que não te contarei

Por Renata Corrêa, Biscate Convidada

Cara.

Sonhei com você. Fazia muito tempo que não acontecia. Eu podia mandar um inbox, mas não vou. Não quero meter um “oi sumido” nessa história e a gente acabar contando como nossos filhinhos são fofos e como sim, estamos trabalhando bastante e sim, que-difícil-a-situação-do-País-que-vontade-de-mudar-pro-uruguai-viu? Vi.

Ao invés disso eu vou ser cafona e contar como foi foda, fodimais ter que fazer duzentos e cinquenta e sete reuniões de trabalho com você antes de tomarmos o primeiro café sozinhos, antes de nos tornarmos unhicarne, antes de você vai então também vou, antes do pessoal começar a comentar, antes de parecer bem errado ficarmos tão bem juntos e nós estávamos mesmo tão bem juntos que era impossível não reparar.

Lembra daquela vez em uma festa na Lapa que você só de sacanagem colocou aquele vinil do Al Green, que você sabia que eu amava Al Green mas não contava para ninguém? E a gente já tinha tomado todas as drogas da festa, e eu tive que fingir que estava passando mal pro meu namorado me levar embora, senão, sabe-se lá o que ia acontecer? Pois é. Foi naquele dia que eu decidi que não ia mesmo nada acontecer e que essa era a maneira mais fácil que eu conhecia de para sempre e se fosse para sempre para mim tava bom demais.

Na última vez que nos vimos, duas garotinhas nos viram conversando no banco da praça e vieram perguntar se. Respondemos que não. “Vocês são amigos?” Sim. “E como vocês se conheceram?” (Nossa, como eu não suporto esses projetos escolares alternativos-hipsters que acabam por interferir na vida dos adultos melancólicos). Não sei se é por que as crianças berram, os balanços rangem, os vendedores de pipoca passam, os joelhos sangram, as bundas deslizam nos escorregas, as gangorras revelam as relações de poder mas enquanto você contava dos cafés, do job, de nós dois eu só ouvia que você não deveria ter soltado a minha mão por baixo daquela mesa que eu deveria não ter te deixado em casa depois daquele karaoquê, que você não deveria ser tão bro do meu ex, que a gente deveria ter obedecido Al Green pois o Al Green minha gente, sempre tem razão.

E, né, você deve querer saber do sonho. E sinto te informar que nem no sonho a gente conseguiu trepar, no sonho a gente só parava de fazer política & piada, sendo política & piada o nosso modus operandi e sendo tão fácil nesses tempos falar política & piada para se safar de qualquer situação verdadeira e potencialmente perigosa para umas pessoas como eu e você.

Era assim: a gente via “Made in USA” num cinema na Praça Saens Peña. Por mais Urca que eu use pra me curar, permaneço tijucana, pois tem coisas para as quais não existe remédio mesmo. E toda vez que Paula Nelson era interrompida ao dizer o nome do marido desaparecido era o seu nome que eu esquecia. O mais angustiante e delicioso era saber do seu desprezo solene por Gordard e sua firmeza de propósito de estar ali.

Mas como diria Marianne Faithful “as tears go by” e hoje é o dia em que eu não te contarei tudo isso, hoje será esse dia de fechar essa tampa, riscar o calendário, fazer feira, um almoço gostoso, rir com umas amigas e quem sabe chamar aquele alemãozinho-repórter-das-olimpíadas para tomar umas afinal não sou de ferro e tirando você eu gosto mesmo é de gente fácil.

Eu gosto é de gente fácil e tudo tão difícil durante tanto tempo é um troço que realmente não combina. A gente achou que deixar assim tava bom, que tudo que não acontece tem esse jeitinho de tudo ainda pode acontecer.

Pela minha experiência prévia você vai reaparecer mágico, glorioso, lindo, com tantos dentes enfileirados ofuscando a porra do sol, e eu direi sim para qualquer programa ingênuo e diurno. E falaríamos todos os subtextos do Brasil para confessarmos, sem usar as palavras, o quanto nos amamos e não entendemos que porra deu errado.

Mas dessa vez direi não, mesmo sabendo que pelas condições climáticas de tesão, temperatura, mau hábito, pressão, saudade infernal e direção do vento, seria um dia perfeito para dar de comer aos patos do Parque Guinle.

renata-corrc3aaa1* Renata Corrêa é tijucana, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

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