Pelo direito ao aborto sem drama

O colunista americano Dan Savage é famoso por falar sobre sexo e relacionamentos sem papas na língua. Ele também fala de taras, de política, de humor, de direitos LGBT, de tevê. Gosto demais dele.

Outro dia ele recebeu a carta de uma leitora contando que tinha ficado noiva do cara com quem se relacionava há três anos. Ficou noiva em maio, marcou o casamento pra setembro, decidiram ter um bebê e ela ficou grávida rápido. Só que, papo vai, papo vem, o noivo em julho decide que não quer mais ficar com ela, prefere esperar pra encontrar alguém melhor (oi?) e que ela tem que fazer um aborto. Ela escreve ao Dan e pergunta: isso é normal?

Ele responde que puta-que-o-pariu, não é normal, normal é ter medinho de casar e conversar sobre isso ANTES de engravidar. E segue dizendo que, apesar de ela não ter perguntado a ele sobre o aborto, e apesar de ele não ter um útero e nem um namorado filho da puta, acha que ela deve interromper a gravidez. Porque, mesmo que isso signifique dar ao cara o que ele pediu, ela pelo menos não vai ter que se relacionar com o cara pelos próximos 18 anos.

Aí uns dias depois alguém escreve pra dizer um troço que me chamou a atenção:

Pode dizer a ela que, se ela está na dúvida, a narrativa negativa ganha um peso desmedido. Eu estava com um parceiro que amava e com quem pensei que queria filhos, mas ficar grávida acidentalmente colocou as coisas em perspectiva sobre aquele relacionamento e eu soube que precisava sair, fazer um corte definitivo. Minha preocupação era se, mesmo sabendo que era a coisa certa pra mim, eu seria atacada com “e-se” para o resto da vida. Faz cinco anos e meu aborto foi sem dúvida nenhuma a melhor escolha que eu fiz para a minha vida e eu nunca me arrependi—só sinto alegria e orgulho de ter cuidado de mim quando eu não sabia como aquilo ia funcionar. Eu gostaria que o aborto não fosse tão politizado neste país a ponto de fazer com que seja quase impossível compartilhar uma perspectiva positiva da experiência.

Cara, é tão, tão isso. Claro que tem o sofrer. Tem o estupro, tem as histórias de terror, tem as impossibilidades afetivas e financeiras, tem as ausências masculinas, tem fatalidades biológicas (zika, alguém?). Mas também tem o sim-mas-não-agora, o já-tenho-dois, o quero-viajar, o putz-meu-mestrado, o me-deu-na-telha. Porque as mulheres são pessoas que deveriam poder decidir se e quando devem ter filhos, sem penitência, sem ter que obrigatoriamente contar uma história muito triste para aplacar a culpa judaico-cristã.

A carta dessa segunda leitora tocou tão fundo em mim que me vi compelida a escrever para o Dan Savage contando a minha história. Eu estava em uma terra muito muito distante, em um relacionamento longo e estável mas que obedecia a várias dessas listinhas que se distribuem agora sobre abuso psicológico e verbal, e engravidei sem querer – demos bobeira, com a pílula (eu) e com o coito interrompido (ele). Nesse reino distante o aborto é legal. Fui lá, paguei um preço não-exorbitante numa clínica limpa, com apoio psicológico e todos os exames e medicamentos. Me separei uma semana depois. Faz uma década. No dia mesmo eu pensava: isso é a decisão mais acertada que já tomei na vida. Ele? Chorou, se descabelou, tirou todo o dinheiro da nossa conta, me chantageou dizendo que ia contar tudo aos meus pais, me stalkeou pela cidade onde morávamos e nunca assinou os papeis de que eu precisava. Quando leio no jornal sobre disputas internacionais de guarda, até me arrepio pensando que poderia estar hoje enviando um ser humano de cá pra lá, como uma encomenda, para uma pessoa assim.
 
Vamos prestar atenção ao discurso para não glorificar o sofrimento. Tenhamos a malícia e a esperteza de não validar o discurso de quem quer fazer um bicho de sete cabeças  disso: há um potencial bebê, não um bebê; é um potencial filho, não filho; homens não “abortam”, homens abandonam mulheres. Separar de uma vez por todas o que é luta por direitos, o que é estatística, o que é pressão social e todos os valores religiosos que povoam a conversa. Vamos não ter vergonha de falar que um aborto pode resultar, sim, em felicidade e alívio, e ser vivido como uma experiência relativamente tranquila – dadas as condições ideais para tal. 
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