Vento

Por Liliane Gusmão*, Biscate Convidada

No fim de um dia cinza, quente e abafado de inesperados mormaços recifenses, ele surgiu sutil e silencioso como surge o desejo. Derramando-se em carícias atrás das orelhas, em lambidas na nuca que arrepiam a pele, atiçam os bicos dos peitos arrebitados sedentos de outros carinhos.

Desejo que invade, e se aloja naquele canto obscuro no baixo ventre. Começa lá como uma pontada, um peso, uma angustia discreta que se expande, se espalha em ondas descendo por entre as pernas umedecendo languidamente a espera dolorida da incompletude.

Desejo que se fortalece, transborda e se despeja em arrepios pelo corpo em busca de consolo, de satisfação, de gozo. E seja em mãos hábeis, bocas quentes com línguas atrevidas, em brinquedos deliciosos ou na delícia quente de outros corpos. O desejo nos transforma de maré mansa em mar bravio, em maré cheia, em ressacas estrondosas, em ondas explodindo com penachos de água e espuma rasgando o ar ao chocar-se com as pedras do litoral.

E ontem ele chegou assim, de doce brisa quente embalando as folhas nos galhos das árvores transformou-se em trovão e tempestade e caiu sobre nós para aplacar os calores febris de excitação do verão. Caiu em chuva gelada e barulhenta na calha do telhado. Amanheceu em rajadas violentas assobiando sobre as copas das árvores que se dobram, mas teimosas resistem suas ferozes investidas. Afrontam-no como os peitos empinados e mamilos rijos que crescem mais e mais a cada toque.

O vento hoje trouxe com ele a antecipação, como o desejo doce. Trouxe a lembrança e o vislumbre do que vem por aí, e que já está ali dobrando a esquina. Lembrou-me de promessas de delícias envoltas em sombras, texturas cores e cheiros.

Lembrou-me que frente a ele, como ao desejo, podemos nos encolher com medo e esperar que passe, ou podemos impetuosamente desafiá-lo e nos entregar de braços abertos na busca do nosso gozo, nos deixar envolver pelo seu turbulento e poderoso abraço.

Hoje vi se desenhando um presságio deliciosamente dolorido, como o pulsante desejo no ventre. Hoje, escutando as rajadas do vento refrescante e implacável, vi em suas asas a silhueta das sombras e do frescor colorido do outono.

Hoje, sentindo o vento no rosto enquanto olhava as nuvens de chumbo passando apressadas senti a pontada daquela dor feliz e escutei nos sussurros das folhas o canto que não sei se ousarei dizer… Não sei se digo, mas, sinto meus olhos brilhando com a felicidade do reconhecimento, não sei se ousarei dizer essas palavras que jamais imaginei ser capaz de proferir e de reconhecer que, sim, outono querido você vem e está quase aqui, e, sim, senti tanto a sua falta e que, sim, estou com tantas saudades de você!

Liliane*Liliane Gusmão é brasileira residente no exterior. É feminista, arquiteta, estudante, imigrante, mãe, filha, irmã e mulher. Tem 44 anos, mas, confessa, às vezes parece ter 13 ou 130. Exagerada, rebelde, cansada, impaciente, indecisa. E, acrescentamos, inteligente e terna.

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