A voz solta no papel

Penetra surdamente no reino das palavras
Lá estão os poemas que esperam ser escritos
C.D.A.

Desde que me entendo por gente, sempre gostei de cantar. Cantar é parte da vida, é trilha dos momentos, é forma de contar a história. Em outro canto, já contei como decorava discos de Chico Buarque e ensinava à família, para fazer parte do nosso repertório de viagens: cantar é também político.
A voz foi algo que fui aprendendo que era um “a mais”: algo de que os outros gostavam, algo que dava pra modular e usar a favor – para seduzir, claro, como não, mas também para (me) acalmar. Como comecei a dar aula muito cedo e era extremamente tímida: usava a técnica de prestar atenção na minha própria voz, que me tranquilizava. Voz-companheira e amiga, a minha.

Mas sempre tive problemas de rouquidão. Ao primeiro excesso de praia, ao menor sereno, à mais branda noitada em boteco… pronto, ficava rouca por dias. Quando não afônica de vez.

A voz: minha fortaleza, minha fragilidade.
Outra dor de garganta também sempre me acompanhou: a dor das palavras não-ditas. Que sempre foram muitas. Como se, ao prender na garganta, eu inconscientemente me machucasse.

Aí que me dei conta de uma coisa curiosa: desde que comecei a escrever regularmente, no Chopinho (que aliás foi presente por uma querida fonoaudióloga, gracias Cacá!), nas redes sociais, aqui mesmo neste Biscate, e agora mais recentemente no Primeira Fonte da Esther e da Fal, minha rouquidão quase sumiu. Como se, ao escrever as palavras que me entalavam, eu tirasse o peso da garganta e a liberasse. Libertar as palavras, libertar a garganta.

Escrever, para aliviar a dor.

Cantar, para deixar a alma mais leve.

E, justamente esta semana, a Luciana-Borboleta me lembrou um livro que foi tão eu, durante tanto tempo: “Les Mots Pour Le Dire”, da Marie Cardinal (o nome em português é: “Palavras Por Dizer”. Minha tradução seria: “Palavras para dizê-lo”. Ou, vá lá, “Palavras para dizer”).

O livro conta a história de uma análise. A análise da autora. Os anos em que ela foi ao consultório de um psicanalista, deitou-se no divã, e desfiou sua história. E como isso fez diferença em sua vida. Mas também em seu corpo. De novo, como se, ao lançar as palavras ao mundo naquele consultório, ela aliviasse seu corpo da própria dor de existir.
Palavras. Como mágica. Como encantamento. Palavras que curam, apenas por serem ditas.

 

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