Biscatear. É errado. É pecado. É crime.

revolucao

Eu não sou muito de me pronunciar a respeito de situações que envolvem crime, por vários motivos, a vida é complexa, a imprensa é tendenciosa e eu sou uma crítica do sistema penal. Mas não deu pra ficar quieta, vou abrir uma exceção pra esse caso.

Uma mulher foi presa, em Santos, por fazer sexo com dois homens. Não, ela não estava trepando com dois homens em um ambiente público e por isso foi presa – com eles – por atentado ao pudor. Nada assim. Ela foi presa por se relacionar com dois homens e um deles ter matado o outro. Ela não foi cúmplice. Ela não combinou o crime. Não há prova nenhuma que a implique com a morte do rapaz, mas ela foi presa quarta-feira pela manhã. A razão da prisão? Ela foi considerada pivô do crime apenas por se relacionar com os dois ao mesmo tempo.

Não tá dando pra entender? É porque não faz nenhum sentido mesmo. Vamos mais devagar. Ela trepava com um. Ela trepava com outro. E, quando estava com um deles se sentia à vontade para comentar o outro relacionamento que tinha. Pois para o juiz, isso é criminoso. Para o juiz, o fato dela comentar sua própria vida, sua satisfação ou insatisfação “causaram séria perturbação, trazendo reforço à sensação pública de que se vive em uma sociedade impune e eticamente apodrecida em seus valores morais como: família, fidelidade, liberdade e responsabilidade”.

Ou seja, é criminoso a gente exercitar nossa sexualidade se não for dentro de um padrão que o juiz reconheça como válido, com valores tradicionais. E o juiz não está sozinho, ah, não. Na imprensa ela já está condenada. Culpada pelo crime que outra pessoa cometeu porque, né, quem manda se dar ao desfrute? Afinal, olha que criminoso, ela procurava causar ciúmes nos caras! Ela comprava os desempenhos! Cadeia nela! Porque, claro, fetiche é coisa de homem, mulher não tem nem que pensar nessa pouca vergonha.

Não podemos trepar. Mas se a gente for trepar que seja no “santo matrimônio”. Se não for casada, pelo menos dê só pra um. Se, em último caso, for pra mais de um, seja escondido, seja em silêncio. Não deseje. Não goze. Não fale. Se cale. Se apague.

Por isso todas as vezes que eu leio textos cheios de boas intenções dizendo que ai-ai-ai-trepar-não-é-nada-demais-não-é-feminista-não-empodera-sei-que-lá-sei-que-lá eu tenho vontade de mandar catar coquinho. Trepar com desejo. Com tesão, com vontade, fazer o que quiser, se quiser, quando quiser, pôr (s)eu corpo na roda, passar o rodo é tão, tão, tão libertador e revolucionário que a sociedade esbraveja. E um juiz criminaliza.

 

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