“Eu tenho direito de não gostar de criança” é a fralda cagada do meu filho na sua cara

Por Tâmara Freire, Biscate Convidada

Já começo pedindo desculpas pela exaltação.

Ontem, antes de dormir eu tinha planejado começar esse texto comentando que já xinguei muito no Twitter, já tretei muito no Facebook, portanto, no blog, eu seria polida.

Mas não vai estar sendo possível.

Então antes de mais nada, aí vão os trigger warnings:

  • ESSE TEXTO FALA SOBRE CRIANÇAS
  • ESSE TEXTO FALA SOBRE MÃES
  • ESSE TEXTO FALA SOBRE UMA MÃE MUITO ESPECÍFICA E MUITO EMPUTECIDA COM AS MERDAS QUE VOCÊS ANDAM FALANDO SOBRE CRIANÇAS E MÃES

Achei conveniente alertar porque essas três coisas andam ofendendo muitíssimo as pessoas esclarecidas da internet ultimamente. Se você é uma delas, fique à vontade para se retirar, ou continue conforme suas próprias intenções. Eu não sou do tipo que bota plaquinhas com proibições por aí. Sigamos.

Desde que a treta sobre o restaurante proibindo a entrada de crianças explodiu há alguns dias, eu já li todo tipo de argumento em defesa da iniciativa: “os estabelecimentos têm direito de definir seu nicho de mercado”, “muitos pais não sabem educar seus filhos”, “há lugares apropriados para as crianças frequentarem”, “as pessoas têm direito de pagar para ter tranquilidade”, “ninguém é obrigado a aturar a birra do filho alheio”. E hoje eu descobri que quero ter a liberdade de escolher onde vou com meu filho porque não transo, e quero deixar o mundo todo enervado com a bagunça dele, por inveja, para que as outras pessoas não transem também. Puxado, né?

Me parece que todos giram ao redor de três pontos: 1) a responsabilidade exclusiva dos pais pelo que acontece a seus filhos 2) o direito de se isolar de grupos sociais que causem incômodo 3) o direito de pagar – e consequentemente de oferecer – por qualquer serviço demandado por alguém.

Então, eu vou propor que a gente extraia os conceitos que sustentam esses argumentos para saber se vocês continuam achando que eles são tão válidos assim.

1. Uma criança é responsabilidade exclusiva de seus pais.

É isso que você está dizendo quando defende que não é obrigada a aturar choro de uma criança que não é sua. É esse também o pensamento que sustenta a ideia de que os pais devem ficar em casa, para evitar que outros “sofram” com o comportamento de seus filhos, ou devem se limitar a lugares frequentados por outros pais ou outras crianças. Afinal de contas, apenas quem escolheu ter filhos deve lidar com as consequências absolutamente normais de existir uma criança em um espaço. Você está dizendo que só precisa conviver, se sensibilizar ou se responsabilizar pelas vulnerabilidades ou necessidades de outros seres humanos que tenham uma relação direta inalienável com você. Você está dizendo que só precisa suportar ou respeitar as reações normais de um outro ser humano se ele estiver sob sua responsabilidade legal. Você está dizendo que só é capaz de ter empatia em uma situação de conflito caso as pessoas envolvidas sejam semelhantes a você. É isso que você está dizendo?

2. As pessoas têm direito de se isolarem em locais onde não há crianças, porque se sentem incomodadas por elas

Quando alguém reivindica o direito de ter um jantar romântico, ou uma temporada tranquila em estabelecimentos que proíbam a entrada de crianças, essa pessoa está dizendo que tem o direito de se isolar em um local, onde todo um grupo social não é aceito. E não porque esse local é inadequado, ofensivo ou perigoso para crianças, mas para garantir o seu próprio conforto, já que o barulho ou a atividade de crianças podem incomodá-la em seu programa. Defende, portanto, que grupos sociais possam ser impedidos de frequentar e se comportar naturalmente em lugares, para preservar os outros frequentadores do que eles são e como agem. Normalmente, usa-se o argumento dos excessos, como se não fosse possível admoestá-los sem restringir a circulação de todo o grupo. Parece familiar? Você realmente acredita que pessoas de um determinado grupo devem ser banidas de espaços abertos ao público, só pela potencialidade que têm – construída em cima de generalizações e estereótipos – de incomodar outras pessoas?

3. As pessoas têm o direito de oferecer serviços discriminatórios e têm o direito de adquiri-los desde que possam pagar por isso

Restaurantes e hotéis não são serviços públicos, mas negócios privados. Quem oferece cobra para que os interessados tenham acesso. São, portanto, regidos pela lei do mercado, pelo lucro, e como qualquer empreendimento, têm seu público alvo e suas maneiras de atraí-lo. Você pode criar um menu exclusivo para casais românticos. Você pode estender seu horário de funcionamento e recomendar às pessoas que querem maior tranquilidade, quais os melhores horários pra isso. Você pode criar um ambiente mais intimista, que vai naturalmente repelir pessoas que precisem de espaço e luminosidade. Mas você não pode simplesmente proibir as crianças de frequentá-lo. Parece muito claro para mim quem faz segmentação e quem faz discriminação. Sejam honestos: quantas vezes vocês foram a um restaurante chique, à noite, e o encontraram abarrotado de crianças barulhentas impedindo os clientes de terem seus momentos de intimidade? Agora a pergunta é para quem se considera de esquerda: vocês realmente acham válido esse argumento de que todo e qualquer serviço pode ser oferecido desde que exista alguém disposto a pagar por ele? De que os prestadores de serviço devem ter todo o poder de definir onde cada grupo pode transitar? De que a sociedade ideal se define pelo máximo possível de exclusividades relacionadas a desejos e repulsas particulares pelas quais se possa pagar?

O pior desses conceitos é que eles estão contribuindo para construir um mundo segmentado, cheio de pessoas ignorantes sobre o básico da interação social: todos nós dividimos um mundo com outras pessoas, que possuem suas próprias maneiras de viver, e elas algumas vezes são incômodas. É absurdo que estejamos discutindo a sério como se isolar ou restringir a circulação de todo um grupo social, por características perfeitamente naturais que ele manifesta, especialmente quando esse grupo é o que tem menor capacidade de mobilidade e poder de mobilização, e maior potencialidade de ser vítima de uma série de opressões e violências.

Sem contar o efeito nefasto que a construção social sobre as crianças, como seres eminentemente incômodos, chatos, carentes e ignorantes tem sobre as cuidadoras dessas crianças, condenadas a uma vida social restrita ou a serem julgadas publicamente por se insurgir

Eu sou avessa a carteiradas, mas vou abrir uma exceção porque o assunto merece: eu falo desta questão com bastante emotividade e interesse porque eu sou uma mãe solo. Que vive sozinha com seu filho, distante a muitos quilômetros do pai desta criança e de qualquer outro familiar. Eu faço compras com o meu filho, eu vou a museus com o meu filho, eu vou a restaurantes e a bares com o meu filho, e tento me restringir apenas pelas limitações impostas por ele mesmo e pelo meu julgamento a respeito do seu bem estar. Porque na maior parte do tempo, eu não posso fazer nenhuma dessas coisas, se ele não puder estar presente. Mas principalmente porque eu e o meu filho somos cidadãos dessa cidade e temos todo o direito de desfrutá-la.

No mais:

É SÓ A PORRA DE UM JANTAR NUM RESTAURANTE.

Se o grande problema da sua vida é não ter tido todo o silêncio desejado na sua tão sonhada estadia com o mozão em Jericoacoara, talvez eu deveria estar fazendo um texto sobre o conceito de “problema”.

13962812_1120499764660558_7647358285928296000_oTâmara Freire é blogueira, feminista, jornalista e mãe. Gosta de filmes, livros, séries, café, campari, Almodóvar, Caetano, Clarice e conversa de bar. E também de internet e do vermelho nos seus cabelos e no dos outros. Gosta do vermelho em tudo, na verdade.
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49 ideias sobre ““Eu tenho direito de não gostar de criança” é a fralda cagada do meu filho na sua cara

  1. Adorei.
    Temos 4 filhos, hoje adultos, e sempre levavamos os filhos com a gente a todos os lugares, teatros, museus, supermercado e principalmente restaurantes!!!
    A gente mudava a toda hora e nao tinha ninguém para ficar com eles.
    Sempre encontramos gente fazendo antipatia, que reclamava das crianças, mesmo elas estando sentadinhas e comendo!!!
    Cansei de ouvir gente que criticava…
    E por serem 4 filhos a discriminação é muita…
    Desde as piadinhas sobre a falta de televisão até o menosprezo de muitas mulheres que consideram a maternidade um atraso na emancipação feminina…

  2. Pensei exatamente na segmentação. Já fui à restaurantes românticos, com direito a música clássica ao vivo as 11h da noite e ninguém precisou proibir criancas. E acho que se tivesse simplismente NÃO me incomodaria pela presença, porque o romântico é entre eu e meu companheiro. não preciso excluir da minha vista o diferente.

  3. Sei lá. Também sou mãe sozinha de dois (pq o pai deles resolveu que ter dois filhos pequenos era demais pra ele e arrumou outra que nao curte crianças, óbvio que ele nunca disse explicitamente). Mas enfim, eu nao vejo problema nessa restrição. Não levaria mea filhos em locais que não tem atrativo nenhum pra eles. E ficar sentado em um bar ou restaurante sem espaço kids por 2 horas pra eles é judiar demais.
    E tb não me importo se não querem meus filhos por perto. Aliás eu acho até excelente que as pessoas que nao querem crianças por perto tenham o local deles. Acho mais gostoso saber que estou em un lugar onde eu e eles somos bem vindos. Os meus têm 2 e 6. Logo crescerão e isso passará.

    • Adriana, a questão não é as famílias irem pra um determinado ambiente ou não. O problema é o princípio da coisa. Um caminho de organização da sociedade é proibir todo um grupo social baseado em um estereótipo homogeneizante. Ou seja, é proibir certo tipo de gente em certo tipo de espaço. Outro caminho é regular comportamentos (vindo de quem vier) em certos tipos de espaço. Proibir criança é ir pelo primeiro caminho.

      • Sou mãe e concordo com as restrições. Se formos seguir essa lógica todo espaço privado seria obrigado a aceitar crianças. A balada, o bar, o clube de swing, tudo. Muito melhor frequentarmos lugares onde nossos pequenos serão bem acolhidos.

        • Não, Ana, a balada, o bar e o swing são espaços proibidos para crianças para a segurança delas e não para o conforto dos adultos que não querem conviver com elas. É uma coisa totalmente diferente.

        • Ana, desculpa, mas este caso, MUITO CLARAMENTE, se trata de uma proibição para que as crianças não incomodem os outros, não para preservá-las de uma situação ofensiva. E o meu texto também aponta isso MUITO CLARAMENTE

      • Oi Adriana, complementando a Luciana, é uma questão de princípios pra mim, por isso em escrevi esse texto pensando em conceitos. O mundo que eu quero viver é um mundo que proíbe a livre circulação das pessoas, mesmo quando não há riscos envolvidos, em nome da “tranquilidade” alheia?

  4. Adorei. E voce esqueceu de um detalhe: o sistema de previdencia social é sustentado por pessoas mais jovens que asseguram a existencia de fundos para garantir os direitos do trabalhadores aposentados. Alem disso, em qualquer sistema social precisamos de pessoas trabalhando porque trocamos servicos e mercadorias por salario. Ou seja, sem pessoas jovens entrando na base da piramide a cada ano, nem o regime de previdencia, nem o proprio mercado, se sustentaria, pois so seriamos pessoas velhas. Entao, as pessoas que nao tem filhos tem uma divida com as pessoas que tem filhos, pois essas estao gerando os trabalhadores do futuro. Entao, quando alguem olha feio pra mim, eu olho sorrindo pra ela e digo: voce devia me agradecer.

      • Olha, nem vou entrar nessa discussao porque os animos estao muito exaltados, mas essa historia de que as pessoas que nao tem filhos tem dividas com as que tem é bem discutivel, viu… Eu pago impostos. Impostos que vao para escolas, hospitais e um monte de outras coisas que servem os filhos dos outros (entre muitas outras coisas, boa parte das vezes bem menos uteis que escolas e hospitais!). A aposentadoria que eu vou ter (se é que vou ter) esta sendo paga por mim HOJE. Eu estou ajudando a pagar aposentadorias hoje, e serei paga amanha. Nao é o filho de ninguém que vai pagar minha aposentadoria, sou eu mesma, com meus impostos de hoje. Se eu nao pago hoje, nao terei amanha. Sem contar que esse modelo ecômico baseado em consumo + aumento constante da populaçao é completamente insustentavel. Tem gente demais no planeta Terra, acho que ninguém duvida mais disso, né? Entao assim, ninguém tem divida com quem tem filho nao, a questao é bem mais complexa que isso.

        • E todas essas pessoas estão pagando impostos para sustentar serviços que você utiliza. Como é sabido, quem se dá mal mesmo nessa roda são os pobres, que pagam muito mais do recebem. A expectativa de vida felizmente esta crescendo, Adriana, então os nosso filhos precisarão sim subsidiar nossas aposentadorias no futuro. No mínimo, precisarão contribuir, para que o fluxo continue correndo. No mais, isso foi apenas um exemplo, comentado muito brevemente, inclusive, no meu texto que fala sobre comunidade, sobre o fato de nós precisamos das outras pessoas, por viver em sociedade, sobre o fato óbvio de que em determinadas situações (como na velhice, por exemplo) acabamos demandando mais do que oferecendo, em termos práticos. E fala sobre uma obviedade: sem crianças a raça humana seria extinta. Eu nunca disse que precisamos inchar a terra com novos habitantes, só constatei o óbvio. Eles está aí, eles são cidadãos, e eles são necessários.

          • Mas justamente, Tâmara: acho que ninguém pensa que a espécie humana esta correndo risco de extinçao, nao é mesmo? Alias: se estiver, é exatamente porque tem gente demais, nao de menos. Esse modelo é uma armadilha: estamos indo contra um muro e em vez de frear, nos estamos acelerando. Claro que a discussao é bem mais complexa. O modelo em que vivemos é um modelo de solidariedade generacional: eu pago a aposentadoria dos seniors hoje para que amanha alguém pague a minha. Entao, nao concordo mesmo que as crianças de hoje vao pagar minha aposentadoria. EU paguei minha aposentadoria, se nao tivesse contribuido nao teria direito a nada (ou à pouca coisa). Claro que crianças sao importantes para o futuro e mais que isso, sao seres humanos e apenas por isso, tem que ser respeitadas. Mas nao faz sentido dizer que quem nao tem filhos tem que agradecer a quem teve. Até porque, e repito, nao falta gente no planeta.

        • a taxa de reposição da humanidade para ela ser viável a longo prazo é de dois filhos , então qualquer modelo q não seja esse não se sustenta, nos já estamos indo para um caminho de envelhecer a população, e sua aposentadoria não se paga sozinha, todos pagam por ela

  5. Só queria entender o q quis dizer qdo escreveu “Agora a pergunta é para quem se considera de esquerda:”
    Por acaso é a galera de esquerda q ta defendendo essa bizarrice??? Tenho certeza q não, muito pelo contrário, quem sempre defendeu segregação foi a direita, enfim, completamente desnecessário esse seu trecho..
    Sou mãe solo e concordei com toda sua argumentação, mas isso ai ficou ridículo msm gata..

    • sim, Monique, muitas e muitas pessoas de esquerda de nosso conhecimento direto defenderam essa postura. O trecho não surgiu de uma consideração abstrata mas de diálogos reais.

      • A questão é que a educação vem de casa, literalmente. Ninguém é mesmo obrigado a ficar escutando birra de criança mal educada, ou ser “atropelado” em quanto elas correm em lugares inapropriados para correr. Volto a questão de que educação vem de casa e acrescento que começa pelos pais. Explicar para as crianças que existem lugares para tudo, para correr, brincar, falar alto, é educar. Acho que essas restrições vem dos absurdos que vemos todos os dias em todos os lugares, supermercados, padarias, restaurantes. Vejo elas sem orientação alguma, “pintando o 7” e os pais olhando para o vento. Foram várias as vezes que eu parei e falei “ei você não pode fazer isso”, como por exemplo um dia no supermercado, onde havia uma menininha de uns 5 anos, lindinha, puxando todas as sacolinhas de colocar frutas e verduras, a mãe só viu depois que eu falei que não podia fazer aquilo. O buraco e super mais em baixo. Vejo uma geração sem noção do que se pode e do que não se pode fazer. “Ah mas são crianças!” Sim são crianças é todo mundo sabe que é a melhor fase para aprender!

        • a questão não é se o comportamento é bom ou não. não é se são mimadas ou não (se fosse, tava bom de homens jovens serem banidos dos espaços públicos, ninguém se comporta pior que eles). a questão é se a sociedade tem direito de segregar ou não.

        • Taiana, desculpa, mas com que frequência você é atropelada por crianças em seus momentos de lazer, pintando o sete enquanto os pais olham pro vento? Porque, veja bem, uma menininha no supermercado, provavelmente não era nem um porcento de todas as crianças que frequentaram aquele supermercado naquele dia. E crianças são curiosas, cuidadores se distraem, que ultraje é esse por ter visto o que ela estava fazendo e ter comunicado? Essa imagem da criança birrenta e mal educada é um completo estereótipo baseada em estatísticas falhas como essa “teve uma vez”. Oras, se teve uma vez, no universo de interações sociais que a gente tem todos os dias, é um exemplo insignificante. E nós discordamos radicalmente sobre de onde vem a educação: crianças são pessoas, seres sociais. A educação não vem de lugar nenhum, ela é construída conjuntamente, em casa e na rua.

    • Ninguém merece adultos mal educados. Todos falam o quão insuportável é uma criança birrenta, mas eu encotro cada adulto sem noção… quem dará conta deles? para quem reclamamos?

  6. Olha, não tenho nada contra crianças, muito pelo contrário. Adoro. E costumo gostar mais de locais onde estão presentes, inclusive.
    Só não entendo muito essa “polêmica”. Há muito existem lugares assim. Por todo mundo. Todos esses destinos paradisíacos, por exemplo, estilo Punta Cana, Cancun, etc, até mesmo Cuba (isso citando apenas os que conheço) possuem hotéis onde crianças não são aceitas, e nunca ouvi ninguém reclamar. Aliás, pelo contrário, inúmeros casais que hoje estão felizes com sua prole optaram por uma lua e mel “livre dos pestinhas” em um “paraíso” desses aí. Não vejo um grande pecado em querer curtir uma piscina sem gritaria e água por todo lado (eu, particularmente, prefiro a gritaria, mas é uma opção minha), ou resolver que é o dia de beber demais sem se preocupar em expor uma criança ao seu “excesso”.
    É uma opção, uma opção de quem oferece o serviço e de quem o consome, ou não.

    • Carolina,

      acho que o texto é bem claro. Não se trata de gostar ou não gostar de criança. Se trata do modelo de sociedade que queremos. Se é excludente ou inclusivo. Se achamos que por ter alguém que pode oferecer um serviço e alguém que pode comprar esse serviço isso passa a ser legítimo e ético. Se alguém resolver fazer uma pousada só para heteros tá de bouas? Um restaurante onde idosos não podem entrar tá ok? porque alguém não quer conviver com gays ou com velhos?

      Quanto ao resto do mundo ter, a lógica é a mesma. Não é porque existe que é aceitável.

      No mais, não trabalho com pecado, com culpa, com moral. Trabalho com a noção de ética. Não espero que ninguém se sinta culpado ou pecador porque desejaria estar num ambiente higienizado, sem crianças. Só espero que a pessoa entenda que seu desejo não é superior as condições presentes na constituição, por exemplo.

      • A sua percepção do texto pode ter sido o que você escreveu, mas o título indica outra coisa. Já diz que uma pessoa não tem direito de não gostar de criança, o que eu acho muito contraditório já que existem tantos textos de feministas para feministas afirmando que ninguém é obrigado a abraçar a maternidade como algo mágico e maravilhoso. Não saiu uma reportagem recentemente de pais que não gostam dos filhos e muitas feministas apoiaram? Até as que eram mães? Não vejo problema em não gostar de criança assim como não vejo problema em não gostar de bichos. Vejo problema em maltratar crianças e bichos e usar o “não gosto” como desculpa. Porque isso não é não gostar, é ter falha de caráter a ponto de ferir outro ser vivo. Psicopatia, até.

        • Existe uma diferença entre não querer ter filhos e não gostar de crianças (ou dizer isso). Pra começar, os filhos só permanecem crianças assim, por uma parte curtinha de tempo, logo chegam aos 12 e são pré-qualquer-coisa-que-tirou-meu-juízo e depois disso… Eu, por exemplo, sou filha faz 41 anos e, desses, só 25% fui criança e esse percentual só vai diminuir. Além disso, se mesmo esses poucos anos são inconcebíveis, tem um monte de adolescente pra ser adotado. Ter filho é outra coisa.
          Mas o ponto do texto não é sobre ter filho, mas como o discurso “não gosto de criança” é absurdo por generalizar sobre um grupo heterogêneo a partir de estereótipos negativos e se torna segregador se usado para legitimar a exclusão de um grupo social do uso de espaços regulados de forma pública.

        • O “apartheid” nos EUA começou no argumento de que o estabelecimento podia segregar seu público.
          As leis de segregação só vieram depois…
          Jura que você não notou a associação com racismo na argumentação da autora?!
          Ela dá de bandeja quando menciona “grupos sociais”!

  7. melhor parte !
    “Agora a pergunta é para quem se considera de esquerda:”

    A primeira coisa que observei nos perfis dos comentários mais grotescos, do tipo de chamarem crianças de ” cuspi de buceta” ” ramelento” e a intolerância explicita veio de pessoas com perfil das cores contra homofobia, de “feministas” ( que nem sabem a real desse movimento ) e bandeiras vermelhas de esquerda… foi exatamente o comentário que fiz,
    disseminar ódio contra a criança, não querer uma perto, deixar claro a intolerância, pode? E pede respeito ?
    o que mais de dá raiva desses movimentos pela internet é que são a maioria de pessoas que não vivem isso! acham que só a “classe” e a categoria que eles vivem que merecem respeito!

  8. Prezada, sem querer emtrar em radicalizacoes é preciso ver os pontos de vista com o maximo de imparcialidade. Disse um filosofo que a etiqueta (nome cretino demais) é importante para que se torne a convivencia entre diferentes, possível. Nao vejo na europa e em alguns paises da AL. Criancas pertubando um ambiente sem que seus pais ou outros presentes chamem a atencao. Mas se isso for feito com uma das criancas que sao tratadas pelos pais como umbigo do mundo, isso vai acabar em pancadaria. Nao vejo problema em ter um bar que so aceite mulheres, que so aceite gays, que so aceite adultos. Na inglaterra existe vilas de casas só para idosos. Vai morar lá quem quer a paz dos velhos. Nao vejo nenhum mal nisso.

    • Não, não é preciso ver com imparcialidade. Aqui no BiscateSc nós temos lado. Estamos do lado das minorias, da proteção das pessoas mais frágeis na sociedade, estamos do lado da liberdade, da resistência e da sacanagem. Não precisamos do exemplo da Europa, queremos refletir sobre o tipo de sociedade e de sociabilidade que queremos construir. O que você vê como uma coisa tranquila, tem nome: segregação.

  9. Seu texto é bem esclarecedor, mas trabalho em um restaurante que tem área para criança, e justamente essa semana em que esse assunto explodiu tivemos um caso de uma criança que só corria e gritava sem parar, um grito agudo e estridente que persistiu por tanto tempo que estava impossível qualquer pessoa sentada no salão manter uma conversa. Até mesmo outros clientes que também estavam com criancas estavam visivelmente incomodados com aquilo, menos os pais que pareciam não se incomodar.

    Desculpe, mas não consigo achar isso um comportamento/reação normal e aceitável e por mais incrível que pareça isso é muito comum. A sensação que tenho é que ao sentar na mesa e mandar a criança para o play os pais se absteem da responsabilidade. E ai de quem se incomodar e for reclamar.

    Acho essa proibição bem ridícula, mas não se pode negar que existe um grande número de crianças mal educadas.

    • então, Adriano, o texto não é sobre a boa educação das crianças. Pessoas inconvenientes existem em qualquer idade. O estabelecimento pode ter uma norma de como lidar com estes clientes que são inoportunos, seja crianças, adultos, jovens ou idosos. O que os estabelecimentos não podem – por lei e por ética – é segregar e proibir a priori.

  10. Sim, nós gerenciamos comentários, conforme nosso Editorial indica. Não, não é contraditório com um projeto de sociedade inclusiva, pelo contrário. A sociedade já tem espaços demais para os variados discursos de opressão e exclusão. Aqui é um espaço de resistência. Não vou deixar aqui comentários que não dialogam com o texto, apenas repetem enunciados prévios com uma visão de mundo segregadora. Os comentários que debatem com o texto são publicados e respondidos.

    • Não: eu não odeio crianças. Jamais diria isso.
      Na real, a maior parte das pessoas que dizem essa pérola não as odeia de verdade: é só uma hipérbole idiota como tantas outras. Cês acham mesmo que aquela moça que já cometeu essa frase, vendo um pequeno correr pra via pública, ia ficar torcendo pra que um caminhão passasse por cima? O mais provável é que ela corresse atrás e o agarrasse pela camiseta. Bem, a não ser que ela seja uma sociopata, mas aí são outros quinhentos.
      Eu não tenho filhos e não tenho nenhum jeito com criança: não sei entretê-las e não consigo entrar naquela sintonia lúdica que lhes é peculiar. Mas sempre mexo com bebês nos lugares por onde passo e acho um barato quando percebo que eles estão rindo pra mim – e eles sempre riem! De vez em quando, tento entabular uma conversa com os mais velhos, mas confesso que é dificílimo dar continuidade. Em suma, não sou a pessoa mais indicada pra passar uma noite cuidando de crianças, já que meus recursos são limitadíssimos. Intuo que é uma mistura de inabilidade com falta de prática.
      Daí surgiu toda essa polêmica com lugares childfree e olha: mixed feelings! Exemplo cada dia mais frequente: dia desses, numa sessão às 21h de filme com censura 16 anos, tinha um casal com dois gurizinhos. O mais novo devia ter uns 5 anos e, claro, o inevitável aconteceu: com 15 minutos de filme, ele resmungava, chorava, falava alto, bicava a cadeira da frente. Eu fiquei super irritada, mas achei importante “decupar” essa irritação. Era com a criança? Era com os pais? O que eu senti? A resposta sincera é que, num primeiro e breve momento, o barulho me incomodou, mas eu me irritei mesmo com o fato de que aquela criança estava querendo desesperadamente ir embora e seria obrigada a ficar ali por mais duas horas. Caramba, não deve ter nada pior na vida do que ser impedido de sair de um lugar onde você está entediado e aborrecido a ponto de chorar! Minha empatia com ele foi 100%. Seres humanos, né?
      Daí vejo essa parte em que você diz que “tento me restringir apenas pelas limitações impostas por ele mesmo e pelo meu julgamento a respeito do seu bem estar” e fico me perguntando se tem uma galera aí que não pulou essa preocupação tão importante.

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