Meio Dia

Por Xênia Melo, Biscate Convidado

lambe

Muitas coisas me passam pela cabeça. Volta e meia durante o dia me pego refletindo, quando estou a fazer algo do cotidiano, sei lá, escovando os dentes ou respondendo um email, penso quem serão as pessoas a fazer sexo naquele momento? A contingência da vida nos leva a crer que os casais transam à noite. Antes de deitar, depois que os filhos dormem, depois da janta, quando os corpos já cansados da jornada diária resolvem se aproximar, o pé gelado que teima em não aquecer nesses dias de frio. Juntam os casais os corpos à noite. Qual idade tem esses corpos? Gosto de pensar sobre repartir o ordinário da vida, e isso inclui o sexo, inclusive aquele sem muito movimento e emoção, mas que encaixa, até quando a paixão já não é mais tão combustível e dá espaço aos lençóis que há um tempo não aquecem mais. Tem os casais as mais variadas idades, os que acabaram se de conhecer e aqueles que dividem décadas juntos. Quem serão as pessoas que trepam nesse exato momento em que escrevo, em que você lê, será hoje dia de semana?

Tenho pra mim que os amantes se encontram ao meio dia, não sei se li isso em algum lugar, ou se é habitado pela ideia de que os encontros acontecem nos intervalos possíveis do dia, sem mudar a rotina da vida própria. Quantos amantes haveriam hoje na cidade? Onde e como fazem pra se ver? Há quanto tempo desfrutam dessa relação? Me interessa o corpo das outras pessoas, me interessa o que fazem deles. Se estão a se permitir violar costumes, se apenas vivem platonicamente suas paixões, se empurram esse desejo para algo distante.

Era meio dia, e você me esperava fumando um cigarro, eu estava sem comer, mas minha fome era de você, eu sinto o gosto salgado do seu corpo já cansado na minha boca, era disso que tinha fome, de um corpo sem banho que já fez muita coisa pela manhã. Era assim que você aparecia, já sem graça, pedindo desculpas por estar suado. Eu queria na verdade era que você me comesse em público ali mesmo, havia perto uma praça. O dia estava lindo, fazia sol, sua jaqueta era suficiente a evitar que as formigas da grama nos atingissem, não era necessário tirar toda nossa roupa, abaixamos as calças, e você metia em mim sem esperar muito qualquer umidade dos nossos corpos, foi na pressa e seco, ardia, mas havia urgência e receio de que fossemos pegos, debaixo das árvores e do dia que insistia em brilhar. Você gozou, eu não, às vezes me assustava e me excitava a forma bruta que me tratava em alguns momentos. Rapidamente levantou e fechou as calças, me alcançou a mão para levantar. Eu ainda processava a rapidez daquela transa e o ardor do meu corpo. Mas não, isso tudo foi na minha cabeça enquanto esperava você terminar o cigarro e subirmos. Não estamos dispostos a arriscar e perder nossos segredos. De toda forma não tínhamos muito tempo, decidi abrir mão do almoço para que você me comesse, nossa fome era outra.

Na porta você já tirava a minha roupa, mal consegui trancá-la, sequer chegamos no quarto, eu nua, você ainda não, me coloca na mesa e metia ali mesmo, com urgência, sem um único beijo. Eu me assusto com sua pressa, sequer perguntou se eu estava bem, você tinha fome e desejo por mim. Isso me excitava. Minhas pernas doem e amortecem por conta da pressão contra a mesa. Peço para irmos para cama, você me carrega montada no seu pau, me aperta com força contra a parede e continua a meter em pé, profundamente. Me sinto pequena e impotente perto de você, parece contraditório mas eu gosto, gosto de estar à deriva,  gosto que você saiba que sou vulnerável quando estou contigo. Gosto que você decida sobre o sexo, que me surpreenda. Você não precisa de muito, sua presença é o suficiente para que me deixe molhada e excitada, ainda que eu consiga ter atenção a uma infinidade de coisas outras. Quando estamos perto o tesão é sempre presente, e isso é bom. A parede está gelada, e seu corpo ainda vestido é incapaz de me aquecer. Digo que tenho frio e você me carrega para o quarto, me joga na cama sem muito cuidado, e me chupa com a habilidade de quem há muito faz isso. Meu corpo já não mais sente frio, está consumido pelo tesão que de certa forma não sei traduzir. Você não parece nem um pouco interessado em tirar sua roupa, fico pensando se esconde alguma cicatriz, se será só pressa ou distração por estar tão concentrado no meu corpo. Volta a me comer e ergue minhas pernas contra meu peito, vai tão profundamente que sequer consigo gemer, você me ocupa de tal forma que mal consigo respirar. Olha pro seu pau entrando em mim, seu quadril se movimenta com tanta destreza que me chama atenção. Me pergunto como você me sente, se a mim você parece tão grande e delicioso, qual sentimento te ocorre? qual o desejo que minha vagina te provoca? E o meu corpo? Só agora você faz contato visual comigo, já muito suado, sinto seu rosto pingar sobre o meu, sorri, de certa forma envergonhado. Acho excitante isso, o quanto consegue ter consciência corporal mas ao mesmo tempo carregar uma timidez singular. Toca o despertador, parece que o tempo está a nos dar uma rasteira, há ainda muito desejo pra um tempo que já se exauriu. Você apenas fecha seu zíper, me beija o rosto, se despede. Pergunto se não me acompanha num cigarro, pega o que havia acabado de acender, dá um trago, diz que está atrasado para um compromisso. Me beija a boca, diz tchau e deseja uma boa tarde, eu sorrio.  Levanto, como a comida requentada da geladeira, tomo um banho, canto sozinha uma musica desafinada no chuveiro. Penso na cidade e nos amantes que habitam sobre ela.

xênia*Xênia Mello é arretada e não tem papas na língua. Apaixonada, combate com o coração exposto. Advogada, corajosa, meiga e persistente. Não perde a oportunidade de sensualizar no feminismo, biscate burocrática, rata no Chinês, capricórnio quando teimam. Insustentavelmente leve e de mansinho.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Uma ideia sobre “Meio Dia

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *