O tchauzinho de Mariana

Por Stela Guedes Caputo, Biscate Convidada

Quem viu o debate na terça-feira (18), entre os candidatos à prefeitura do Rio, Freixo e Crivella, teve a oportunidade de presenciar um protesto brilhante. Bem no finzinho, a jornalista Mariana Godoy reage ao comentário do bispo com um simples gesto: fez um “tchau de miss”.

tchau

O protesto de Mariana aconteceu quando, ao se despedir, a apresentadora disse que a transmissão ao vivo do debate era a mais vista no Facebook. “Eu quero agradecer a você, Mariana, Ana, e dizer que esse sucesso todo é por causa de vocês. Com certeza, a beleza de vocês encantou os telespectadores e a todos”, disse Crivella, refereindo-se às duas apresentadoras.

Por que o gesto, visível para milhões de pessoas na TV, nas redes sociais e multiplicado em memes, gifs e todo tipo de sátira é tão importante? Todas nós mulheres já vivemos essa situação. Preparamos uma aula, uma palestra, um texto, fizemos um cálculo, fabricamos um motor, desenvolvemos uma fórmula, varremos uma rua, lavamos e passamos, tocamos piano, falamos idiomas, publicamos livros, legislamos, ensinamos, aprendemos em aulas. Ao fim, somos vistas por nossos olhos, cabelos, pernas, bundas e peitos. A depender de como os padrões dessa sociedade machista definem olhos, cabelos, pernas, bundas e peitos, somos qualificadas e classificadas. Quantas vezes sufocamos diante de uma atitude machista (de todo tipo) quando gostaríamos de devolver a agressão? Quanto mais a relação de poder é apertada, mais sentimos a forca em nosso pescoço e bebemos internas lágrimas, silenciosos desesperos submetidas pelo assédio moral e sexual.

O gesto de Crivella foi bizarro, como foram e são bizarras as condições colonizadoras e patriarcais de nosso país. O colonizador primeiro escravizou mulheres, usando seus corpos, muitas vezes até a morte. O colonizador queria a buceta da mulher e seu útero. A primeira para o gozo sexual. O segundo para o gozo do capital já que era do útero da mulher negra que nascia mais mão de obra escrava para o colonizador branco crescer e multiplicar dinheiro e fúria. Em função desse mesmo patriarcado, as mulheres não podiam ser alfabetizadas, depois não podiam trabalhar, andar na rua sem estar acompanhada, votar, ocupar posições socialmente desenhadas para homens, receber salário igual. A luta para fazer o patriarcado colonial recuar foi imensa e custou a vida de muitas mulheres, sobretudo, a vida de mulheres negras.

Ao ironizar a fala machista de Crivella, Mariana, do seu modo, dentro de gigantescos limites, devolveu, com um gesto, o que todas nós, mulheres, devolvemos com luta na rua, com protestos, com internos prantos, com prantos expostos, com tapas, com processos judiciais, com ampliação de conquistas, direitos. E ainda mandou um “porra”, diante de milhões de pessoas. Sim, nós mulheres podemos dizer palavrões. Mariana rompeu um aprisionamento midiático. Com seu “tchauzinho de miss” mostrou que o projeto colonizador não conseguiu e não conseguirá domesticar nossos corpos. Mariana, do seu modo, se arriscou e, como dizem as novas linguagens facebookeanas: Mariana “mitou”.

Nos chamam feminazis toda vez que enfrentamos homens como Crivella. Não importa. Lutamos porque ainda estão de pé as estruturas patriarcais que sustentam o mundo em que vivemos. E até que essas estruturas sejam demolidas, continuaremos lutando, cada uma de nós a seu modo.

Crivella podia ter agradecido a inteligência e competência das duas apresentadoras. Não fez. Não faria. Um machista não vai além de si mesmo e de seu machismo. Nós, mulheres, vamos além das amarras, da submissão e da misoginia. Não se trata “apenas” de uma eleição municipal. Há MUITO em jogo. #ForaCrivella #ForaMachista#FreixoeLuciana50

14519817_1216963518376464_3496738441427865901_nStela Guedes Caputo é jornalista e professora da UERJ.

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