Sobre cantadas erradas

Random dude at the faculty cafeteria. Must be engineering faculty, telling from his books:
–Wow, you sure eat a lot for such a small woman.
–Wow, you sure talk a lot for such a stupid guy.
Wrong pick-up line, honey. On a very wrong day too.
(Asli Berktay, no facebook)

[Um cara qualquer na lanchonete da faculdade. Deve ser da engenharia, pelos livros dele.
– Caramba, pra uma moça tão pequena, você realmente come bastante.
– Caramba, pra um cara tão mané, você realmente fala bastante.
Cantada errada, querido. E num dia particularmente ruim.]

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Essa aí é uma de tantas. Cantadas erradas. Invasivas. Sem-noção. E num sentido específico: de onde o cara tirou que ele, sem nunca ter visto a moça, poderia dar palpite sobre quanto ela comia? O que será que ele pensou? Que seria visto como um elogio por ela ser magra? Que seria engraçadinho? É apenas invasivo e irritante.

Aí vem a questão: como abordar gente que você não conhece? Acho que se dar conta de que você não conhece é um bom começo. Mesmo que você tenha se encantado com a pessoa à primeira vista: a pessoa não necessariamente se encantou com você – e, sem querer desanimar, a probabilidade maior é de que não tenha acontecido. Assim, se você quer começar algo (uma conversa informal, sem consequências, ou quem sabe uma “amizade ou algo mais”), a dica é: é devagar, é devagar, é devagar é devagar devagarinho…..

Mesmo comentários francamente elogiosos sobre olhos, cabelos ou corpo podem ser percebidos como invasivos. Sim, caro leitor, é isso mesmo: o argumento “eu só estou elogiando” não é argumento. Não se sai comentando por aí dos detalhes físicos de gente que não se conhece. Se você fosse mulher, me arrisco a dizer que isso lhe seria evidente. É prerrogativa puramente masculina sair comentando o rosto e o corpo de mulheres desconhecidas e achar que está tudo bem. As mulheres sabem perfeitamente que desconhecidos, ora, são desconhecidos.

Veja, não estou dizendo que não se deve seduzir desconhecidos e desconhecidas, que não se deve tentar fazer contato, chamar a atenção. A questão aqui é o “como”. Caso você pretenda ser bem-sucedido e não apenas irritante.

O segundo ponto é: tentou e a pessoa não correspondeu? Deixe passar. Deixe pra lá. Não era uma boa hora, não deu certo, não rolou sabe-se lá por quê. Faz parte, né. A segunda tentativa já é um exagero e uma invasão em si.

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Ah, os filmes “românticos” mostram histórias assim o tempo todo? Pois é. Mostram mesmo. Danem-se os filmes “românticos”, que ensinam homens a serem irritantes, invasivos e insistentes.
Danem-se.
Era bom que a gente começasse a aprender de novo a não ultrapassar certas barreiras. A da boa educação, por exemplo.

Sei, é difícil, é contrário ao que seu pai diz, ao que o seu tio diz, ao que o seu irmão mais velho diz. Afinal, sociedade machista tá aí pra isso mesmo: pra perpetuar esse tipo de abordagem.

Mas a gente não ia mudar a sociedade? Tá, a sociedade inteira é difícil, é obra pra muito tempo e muita gente. Mas… pelo menos no nosso cantinho?

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