Uma rosa flutuante


“Dou muito” é percebido como “isso é muito importante pra mim”, quando a questão é apenas “tenho facilidade de dar muito”.

Essa fala aí, desse jeito mesmo, faz parte de conversa com amiga. E eu nem tava falando de mim. Nem tava falando de dar, assim, fisicamente. Era uma conversa sobre outra pessoa – vamos chamá-la de Rosa: uma pessoa querida, generosa, afetiva. Naturalmente assim. Aí ela se apaixona e – aparentemente – entrega tudo: coração, corpo, cabeça. Faz poesia, declaração pública, leva pro parque de diversão, pra passear em Paris ou em Bangu, tanto faz, tudo é uma festa mesmo. Ela é a festa. E enche os olhos de quem vê.

De quem recebe, por suposto. A pessoa fica se sentindo a pessoa mais maravilhosa do universo. A mais querida, a mais amada. A mais.

Aí um dia,  Rosa acorda e pensa “tá meio tédio por aqui”. Pouco movimento, tudo em volta com certo ar de déjà-vu. Poucos terrenos inexplorados. Ou peles. Gemidos já conhecidos.

Levanta, vai tomar banho, faz a mochila e vai. Sem olhar pra trás. Explorar novos universos, viver novas aventuras. Porque dessa matéria-vida ela é feita: intensa, generosa, amorosa e… leve. Escorregadia. Flutuante. Bolha de sabão. Arco-íris. Riacho cristalino.

E a pessoa que se imaginava amada, querida para-todo-o-sempre, cai de alto, em geral. Não entende nada. Terá sido algo que fez? Algo que deixou de fazer? O que terá acontecido? Por que uma mudança tão brusca, se ontem mesmo….?

Pois é. Só que não há explicação. Não há o que entender. Apenas acabou. Porque o que encantava Rosa não era você, ou sequer o relacionamento. Era o novo, a novidade, a aventura, as surpresas, a exploração. Acabou isso? Acabou. Rosa vai. Você fica.

Reescrevendo a história, catando cacos, colando pedaços. Se desfazendo em lágrimas, se enfurecendo. Não há nada a fazer, Rosa foi. Pode até ficar com pena, ela não é insensível: mas aquilo não a toca mais, já está olhando ao longe, na direção do horizonte. Tanto a andar ainda. Tantos caminhos, tantas peles macias, cachos de cabelo, tantas bocas úmidas. Tantos sexos. A vida chama. Ela vai.

Mochila nas costas, vai.

rosanaareia

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10 ideias sobre “Uma rosa flutuante

  1. ja fui rosa… já fui tanto rosa nessa minha vida… de repente, mudou. as vezes fico perguntando qual foi o gatilho dessa mudança, e percebo que foi a chegada dos filhos. acho que eles me deram algumas raizes…
    adoro esses seus textos…
    <3

    • Você tem cara de rosa mesmo… 🙂 acho que os filhos dão raízes às vezes… mas não precisam ser raízes p relação amorosa, né? conheço gente q continua rosa depois de vários filhos… e sempre me impressiona isso, das pessoas confundirem a manifestação do afeto com a dimensão ou a qualidade do afeto.
      beijos, querida. sempre bom receber sua visita!

  2. Achei lindo lindo. Um texto generoso e poético sobre as Rosas. Que às vezes são homens também né. Conheço alguns, acho. Agora desse negócio de invenção eu entendo, 😉 Beijo, sis.

  3. Como não lembrar de Cartola? Não pelas rosas que não falam, mas porque “tudo no mundo acontece… e acontece que eu já não sei mais amar. Vai chorar, vai sofrer e você não merece, mas isso acontece”… <3

    • Dri, que perfeito. Esse post tá inspirador pra músicas…. a Lu tinha associado com “A Rosa”, de Chico e Djavan (Arrasa o meu projeto de vida/Querida, estrela do meu caminho), que dá o ponto de vista de quem ficou.
      “Acontece” dá o ponto de vista da Rosa… que vai. O “você não merece”….
      Adorei! beijo!

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