Eu não sabia o que era uma gravidez ectópica

Por Simone Frigo*, Biscate Convidada

Quando aconteceu comigo eu nunca tinha ouvido falar. Sem falsa modéstia, não me considero uma pessoa pouco informada sobre sexualidade e tal… Mas não sabia e aconteceu comigo. Hoje, depois de quase cinco anos, resolvi contar a minha história, de como descobri sobre a gravidez ectópica e os procedimentos médicos realizados na situação.

Eu queria engravidar, ou melhor, eu e meu ex-companheiro queríamos. Colocamos o plano em ação. Nesse momento, ele foi fazer uma viagem de trabalho para a Espanha e ficou um mês fora. Esse mês foi o período onde exatamente tudo aconteceu.

Ele viajou, passaram-se uma semana. Minha menstruação deveria descer na quinta, não aconteceu. Na sexta de manhã comprei um teste de farmácia. Positivo. Tirei foto para mandar para ele. Fiquei mega feliz. No mesmo dia, período da tarde, fui fazer xixi e desceu sangue. Fiquei preocupada, confusa. Liguei para minha ginecologista. Ela me orientou a fazer o teste de sangue e tentou me prevenir, acalmar, dizendo que poderia não ser gravidez, que era muito cedo e coisa e tal. Segunda fiz o teste de sangue, super positivo. Nossa! Não deveria me preocupar, às vezes ocorrem sangramentos quando o embrião está se fixando na parede do útero, disse a ginecologista. Beleza. Segue a vida feliz.

Aí começou realmente minha agonia. Uma semana inteira tendo sangramentos na urina, dia sim, dia não. Por orientação da ginecologista, marquei uma ecografia transvaginal. Indicada para períodos iniciais de gestação, quando é necessário detectar algum problema. Minha ginecologista tentou me preparar mais uma vez. Conforme me disse, poderia ter acontecido um aborto espontâneo. Na pressa e ansiedade do momento, marquei a ecografia no único local disponível no dia. Fui mal atendida e conforme se confirmou depois, o procedimento não foi realizado da forma adequada. Simplesmente olharam meu útero e não todo o complexo reprodutivo e, me disseram, “não tem embrião nenhum aqui. Você não está grávida, pode nunca ter estado ou já teve um aborto espontâneo”. Saí de lá muito triste. Liguei para a ginecologista e ela indicou, por não confiar no laboratório que fiz a ecografia, que eu refizesse o teste de sangue em três dias.

Nesse período eu continuava tendo sangramentos esporádicos e uma dor, bem parecida com cólica, começavam a surgir. O estranho é que a dor não era no colo do útero, essa dor de cólica menstrual. Era mais ao lado direito, mas estava tudo muito confuso e só fui entender isso depois.

Refiz o teste, estava mais grávida do que nunca. Super hormônios no sangue. O que está acontecendo??? Não entendia mais nada.

Ginecologista mais uma vez. Refaça a ecografia transvaginal. Me indicou dois laboratórios. Consegui marcar para duas semanas à frente. Em uma semana e meia esperando o exame, as dores e sangramentos começaram a ser mais intensos.

Quinta feira liguei para a médica. Falei da situação. Pela primeira vez ela me falou do termo “gravidez ectópica”, me explicou através dos sintomas. Falou que poderia ser uma gravidez fora do útero, é isso que significa. Ela me indicou o pronto socorro da maternidade que atendia e me orientou sobre as dores. Se as dores aumentassem, eu deveria ir urgentemente para lá e chama-la. Ela é uma boa médica, particular já digo.

Fui para o Google. Simplifico aqui a pesquisa. O que é uma gravidez ectópica? Após o encontro do espermatozoide com o óvulo, este migra para a parede uterina dando início ao desenvolvimento embrionário. No caso da gravidez ectópica, o óvulo fertilizado se implanta em algum lugar fora do útero. Uma gravidez ectópica tipicamente ocorre em uma das trompas de falópio, um tubo que conduz os óvulos dos ovários para o útero. Esse tipo de gravidez ectópica é conhecida como gravidez tubária. Em alguns casos, no entanto, uma gravidez ectópica ocorre na cavidade abdominal, no ovário ou no colo do útero. Uma gravidez ectópica não pode prosseguir normalmente. O embrião não sobrevive e pode destruir várias estruturas internas da pessoa gestante. Por isso, o procedimento médico realizado é a retirada do embrião. Procedimento completamente legal e realizado em hospitais que possuem infra estrutura para tal. Se não for tratada, há o risco de hemorragias, que podem ser fatais. Ocorre entre 1% a 2% das gestações, mas por conta da dificuldade de acesso á saúde, está entre as importantes causas de óbito no Brasil. Ver mais em http://www.lersaude.com.br/gravidez-ectopica-uma-das-principais-causas-de-morte-materna/

Voltando…

Sexta feira, ilusão.

Sem dores, sem sangramento. Tudo vai dar certo. Não deve ser gravidez ectópica. Felicidade.

Sábado, negação.

Lembro como se fosse hoje. Passei o dia todo corrigindo provas, as dores aumentando. Eu pensando, vai passar. Só estou com dor porque fiquei muito tempo sentada. Me iludindo. Passei umas das piores noites da minha vida, com muita dor, muita cólica do lado direito do útero. Quero que saibam que eu não estava sozinha, tenho muitos amigos e familiares que poderia ter recorrido, mas eu não conseguia. O que eu conseguia fazer era ficar ali sozinha, sentindo dor. De madrugada coloquei o telefone ao lado da cama, achei que não iria aguentar a dor, pensei em morrer, dormi.

Domingo, aceitar a dor.

Acordei, tomei banho e liguei para o meu pai. Eu preciso ir para o hospital. Fomos. Hoje dou risada e penso, como os homens ainda precisam se preparar para acolher e vivenciar a dor dos outros. Meu pai parecia uma barata tonta, não sabia o que fazer…rs

No hospital, na verdade no pronto atendimento da maternidade, tudo foi muito dolorido. Você fica lá esperando para ser atendida vendo vídeos de bebes fofos numa tela. Ao meu lado, duas mulheres que estavam abortando (uma inclusive com muito sangue na roupa) choravam. Eu acionei meu módulo “I am a rock” e fiquei lá firme. Liguei para minha ginecologista, ela não atendeu. Deixei recado. A médica que me atendeu não foi simpática, nem nada, mas foi profissional e cuidou com as palavras. Ok. Fui encaminhada para uma nova ecografia transvaginal.

Um homem fez esse exame. Veja, não tenho problemas com homens atendendo em procedimentos ginecológicos, inclusive por mais de dez anos fui atendida por um ginecologista. Mas assim, foi terrível. Ele não teve nenhum cuidado com o meu corpo na realização do procedimento. Quem já fez este exame sabe do que estou falando.

Depois de ele ter literalmente enviado o aparelho da minha vagina, eu falei sussurrando: “a minha médica acha que pode ser gravidez ectópica”. Silêncio. Ele responde: “é isso mesmo. Olha aqui!” E aponta para a tela. “Tá aqui na trompa direita”. Eu já chorando, ainda pergunto: “Mas não tem jeito? Não tem o que fazer?” Ele só me responde assim: “Não. Não tem o que fazer. Tem que tirar, você já está com hemorragia interna. Vou te encaminhar para você ser internada agora. Coloca a sua roupa”. Sai chorando e encontrei meu pai na porta me esperando. Choramos os dois.

Fui internada e pouco depois minha médica chegou. Ela estava correndo uma maratona. Sim, ela é mara. Ela me explicou como seria o procedimento realizado. Me falou do médico que realizaria a laparoscopia, que era alguém de muita confiança dela. No meu caso, o procedimento foi indicado para minimizar os danos pós-cirúrgicos. No entanto, por conta do desenvolvimento embrionário já estar avançado, não foi possível manter a trompa. Ela foi retirada.

Na época, eu tinha um plano de saúde. Fui muito privilegiada, apesar das dores e violência. O sistema público de saúde ainda realiza uma espécie de cessaria para a retirada do embrião. Algo totalmente desnecessário e doloroso para a mulher.

Eu fui bem atendida desde então. Fiquei em um quarto com outra mulher que tinha dito um aborto, procedimento que acho fundamental. Imagina ficar com uma gestante? A cirurgia foi feita no domingo à noite. Saí do hospital na segunda de manhã. Meu ex companheiro voltou para casa nesse mesmo dia.

Foi algo bem triste, mas aconteceu. Muita, muita coisa na minha vida mudou desde aquela mês. Inclusive meu desejo de ter um filho. Não acredito nessa ideia de superar a dor. Acho que eu acomodo as minhas. E essa está acomodada, analisada (literalmente) e, agora, relatada.

Na verdade este texto surgiu quando vi as imagens de um clitóris sendo impresso em 3D. Pensei: nossa! Não sabia que era assim. Deste jeito, deste tamanho. E fiquei pensando em quanta coisa nós mulheres são sabemos pela repressão ou falta de pesquisa científica. O combo machista de sempre. Quanta coisa a gente não sabe? Eu não sabia sobre gravidez ectópica até acontecer comigo. Com certeza esse desconhecimento não é casual. Sobre as mulheres, só se desenvolvem pesquisas e se disseminam informações que interessam ao capital e a moralidade vigente. Nossos corpos como máquinas reprodutivas e de prazer para outros, nunca pra nós mesmas.

Pelo direito ao prazer. Pela gestação para quem escolher. Pelo respeito aos nossos corpos.

13923885_1062252323853510_7859926439137536941_o*Simone Frigo: doutoranda em Antropologia Social pela UFSC, Feminista e Pisciana.  Escreve quando a fala não comporta mais os sentidos.

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2 ideias sobre “Eu não sabia o que era uma gravidez ectópica

  1. Puxa, querida, sinto muito pela situação…Senti a sua dor daqui, a solidão com que você a viveu…
    Mas fiquei curiosa com uma coisa (desculpa perguntar): o fim da sua historia com o ex-companheiro teve a ver, de alguma forma, com esse acontecimento?
    Um beijo grande, sinta-se abraçada e compreendida…
    <3

  2. Querida, meus sentimentos. Tive um aborto retido e uma ectópica. Acho que nem precisamos nos falar sobre o mix de sentimentos que ocorrem nesses eventos. Achava que não era possível uma mesma pessoa ter duas “sortes” mas vi que a vida é irônica.

    No meu caso o final foi diferente: tomei uma injeção para cessar o crescimento do embrião. A trompa não tinha salvação de qualquer jeito, os médicos cogitaram fazer cirurgia mas por fim preferiram aplicar essa outra técnica. E eu fui atendida no sistema público aqui em BH numa maternidade nota 10.

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