Para não deixar de referir um assunto tão atual

Por José Navarro de Andrade, Biscate Convidado

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O amor é um sucedâneo do medo.

Incómodo e bruto, do medo há o hábito de afirmar que enfraquece, tomando-o como um estado de espírito; mas na verdade é mais do que isso, é uma disposição orgânica – cheira mal, procura a sujidade, provoca ruídos torpes. Mas não havendo na natureza nada perfeitamente maligno, também o medo goza de qualidades, como a de ser um tónico para o instinto de sobrevivência.

Eles alongaram o domingo na cama, nús, devorando figos, lendo páginas de livros começados, conversando sem fim ou apenas vagueando a imaginação. Durante um pouco da manhã ouviram música, mas depois preferiram o rumor da cidade a passar lá fora. Entretiveram-se também a fazer amor quando apeteceu. Ao início da noite vieram à sala, depois de correrem as persianas, para ver o jogo na TV enquanto comiam queijo fresco com pimentos vermelhos assados de conserva.

Setembro é um mês ingrato para uma grande população de estudantes, namorados e vinicultores — nele são raros dias assim. Ora isto acicata o medo. O medo de nunca mais regressar a um dia em que nada foi necessário, a um estado de tão ocasional e mínima felicidade. Não é aqui o caso de um medo de perder, mas sim o medo de não voltar a ter. Se aquele é vulgar e contumaz como um desarranjo intestinal, este é lento, um cancro minucioso que vai progredindo célula por célula.

Como de costume, o remédio está na própria doença. Assim é o amor, aparecido na vontade de tornar a ser feliz. Só atinge o amor quem atravessa o medo.

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José Navarro de Andrade é português, sportinguista e a melhor e mais querida pessoa para ter a nos esperar quando se atravessa um oceano.

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